
O Papa Francisco, no número 5 da sua Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, agradece a Deus a existência de «tantos homens e mulheres que vivem a dedicação aos pobres e excluídos e a partilha com eles…» Foto © Vatican Media
O Papa Francisco, no número 5 da sua Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, agradece a Deus a existência de «tantos homens e mulheres que vivem a dedicação aos pobres e excluídos e a partilha com eles; pessoas de todas as idades e condições sociais que praticam a hospitalidade e se empenham junto daqueles que se encontram em situações de marginalização e sofrimento.» Não é possível saber quem e quantos são, porque muita partilha é feita no anonimato e/ou por pessoas que não estão integradas em qualquer tipo de instância vocacionada para a erradicação da pobreza. É a este perfil de pessoas que Francisco se refere, quando a seguir escreve: [Não são super-homens, mas «vizinhos de casa» que encontramos cada dia e que, no silêncio, se fazem pobres com os pobres.]. Esta forma de solidariedade espontânea torna impossível contar quem pratica as obras do bem, nesta área. Contudo, assumo a veleidade de crer que o regozijo de Bergoglio, não inclui todas as formas, como, por vezes, se ajudam as pessoas em situação de pobreza. Penso por exemplo nos que: dão o que já não presta para si; prestam ajuda, com sobranceria e que olham de cima para baixo os necessitados[1]; doam, impondo, a quem recebe, o cumprimento de obrigações virtuosas que eles não praticam; prestam auxílio, mas com pouca convicção, porque dominados por preconceitos como o de imputar a culpa de se ser pobre, unicamente, ao próprio; se sentem satisfeitos apenas com a doação de donativos e nada fazem, com as possibilidades que possam ter, em potenciar as capacidades pessoais das pessoas em situação de pobreza, encaminhando-as para as instituições vocacionadas para a erradicação deste flagelo social…Ouso interpretar o pensamento do Papa, que, embora, reconhecendo «a dedicação aos pobres e excluídos e a partilha com eles», tem o cuidado de prevenir que as pessoas que socorrem os mais frágeis, financeira e socialmente, e que ele muito aprecia são os que «Não se limitam a dar qualquer coisa: escutam, dialogam, procuram compreender a situação e as suas causas, para dar conselhos adequados e indicações justas. Estão atentos tanto à necessidade material como à espiritual, ou seja, à promoção integral da pessoa.». Esta constatação de Francisco, em meu entender, também é recomendação para quem age a título individual, mas, sobretudo, aos que o fazem em instituições, e com particular responsabilidade para as que têm uma identidade e missão cristãs.
Refiro-me aos agentes da Pastoral Social. É preciso ter um cuidado bem criterioso no recrutamento desses agentes, por ser um dos setores, com novas e maiores exigências e de importância decisiva para a missão da Igreja na transformação das realidades terrestres. Bento XVI manifestou esta preocupação logo no início do seu pontificado ao publicar a Encíclica Deus Caritas Est[2], e, sete anos depois, numa Carta Apostólica sob a forma de Motu Proprio intitulada Intima Ecclesiae Natura, sobre o serviço da caridade, que no §2 do art. 7, determina o seguinte: «Para garantir o testemunho evangélico no serviço da caridade, o Bispo diocesano cuide que quantos operam na pastoral caritativa da Igreja, a par da devida competência profissional, deem exemplo de vida cristã e testemunhem uma formação do coração que ateste uma fé em acção na caridade. Com esta finalidade, providencie à sua formação, mesmo em âmbito teológico e pastoral, através de currículos específicos concordados com os dirigentes dos vários organismos e através de adequadas propostas de vida espiritual.»[3]. No âmbito teológico é da máxima importância o conhecimento básico do Pensamento Social Cristão (PSC). Esta formação não só é conveniente para se salvaguardar a identidade das instituições eclesiais e grupos paroquiais de ação social, como também para se combaterem os diferentes tipos de pobreza, alguns identificados por Francisco, quando se refere ao n.º 11 da Encíclica Pacem in Terris, de S. João XXIII, para assinalar os 60 anos da sua publicação, em que refere a necessidade de cristãos bem preparados para ajudarem a resolver os muitos problemas sociais existentes. Por isso, escreve o Papa: «Quanto trabalho, temos ainda pela frente para tornar realidade estas palavras (as de S. João XXIII) inclusive através de um sério e eficaz empenho político e legislativo! Não obstante os limites e por vezes as lacunas da política para ver e servir o bem comum, possa desenvolver-se a solidariedade e a subsidiariedade de muitos cidadãos que acreditam no valor do empenho voluntário de dedicação aos pobres.». Todavia, o estudo do PSC não é uma premissa para os agentes da Pastoral Social, mas para todos os leigos, em geral, para que, nas instituições públicas ou privadas em que estão inseridos, como trabalhadores assalariados ou voluntários, possam dar um contributo mais humanista às decisões que, em cada tempo, são necessárias tomar, nomeadamente sempre que for necessário «estimular e fazer pressão para que as instituições públicas cumpram do melhor modo possível o seu dever».

“Francisco deixa também uma chamada de atenção ao que nós, vulgarmente, referimos como subsidiodependência, ao afirmar: Mas não adianta ficar à espera de receber tudo do «alto». E, quem vive em condição de pobreza, seja também envolvido e apoiado num processo de mudança e responsabilização.” Foto © Miguel Veiga
Mas, Francisco deixa também uma chamada de atenção ao que nós, vulgarmente, referimos como subsidiodependência, ao afirmar: [Mas não adianta ficar à espera de receber tudo do «alto». E, quem vive em condição de pobreza, seja também envolvido e apoiado num processo de mudança e responsabilização]. Esta é uma recomendação a ter em conta, já que a Pastoral Social no nosso país se reveste, predominantemente, de ações assistenciais. Muito, e de louvar, se faz para mitigar a agressividade da pobreza, mas poucos são os exemplos de programas e metodologias que demonstrem uma preocupação pela promoção das pessoas, socioeconomicamente, mais vulneráveis. Recursos humanos que contribuam para ajudar a reelaborar novos projetos de vida e de os acompanhar não nos faltam. Bastaria criar um “Banco de horas” para que muitos voluntários cristãos, de missa dominical, especializados em várias áreas, se disponibilizassem para dar o seu contributo. Fica a ideia, sem esquecer que a caridade verdadeira é libertadora e não permite, por isso, a existência da pobreza geracional que se alimenta, quando os que lidam com ela, se limitam a gerir a vida das pessoas em situação de pobreza e não a envolvê-las em soluções que as livrem desta injusta situação.
[1] Cfr. FRANCISCO, EJMJ LISBOA 2023 -Discursos e Homílias- Todos, todos, todos!, Prior Velho, Editora Paulinas, 2023, 61.
[2] Cfr. BENTO XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de Dezembro de 2005), Lisboa: Edições Paulinas 2006,31-39.
[3] Cf. https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/motu_proprio/documents/hf_ben-xvi_motu-proprio_20121111_caritas.html
Eugénio Fonseca










