Não se roube a esperança aos pobres
A publicação recente da Exortação Apostólica “Dilexi te”, (“Eu amei-te” – em Apocalipse 3,9) sobre o amor para e com os pobres, pode secundarizar a Mensagem que o Papa escreveu a propósito do Dia Mundial dos Pobres, que se celebra sempre no domingo que antecede a celebração da Festa de Cristo Rei do Universo. Este ano será no próximo dia 16. Estes dois documentos são importantes para quem quer viver, individualmente e/ou com a sua comunidade paroquial, o amor ao próximo empobrecido.
Muito já se tem escrito sobre a Exortação. Já a li, mas guardarei por outra oportunidade para partilhar a minha reflexão sobre tão rico e oportuno documento. Agora, partilho o que penso sobre a Mensagem, consciente de que não me é possível fazer uma abordagem muito exaustiva de cada um dos seus pontos.

“O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Foto © Miguel Veiga
Leão XIV afirma, no 1.º ponto, que “No meio das provações da vida, a esperança é animada pela firme e encorajadora certeza do amor de Deus, derramado nos corações pelo Espírito Santo.” É óbvio que muitos dos pobres não são crentes e, acredito que, mesmo os que têm fé devem interrogar-se, muitas vezes, sobre a existência de Deus. Compete aos que a têm, mostrar esse Amor, no modo como acolhem as pessoas pobres, sem caírem no proselitismo. O amor divino é misericordioso, não julga precipitadamente, nem passa ao largo. Torna-se próximo.
No 2.º ponto, o Papa escreve que “O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas.” Há muita gente que está convencida de que os pobres o são, porque querem. Quando tal acontece é porque se resignam a essa situação e, assim, já se lhes escapa o direito que têm em ver respeitada a sua dignidade. A narrativa de qualquer crente tem de ser, incondicionalmente, a defesa da dignidade humana.
No 3.º ponto, o convite é para que se tenha uma vida sóbria. Não é que Deus se revele, preferencialmente, aos pobres que vivem sem meios dignos de subsistência, mas a todos os que não colocam a sua esperança, exclusivamente, nos bens terrenos. É que “Frequentemente, as riquezas iludem e conduzem a situações dramáticas de pobreza, sendo a primeira dessas ilusões pensar que não precisamos de Deus e conduzir a nossa vida independentemente d’Ele.” Deus revela-se na simplicidade das palavras que se dizem, no tipo de vestuário que se usa, na digna simplicidade dos lugares em que se faz atendimento social, seja nas paróquias ou em qualquer outra instituição católica.
No 4.º ponto, Leão XIV adverte para o facto se precisar “de caridade hoje, agora. Não é uma promessa, mas uma realidade para a qual olhamos com alegria e responsabilidade: envolve-nos, orientando as nossas decisões para o bem comum. Em vez disso, quem carece de caridade não só carece de fé e esperança, mas tira a esperança ao seu próximo.” Este trecho faz-me pensar na necessidade de organizar a caridade. (cfr. DCE, 20) Quem crê sabe que o maior mandamento é amar a Deus e ao próximo (cfr. Mt 22, 37-39). Nas nossas paróquias como se vive esta determinação divina? Cada uma já tem um grupo paroquial de ação social ou entrega essa responsabilidade ao Centro Social Paroquial?
No 5.º ponto, Leão XIV deixa a sua convicção de que “Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia.” O perfil do pobre, ou melhor, da pessoa em “situação de pobreza” – gosto mais desta designação – mudou. Infelizmente, há quem viva em situação de pobreza por causas diversas, sendo a mais evidente a falta de trabalho digno, apesar de possuir capacidades académicas e profissionais relevantes. Não seria de convidar alguns deles a fazerem parte dos nossos grupos paroquiais de ação social? Além disso, gostaria que, no próximo domingo, as paróquias tivessem um gesto fraternal para com os pobres. (GS, 69; AA, 8).
O que partilhei, como ficou dito, não abrange todo o excelente pensamento de Leão XIV. Peço aos meus estimados leitores que, se possível, antes do próximo domingo leiam toda a Mensagem.
Que se faça o que estiver ao nosso alcance, pessoalmente ou com a paróquia para que nunca se roube a esperança aos pobres.
Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado.










