No passado dia 31 de janeiro, realizou-se, mais uma vez em Sintra, o XVI Encontro Cristão, promovido pela Paróquia católica de Algueirão-Mem-Martins e pela Igreja Evangélica de Sintra. Como é hábito, o mote para o programa foi o texto bíblico que serviu de base à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2026, este ano centrado em Efésios 4:4. O 7MARGENS reproduz a seguir o texto que, por limite de tempo, não foi incluído na intervenção de Timóteo Cavaco, presidente da Direção da Aliança Evangélica Portuguesa, na iniciativa.
O capítulo 4 de Efésios glosa o tema do amor, recorrente em Paulo. Este é certamente o sentimento mais característico e identitário do ser humano, em particular na expressão do agapê, uma vez que qualquer pessoa é portadora da imagem e semelhança de Deus. A palavra começa por surgir no final do versículo 2: “Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros, em amor.” É muito sugestiva a palavra que Paulo usa, que muito apropriadamente é traduzida por “suportar”, em grego anechomai. Embora um verbo geralmente represente ação, é essa sua função sintática, a verdade é que este verbo remete para uma certa passividade. Ou seja, significa que existe uma força de baixo para cima que aguenta algo, que, enfim, permite que esse corpo não caia por ação da lei da gravidade. É como se a natureza fosse desafiada ou mesmo contrariada.
A tendência do crente também é cair, mas pelo amor eles sustentam-se mutuamente na comunidade. Que mistério este? Como pode alguém ser força e “peso morto” ao mesmo tempo? Mas esta é a dinâmica do corpo de Cristo. Não acontece em virtude das capacidades, da inteligência, da cultura de cada um, mas pelo amor que Deus implanta neles. Ora, este amor remete inevitavelmente para as palavras de Jesus em João 17:20-23, quando ora para que todos sejam um, a fim de que o mundo creia nele. Por isso, o cristão é constantemente chamado a regressar à raiz e não há outra senão o amor.

Se o versículo 2 apresenta o fundamento – o amor –, o versículo 3 remete para a construção e conservação do corpo: “…pelo vínculo da paz”. Paz aqui não é sinónimo de ingenuidade nem de mero pacifismo. Poucos anos depois de alguns pensadores herdeiros do protestantismo liberal anglo-saxónico, imbuídos de um forte otimismo teológico e histórico, terem proclamado a entrada no chamado “século cristão”, o mundo viria a ser abalado por dois conflitos bélicos mundiais quase ininterruptos, a que se seguiram outras guerras e tensões recorrentes, pondo em causa de forma traumática essa proclamação. Mesmo teólogos como Reinhold Niebuhr – colaborador da revista Christian Century, que tinha dado mote ao movimento –, passaram a criticar o excesso de confiança no suposto progresso da humanidade. O que parecia ser o culminar da civilização cristã não resultou, afinal, num mundo mais pacífico.
Mas a este díptico não podemos fugir: o amor e a paz são o garante da unidade. E é no versículo 4 de Efésios 4, que está patente a chave dessa unidade: “Há um só corpo e um só Espírito”. Esta é aliás, a fórmula cristológica fundamental que viria a ser cristalizada ao longo dos cinco séculos seguintes em quase toda a cristandade.
Não deixa de ser simbólico que os textos de 2026 para a Semana de Oração tenham sido tratados pelos irmãos da Arménia, tanto ortodoxos como evangélicos. Em particular, a Igreja Apostólica da Arménia, considerada a mais antiga comunidade autocéfala, na primeira nação a adotar o cristianismo, mesmo antes do Édito de Milão, não acompanha a grande maioria dos cristãos nos quatro concílios ecuménicos: reconhecem Niceia, Constantinopla e Éfeso, mas não Calcedónia, em 451. Mas esta também é uma imagem do percurso cristão: uns ficam juntos pelo século V, outros pelo século XI, outros ainda pelo século XVI. Apesar das diferenças, nada impede que, em amor e paz, se possa mostrar que o vínculo é Cristo, uma só Pessoa, em corpo e espírito, no qual “fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação”.
Vivemos num mundo profundamente polarizado e radicalizado, e este ambiente acaba inevitavelmente por influenciar e afetar também os cristãos. Nesse contexto, o próprio conceito de unidade tende a ser interpretado de formas distintas, quantas vezes apenas os seus extremos: ou como uma realidade vivida exclusivamente no interior de cada comunidade, numa lógica marcadamente “tribalista”, de “orgulhosamente sós”, ou, no extremo oposto, como uma unidade entendida como amálgama, isto é, numa expressão diluída, indistinta ou amorfa. Paulo introduz um equilíbrio fundamental: uma só unidade, muitos dons, diversos ministérios; uma perspetiva marcadamente carismática no sentido próprio do termo.
Podemos assim dizer que a diversidade não é ameaça, diferença não é defeito, pluralidade não é um impedimento para uma unidade baseada em amor e construída em paz. É importante reconhecer a riqueza que as diferentes tradições cristãs oferecem à vivência da fé: no protestantismo, a forte centralidade da Palavra de Deus; no catolicismo, a importância da Igreja enquanto comunhão visível e sacramental, corpo de Cristo na história; e na ortodoxia, a profunda ênfase na liturgia, no louvor e na experiência do mistério de Deus. Tudo isto, quando vivido em Cristo, não divide o Corpo: enriquece-o!
Timóteo Cavaco é presidente da Direção da Aliança Evangélica Portuguesa.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










