A progressiva iluminação das mulheres no budismo

| 5 Mar 19

Ilustração © Sara Naves

Tradicionalmente, e como em grande parte das tradições religiosas, as mulheres não tinham um papel destacado no budismo. Os livros mais importantes, como o Dharmapadaou o Livro Tibetano dos Mortos foram escritos por monges e espelhavam a concepção patriarcal das antigas sociedades asiáticas. Segundo Bernard Faure, autor do livro The Power of Denial: Buddhism, Purity and Gender (“O poder na negação: Budismo, pureza e género”) e estudioso de religiões asiáticas, tal como “a maioria dos discursos clericais, o budismo é misógino por inerência, mas tem um dos discursos mais flexíveis, aberto a multiplicidades e contradições”. Essencialmente, qualquer pessoa, de qualquer sexo ou idade se pode tornar Buda – apesar de, na prática, isso não ser assim tão simples.

Ainda assim, no tempo de Buda Gautama, existem várias representações positivas de mulheres, algo que, segundo os historiadores, se alteraram (para pior), alguns séculos após a sua morte.

A história do budismo e das mulheres tem início com Mahapajapati Gotami, madrasta de Buda Segundo o livro Old Path, White Clouds (“Caminho velho, nuvens brancas”), de Thich Nhat Hanh, que pretende recordar a história de Gautami, a madrasta e tia de Buda que quis ser consagrada quando morreu o rei Suddhodhana, seu marido, de Kapilavastu, no actual Nepal. O Buda recusou e partiu para Vesali, na Índia. Gotami cortou o cabelo, envergou vestes amarelas e seguiu o Buda, acompanhada de um grupo de mulheres que também queriam ser consagradas. Chegadas a Vesali, voltaram a fazer o mesmo pedido. Ananda, um dos principais discípulos, interferiu por Gotami, questionando Buda:

“ – Senhor, as mulheres são capazes de realizar as várias etapas do caminho da iluminação, como monjas?

– São, Ananda, respondeu o Buda.

– Se é assim, Senhor, seria bom se as mulheres pudessem ser consagradas como monjas, respondeu Ananda, encorajado pela resposta de Buda.

– Se Mahapajapati Gotami aceitar as oito condições, ela será consagrada como monja.”

Após esta intervenção, Gotami aceitou as oito Garudhammas (regras monásticas para mulheres, adicionais às que havia para os homens) e foi-lhe garantido o estatuto de primeira monja (bhikkhuni). As traduções deste episódio são dispares em alguns pormenores mas há consenso em dizer que o episódio ocorreu cinco anos após a iluminação de Buda e a primeira consagração de um homem para a sangha, a comunidade religiosa budista.

Historiadores e investigadores apontam alguns argumentos para explicar porque Buda não aceitou de imediato a consagração de Gotami: a condição e estatuto da mulher na altura (menos pessoas se interessariam pelo budismo se as mulheres fossem consagradas); a proteção das mulheres de humilhação pública; ou porque Buda estaria a testar a devoção daquelas mulheres.

Outra característica importante em relação à maneira como a mulher é vista no budismo prende-se com os vários ramos que nele existem. O budismo está dividido em três escolas: Theravada, Mahayanae Vajrayana. O primeiro ramo é considerado mais conservador e ortodoxo, dá mais ênfase a atingir o nirvana sozinho, a um nível pessoal. Já no budismo Mahayana, considera-se mais importante realizar o nirvana mas para dedicar a vida a ajudar os outros. Vajrayana, a mais recente escola (incluída na Mahayana) é também vista como a forma de budismo que mais destaca as mulheres e o feminino.

Muitos textos Mahayana viam o facto de se ser mulher e ser buda como antíteses. Mas outros textos afirmam que ser buda é algo sem forma feminina nem masculina, manifestando-se para além do género. Alguns textos retratam Buda em forma feminina.

Até recentemente, as linhagens de mulheres monásticas permaneciam apenas no budismo Mahayana (China, Coreia, Taiwan, Vietname e Japão). Apesar de continuarem a ser dominadas por homens, as formas de budismo no leste da Ásia trouxeram aspetos favoráveis às mulheres. A consagração total de mulheres é praticada na China e na Coreia e asanghade monjas prospera tanto na Coreia como em Taiwan, onde muitas jovens com educação superior têm procurado a consagração monástica.

 

O apoio do Dalai Lama

No livro Buddhism after Patriarchy (“O budismo depois do patriarcado”), Rita Gross dá conta que nos países onde predomina a escola Theravada as opções das mulheres sempre foram mais limitadas. Apesar de poderem adotar um estilo de vida de renúncia, não eram oficialmente reconhecidas como monjas – tendo um estatuto mais baixo que os monges. Nessa escola, o papel mais comum para as mulheres costuma ser o de dadoras. Na altura em que o livro foi escrito (1993), a autora afirmava que estariam a surgir “movimentos que tentavam reavivar a consagração das monjas”, normalmente controversos e recebidos com hostilidade ou cepticismo.

Hoje em dia, algumas mulheres têm tomado os votos monásticos completos nas escolas Theravada, apesar de continuarem a ser consideradas consagrações inválidas pelos mais conservadores

Ven Dhammananda foi a primeira monja tailandesa Theravada, consagrada no Sri Lanka, em 2001. Na altura, os monges budistas tailandeses opuseram-se fortemente à sua consagração mas, hoje em dia, há cerca de 50 mulheres bhikkhuni naquele país

Ainda assim, muitas monjas asiáticas continuam a pugnar por melhores condições e educação já que “séculos de discriminação não serão desfeitos da noite para o dia”.

O Dalai Lama na Mesquita Central da Comunidade Islâmica de Lisboa, em setembro de 2007: o seu apoio a um lugar de igualdade das mulheres no budismo tem sido claro; foto © Mohamed Abed

 

Em mais do que uma ocasião, o Dalai Lama expressou o seu apoio à total consagração de monjas. Em 2007, no Congresso Internacional sobre o papel da mulher budista na consagração, o Dalai Lama interveio a favor da continuação desta prática, afirmando que “se a maioria dos líderes mundiais fossem mulheres, provavelmente haveria menos perigo de guerra e maior cooperação global”. Já em 2011, em resposta à questão “Acha que o próximo Dalai Lama deve ser uma mulher?”, respondera que sim, porque já existem mulheres que são elevadas reincarnações entre lamas tibetanos.

No mundo ocidental, há várias monjas que partilham a sua experiência, normalizando a experiência de uma mulher em altos cargos religiosos. Claudia Coen de Souza ou monja Coen, em português, é brasileira e monja, e compara a vida de mulher num mosteiro à de um homem, afirmando que a das mulheres é ainda mais regrada e que elas “tendem a ser mais exigentes umas com as outras”.

Jetsunma Tenzin Palmo, monja britânica, defensora de iguais direitos e oportunidades para monjas budistas e uma das poucas yoginisa ser treinadas no Oriente – onde viveu durante doze anos numa caverna remota dos Himalaias – partilha, em forma de vídeo, que desde que o Dalai Lama falou do assunto, há mais mulheres a quererem ser monjas: “Se formos a algum mosteiro e perguntarmos qual o maior obstáculo para as mulheres se tornarem monjas, elas vão referir baixa auto-estima e falta de confiança. E isto vai levar algum tempo a mudar. Mas tenho notado que as primeiras raparigas que se tornaram monjas no nosso mosteiro são completamente diferentes das alunas mais recentes, que são mais confiantes e nem sabem que a norma expectável delas é a submissão – porque vêem que já existem monjas, não é algo fora do comum.”

 

Quão grandes são as diferenças de género dentro de cada religião? E o que querem as mulheres crentes em cada uma das confissões? Até 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, o 7MARGENS traça um retrato da situação das mulheres nas principais tradições religiosas e fala de alguns dos debates existentes sobre os seus papéis dentro das diferentes confissões, bem como sobre outras questões relativas à realidade social das mulheres nas sociedades contemporâneas.

Artigos relacionados

Breves

Anselmo Borges e a eutanásia: “Quem mata?” novidade

“Se algum dia se avançasse por esta via da legalização da eutanásia, o Estado ficaria com mais uma obrigação: satisfazer o direito ao pedido da eutanásia e seria confrontado com esta pergunta terrível: quem mata?”, escreve Anselmo Borges, professor de filosofia e padre, na sua última crónica no Diário de Notícias.

O Papa e os “teístas com água benta cristã”

“Quando vejo cristãos demasiado limpos, que têm toda a verdade, a ortodoxia, e são incapazes de sujar as mãos para ajudar alguém a levantar-se, eu digo: ‘Não sois cristãos, sois teístas com água benta cristã, mas ainda não chegastes ao cristianismo’”. A afirmação é do Papa Francisco, numa conversa sobre o Credo cristão.

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Eutanásia, hora do debate novidade

Seja qual for a posição de cada um, a reflexão e o debate sobre a eutanásia é uma exigência de cidadania e não uma discussão entre alguns, em círculo fechado, mesmo se democraticamente nos representam. Quando está em jogo o tipo de sociedade que desejo para os meus netos, não quero que outros decidam sem saberem o que penso.

“Qual é o mal de matar?”

A interrogação que coloquei como título deste texto foi usada por Peter Singer que a ela subordinou o capítulo V do seu livro Ética Prática. Para este filósofo australiano, a sacralidade da vida humana é entendida como uma forma de “especismo”, uma designação que ele aplica a todas as teorias que sustentam a superioridade da espécie humana.

Cultura e artes

São Pessoas. Histórias com gente dentro novidade

Há um tanque de lavar roupa. Há uma cozinha. Há o poço e as mãos que lançam um balde. Há uma sombra que foge. Há o poste de eletricidade que ilumina as casas frágeis. Há o quadro pendurado em que um coração pede “Deus te ajude”. Há a campa e a eterna saudade. E há uns tapetes gastos. Em cada uma destas fotos só se adivinham os rostos, os olhos, as rugas, as mãos rugosas, as bocas, as pessoas que habitam estes lugares.

“2 Dedos de Conversa” num blogue para alargar horizontes

Um dia, uma leitora do blogue “2 Dedos de Conversa” escreveu-lhe: “Este blogue é um momento de luz no meu dia”. A partir daí, Helena Araújo, autora daquela página digital, sentiu a responsabilidade de pensar, de manhã, o que poderia “escrever para animar o dia” daquela rapariga. Sente que a escrita do blogue pode ajudar pessoas que não conhece, além de lhe ter alargado os horizontes, no debate com outros pontos de vista.

Um selo em tecido artesanal para homenagear Gandhi e a não-violência

Os Correios de Portugal lançaram uma emissão filatélica que inclui um selo em khadi, o tecido artesanal de fibra natural que o Mahatma Gandhi fiava na sua charkha e que utilizava para as suas vestes. Portugal e a Índia são, até hoje, os únicos países do mundo que utilizaram este material na impressão de selos, afirmam os CTT.

Arte de rua no selo do Vaticano para a Páscoa

Um selo para celebrar a Páscoa com arte de rua. Essa será a escolha do Vaticano, segundo a jornalista Cindy Wooden, para este ano, reproduzindo uma Ascensão pintada por Heinrich Hofmann, que se pode ver na Ponte Vittorio Vittorio Emanuele II, em Roma, a poucas centenas de metros da Praça de São Pedro.

Sete Partidas

Uma mulher fora do cenário, numa fila em Paris

Ultimamente, ao andar pelas ruas de Paris tenho-me visto confrontada pelos contrastes que põem em questão um princípio da doutrina social da Igreja (DSI) que sempre me questionou e que estamos longe de ver concretizado. A fotografia que ilustra este texto é exemplo disso.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco