A primeira poetisa da Europa

| 24 Nov 19

A actualidade de Safo – poetisa da Antiga Grécia, 617 a 560 A.C.

Pintura afresco em Pompeia, que se pensa representar Safo.

Comparada a Homero; segundo Platão, a décima Musa. Era «a Poetisa», tal como Homero era «o Poeta». Manuscritos, nunca os vimos. Provavelmente, queimados, devido ao fanatismo de eclesiásticos bizantinos. Só alguns poemas inteiros chegaram até nós; o resto são fragmentos.

Porque nos fascina ainda, uma frase, um verso, passado 2600 anos?

«E de súbito / a madrugada de sandálias de ouro».

Fascina-nos por que se fala do que é simples: a alegria da aurora, o despontar do amor, a frescura de uma rapariga, semelhante a Afrodite, a deusa do Amor:

«Com lúcidos pés, assim dançavam/noutros tempos as raparigas de Creta / à roda do altar; frescas eram / e frágeis as flores da relva que pisavam».

As deusas protectoras das mulheres: Afrodite, as três Graças; Hera, a deusa da fecundidade. Da natureza, do canto, da dança e da lira, dos corpos e das vozes femininas irrompem a força de Eros, da Vida. Da voz da terra fecunda, do perfume das flores emanam o sagrado, a beleza e o bem.

«Quem é belo, é belo de ver, e basta/mas quem é bom subitamente será belo».

Safo viveu na ilha de Lesbos entre 617 a 560 A.C. Descendente de uma família aristocrática, casou com um homem poderoso, mas pouco se fala dele. Foi exilada para a Sicília, por motivos políticos; enviuvou; regressou a Lesbos. Era chamada «a lésbica» por ser uma pessoa célebre, natural dessa ilha. A sua sepultura mereceu honras próprias dos heróis; a sua imagem, cunhada em moedas. Depois, pelos séculos fora, foi considerada, por uns, como «abominável», homossexual; por outros, reconhecida e estimada. Esta incompreensão provém do desconhecimento do conceito de «Eros», na época da cultura nobre.

«Outra vez Eros me agita o coração –/ assim nos montes / o vento sacode os carvalhos».

O casamento era o objectivo dos jovens e das jovens. Nos primórdios da Antiga Grécia, na iniciação dos rapazes e também na das raparigas, o amor entre eles e entre elas tinha uma função pedagógica. Não é uma ignomínia. Pelo contrário, é uma aprendizagem do amor pois este é a Força vital, sagrada, a base da existência.

«Ah, pudesses tu dormir / nos braços da mais terna amiga…».

Safo era a mestra que orientava a educação das raparigas, antes do casamento. Muitas vinham do Médio Oriente para serem instruídas no amor, nas artes musicais, dança e canto.

«Cheia brilha a Lua, e as raparigas / de pé como à roda de um altar…»

Dançam nas festas em honra dos deuses, acompanhadas ao som da lira tocada por Safo; ou nas festas de casamento.

«Divina lira, fala / torna-te voz».

Afrodite era venerada no florescer da natureza que surge como uma necessidade religiosa universal. Veja-se o mês de Maio. Nas antigas florestas gregas, agora tornadas mosteiros, as mulheres fazem procissões em honra da Virgem Maria.

«Se passares por Creta vem ao templo sagrado / das virgens, onde mais fundo é o bosque / (…) // Aqui onde a sombra é a sombra das rosas / entre ramos de macieiras corre a água / e do rumor das folhas vem o sono (…) // Vem, Cípris, a fronte cingida, e nas taças / de oiro, voluptuosamente entorna / o claro vinho e a alegria».

Após a aprendizagem, as raparigas regressavam à casa paterna para casar. As despedidas entre a mestra e uma ou outra aluna, eram às vezes penosas:

«O que eu quero é morrer, morrer / Ela em lágrimas banhada dizia-me // ao partir: Ah, Safo que sorte tão cruel / é contra minha vontade que te abandono! // Eu respondi-lhe: Adeus e lembra-te de mim! … // … deixa que te lembre algumas horas belas: // as grinaldas tecidas, lado a lado / de rosas, violetas, e alguma / flor de açafrão sobre o teu cabelo…».

Safo sabe o que vale :«Eu digo: alguns / de mim terão memória».

«Amo-te,Safo… / … (diz-me a deusa de Chipre)… / … gloriosa serás até na escura / morada de Aqueronte».

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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