A actualidade de Safo – poetisa da Antiga Grécia, 617 a 560 A.C.

Pintura afresco em Pompeia, que se pensa representar Safo.

Comparada a Homero; segundo Platão, a décima Musa. Era «a Poetisa», tal como Homero era «o Poeta». Manuscritos, nunca os vimos. Provavelmente, queimados, devido ao fanatismo de eclesiásticos bizantinos. Só alguns poemas inteiros chegaram até nós; o resto são fragmentos.

Porque nos fascina ainda, uma frase, um verso, passado 2600 anos?

«E de súbito / a madrugada de sandálias de ouro».

Fascina-nos por que se fala do que é simples: a alegria da aurora, o despontar do amor, a frescura de uma rapariga, semelhante a Afrodite, a deusa do Amor:

«Com lúcidos pés, assim dançavam/noutros tempos as raparigas de Creta / à roda do altar; frescas eram / e frágeis as flores da relva que pisavam».

As deusas protectoras das mulheres: Afrodite, as três Graças; Hera, a deusa da fecundidade. Da natureza, do canto, da dança e da lira, dos corpos e das vozes femininas irrompem a força de Eros, da Vida. Da voz da terra fecunda, do perfume das flores emanam o sagrado, a beleza e o bem.

«Quem é belo, é belo de ver, e basta/mas quem é bom subitamente será belo».

Safo viveu na ilha de Lesbos entre 617 a 560 A.C. Descendente de uma família aristocrática, casou com um homem poderoso, mas pouco se fala dele. Foi exilada para a Sicília, por motivos políticos; enviuvou; regressou a Lesbos. Era chamada «a lésbica» por ser uma pessoa célebre, natural dessa ilha. A sua sepultura mereceu honras próprias dos heróis; a sua imagem, cunhada em moedas. Depois, pelos séculos fora, foi considerada, por uns, como «abominável», homossexual; por outros, reconhecida e estimada. Esta incompreensão provém do desconhecimento do conceito de «Eros», na época da cultura nobre.

«Outra vez Eros me agita o coração –/ assim nos montes / o vento sacode os carvalhos».

O casamento era o objectivo dos jovens e das jovens. Nos primórdios da Antiga Grécia, na iniciação dos rapazes e também na das raparigas, o amor entre eles e entre elas tinha uma função pedagógica. Não é uma ignomínia. Pelo contrário, é uma aprendizagem do amor pois este é a Força vital, sagrada, a base da existência.

«Ah, pudesses tu dormir / nos braços da mais terna amiga…».

Safo era a mestra que orientava a educação das raparigas, antes do casamento. Muitas vinham do Médio Oriente para serem instruídas no amor, nas artes musicais, dança e canto.

«Cheia brilha a Lua, e as raparigas / de pé como à roda de um altar…»

Dançam nas festas em honra dos deuses, acompanhadas ao som da lira tocada por Safo; ou nas festas de casamento.

«Divina lira, fala / torna-te voz».

Afrodite era venerada no florescer da natureza que surge como uma necessidade religiosa universal. Veja-se o mês de Maio. Nas antigas florestas gregas, agora tornadas mosteiros, as mulheres fazem procissões em honra da Virgem Maria.

«Se passares por Creta vem ao templo sagrado / das virgens, onde mais fundo é o bosque / (…) // Aqui onde a sombra é a sombra das rosas / entre ramos de macieiras corre a água / e do rumor das folhas vem o sono (…) // Vem, Cípris, a fronte cingida, e nas taças / de oiro, voluptuosamente entorna / o claro vinho e a alegria».

Após a aprendizagem, as raparigas regressavam à casa paterna para casar. As despedidas entre a mestra e uma ou outra aluna, eram às vezes penosas:

«O que eu quero é morrer, morrer / Ela em lágrimas banhada dizia-me // ao partir: Ah, Safo que sorte tão cruel / é contra minha vontade que te abandono! // Eu respondi-lhe: Adeus e lembra-te de mim! … // … deixa que te lembre algumas horas belas: // as grinaldas tecidas, lado a lado / de rosas, violetas, e alguma / flor de açafrão sobre o teu cabelo…».

Safo sabe o que vale :«Eu digo: alguns / de mim terão memória».

«Amo-te,Safo… / … (diz-me a deusa de Chipre)… / … gloriosa serás até na escura / morada de Aqueronte».

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

A mulher que pode ter autoridade sobre os bispos

Francesca di Giovanni, nomeada pelo Papa para o cargo de subsecretária da Secção para as Relações com os Estados, considerou a sua escolha como “uma decisão inovadora [que] representa um sinal de atenção para com as mulheres.

Papa considera “superado” episódio do livro sobre celibato

O Papa Francisco terá considerado ultrapassado o episódio do início desta semana, a propósito do livro sobre o celibato, escrito pelo cardeal Robert Sarah, da Guiné-Conacri, e o Papa emérito Bento XVI (ou que o cardeal escreveu sozinho, usando também um texto de Ratzinger).

Henrique Joaquim: “Assistencialismo não tira da rua as pessoas sem-abrigo”

“O assistencialismo não tira a pessoa da rua, não resolve o problema; ainda que naquela noite tenha matado a fome a uma pessoa, não a tira dessa condição”, diz o gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo, Henrique Joaquim, que esta quinta-feira, 2 de Janeiro, iniciou as suas funções.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Beleza e ecumenismo

A junção de beleza e ecumenismo evoca a luxuriante diversidade num jardim. A beleza tem afinidades com a surpresa: é a vitória sobre o banal, o monótono.

Cultura: novas histórias e paradigmas…

“Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” – afirma a exortação pastoral Evangelii Gaudium. Na mesma linha em que o Papa João XXIII apelava ao reconhecimento da importância dos “sinais dos tempos”, o Papa Francisco afirmou que: “É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades.

Cultura e artes

Cinema: À Porta da Eternidade novidade

O realizador Julian Schnabel alterou, com este filme, alguns mitos acerca de Vincent van Gogh, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos. Os cenários, a fotografia e a iluminação do filme produzem uma aproximação visual às telas do pintor, no período em que van Gogh parte para Arles, no sul de França, em busca da luz, seguindo todo o seu percurso até à morte, aos 37 anos de idade.

Que faz um homem com a sua consciência?

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Guiné-Bissau: das “cicatrizes do tempo” ao renascer do povo

Este mês fui de visita à Guiné. Uma viagem de memória para quem, como eu, não tinha memórias da Guiné. Estive em Luanda ainda em criança, mas as memórias são as próprias da idade. Excepção à única em que o meu pai me bateu. Às cinco da tarde saí de casa e às dez da noite descobriram-me a assistir, divertida, ao baile no clube. Uma criança de cinco anos, branca e loura, desaparecida na Luanda dos anos 1960 não augurava coisa boa, o que gerou o pânico dos meus pais. Daí a tareia…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
21
Ter
Viagem pela Espiritualidade – Conversa com Luís Portela @ Fund. Engº António de Almeida
Jan 21@18:15_19:15

Conversa em torno do livro Da Ciência ao Amor – pelo esclarecimento espiritual, de Luís Portela, com apresentação de Guilherme d’Oliveira Martins e a participação de Isabel Ponce de Leão, Luís Carlos Amaral, Luís Miguel Bernardo, Luís Neiva Santos,
Manuel Novaes Cabral e Manuel Sobrinho Simões

Jan
23
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 23@21:30_23:00

Conferência sobre “Periferias”, com Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco