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À procura de um GPS espiritual

| 18/12/2021

Foto © Kazuend em Unsplash.

 

O que seria da vida espiritual se viesse com um GPS a ela agarrado? Foi esta a questão que Maurice Reidy, editor da America Media, abordou numa interessante e sucinta reflexão de Advento. Ninguém duvida da utilidade que um GPS tem nos nossos dias. Basta saber onde queremos chegar, introduzir o destino, e seguir o caminho que ele nos recomenda. Mas a razão de não ser possível aplicar esta metáfora à vida espiritual é que os mapas são pessoais e únicos, como é cada um de nós. Logo, na prática, não existem mapas da vida espiritual pré-definidos e iguais para todos.

GPS significa Global Positioning System, traduzindo-se como “Sistema de Posicionamento Global”: os satélites existentes em órbita terrestre interagem com os nossos dispositivos para nos posicionar no mapa mais actual que esses contêm. O desenvolvimento destes sistemas demonstra a importância da ânsia humana de saber onde está, definir para onde quer ir e qual o melhor caminho a seguir. Depois, os bons sistemas de GPS são capazes de nos re-orientar caso nos desviemos do caminho. A vida profunda faz-se de muitos momentos críticos onde somos chamados a tomar decisões cujas consequências não afectam apenas a nossa pessoa, mas também afectam aqueles com que nos cruzamos ao longo do dia e os que nos estão mais próximos. Por isso, a ideia de um GPS espiritual é apelativa, mas o desafio está no mapa que não é universal.

A vida de cada pessoa é um mapa único feito dos trajectos realizados ao longo da sua história. É verdade que nos cruzamos uns com os outros e o mapa de todas as nossas histórias não é 2D, nem 3D, mas multi-dimensional, o que complica o desenvolvimento de um GPS espiritual. Porém, não podemos esquecer que no passado não havia GPS. Nós orientávamo-nos por mapas e, quando o mapa era insuficiente para encontrar o caminho, ou não tínhamos um mapa connosco, perguntávamos às pessoas nas imediações por indicações. A relacionalidade era a chave para nos orientarmos no passado. Talvez aí esteja um vislumbre sobre o modo de desenvolver uma orientação para a vida espiritual e, quem sabe, um GPSe (em que o “e” significa espiritual). Mas, já agora, é preciso?

A ideia que algumas pessoas podem ter da orientação de uma vida espiritual é a de uma voz que lhes fala. Como alguns confundem voz exterior com interior, dificilmente conseguem entender o valor de uma vida espiritual que expresse essa dimensão fundamental de ser-se humano. Depois, os que são sensíveis à voz interior, mas permeáveis aos ruídos exteriores, dificilmente conseguem escutar seja o que for. Por isso, do mesmo modo que, antigamente, quando não sabíamos o caminho íamos ter com as outras pessoas, também na orientação espiritual podemos fazer o mesmo. Ou seja, em vez de estarmos à espera que as coisas aconteçam, podemos procurar no relacionamento com os outros a orientação que precisamos. Isso justifica a importância das comunidades de fé, dos orientadores ou acompanhantes espirituais, e do valor de tomar a iniciativa de ir ao encontro dos outros em vez de esperar que venham ter connosco. Mesmo assim, dava tanto jeito haver um GPSe que o mais lógico seria que fosse Deus, certo? Mas…

Um dos sinais da desorientação espiritual que sinto permear um pouco o nosso tecido social e religioso é falar-se pouco de Deus. Não por vergonha ou respeito, mas por existirem tantos conceitos de Deus ou tantos outros assuntos a falar que Deus deixou de ser um tema entusiasmante nas nossas conversas. No período natalício, em que o assunto a falar podia centrar-se em Jesus, logo, em Deus, também não tem sido um grande tema de conversa. É preferível falar das comidas, das boleias, das prendas, do futebol, da política, da covid, dos trabalhos, da vida dos outros, do que gostamos ou desgostamos, do que nos interessa por estarmos a ler um livro que devoramos no momento, ou que lemos/ouvimos nas notícias, mas Deus?… Reconheço a dificuldade porque de Deus sabemos muito pouco ou nem todos temos a mesma sensibilidade para a relação com Deus. E talvez seja necessário falar em tudo o resto antes de podermos orientar as nossas conversas para as realidades mais profundas.

Deus não parece ser um GPSe apesar de reconhecer que orientar a nossa vida por Ele é a minha escolha pessoal e a de muitos, mas não é universal ao ponto de se tornar um GPSe. Poderíamos ponderar nos valores como sinais orientadores que perfazem um GPSe (GPS espiritual), mas nem todos partilhamos os mesmos valores, pelo que não são universalmente aceites ao ponto de se tornarem um GPSe. Mas nesta procura penso numa experiência.

Uma experiência profunda que todos fazemos e que nos faz sentir edificados é a de alguém que nos agradece por algo de positivo que fizemos. Ou, por outro lado, quando agradecemos a alguém por algo que fez de bem, é impossível não experimentarmos a felicidade diante do sorriso que esboça. A gratidão é uma experiência universal profunda ao alcance de todos que nos une e fortalece os nossos relacionamentos. Talvez a gratidão seja um GPS espiritual que nos orienta para a felicidade do outro como destino da nossa própria felicidade. Que outro destino pode haver para uma vida espiritual que não seja orientá-la para a felicidade? Não é esse o desejo de Deus para cada ser humano? Nunca no mundo conturbado em que vivemos foi tão necessário este GPSe da gratidão como hoje. E imagino que as luzes de Natal que esse GPSe acende para iluminar o nosso caminho pelas ruas e trajectos na vida serão os nossos sorrisos. Se chegou até aqui, estou grato ao leitor por ter dedicado tempo à leitura desta reflexão.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

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