
Pormenor de um mosaico de Marko Rupnik na Cova de Santo Inácio, em Manresa (Catalunha, Espanha), representando Adão comendo o fruto que Eva lhe dera. Foto © Medol, CC BY-SA 4.0, https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons.
Há pouco mais de um ano escrevi para o 7MARGENS um texto sobre este mesmo tema, inspirado na campanha então em curso relativamente à obra pictórica de Marko Rupnik. Reitero a posição defendida nessa altura, ou seja, a necessidade de julgar o réu pelas alegadas malfeitorias por ele cometidas, salvaguardando, no entanto, as suas produções artísticas em virtude do alto valor estético das mesmas.
De então para cá o caso tem ganho força e cada vez oiço mais vozes na Igreja (nomeadamente refiro as que têm sido publicadas no 7MARGENS) clamando pela destruição, ou pelo menos pela ocultação da mesma por camadas de tinta ou por paredes que impeçam a sua visão por parte dos fiéis. Respeito um justo equilíbrio entre a ética e a estética, por isso condeno que um destes valores se sobreponha ao outro, permitindo a sua anulação. Reiterando a posição que defendi no meu artigo do ano passado, continuo a pugnar pela manutenção dos painéis de Rupnick nos locais onde primitivamente foram colocados, pois continuam a constituir um valioso património humano e artístico.
A propósito desta temática partilho convosco um episódio que recentemente vivi com duas das minhas netas adolescentes, ambas estudantes de arte. Exibia-se num cinema de Lisboa o filme intitulado A Sombra de Caravaggio. A realização era de Michele Placido, um nome que pouco me dizia. Sem ter lido qualquer crítica prévia lá fui com as meninas assistir a uma obra nitidamente fraca em que o objectivo mais visível era mostrar a devassidão não só do artista como da Igreja do seu tempo, nomeadamente do Papa que constantemente o contratou.
Como sabemos, Caravaggio retratou muitos malfeitores, inspirando-se neles para os retratos dos seus santos, tal como se serviu de prostitutas para representar a Virgem e muitas das santas que magnificamente pintou. Saímos do cinema com atitudes diferentes – eu arrependida por ter partilhado com elas três horas de devassidão, elas surpreendidas pois nunca tinham pensado que o pintor que tinham estudado nas suas aulas se tivesse inspirado essencialmente em modelos de gente marginal, transpondo-os para personagens bíblicos ou para santos e santas que ainda hoje veneramos. Apesar da pouca qualidade do filme, ele foi-lhes útil para dar a conhecer o submundo romano de uma dada época, a relação entre a arte e o poder religioso, a actuação dos Papas enquanto mecenas, e, sobretudo, a capacidade de produzir beleza com materiais sórdidos.
Não passa hoje pela cabeça de ninguém mesmo das mentes mais moralistas, retirar os quadros de Caravaggio das múltiplas igrejas onde estão expostos. Continuamos a admirar a sua capacidade de produzir beleza, e as prostitutas que tomou como modelo para as suas santas não abalaram a devoção a estas. Pergunto-me se este critério, que me parece sensato e que nos leva a respeitar a arte, independentemente da sua moralidade ou imoralidade, não deverá estender-se a todos os grandes artistas, do passado e do presente. Condeno totalmente a actuação imoral de Rupnik. Mas respeito nele o facto de ser criador de uma beleza que ainda hoje se nos impõe e que certamente manterá os seus efeitos em tempos futuros.
Sob pena de me repetir, reitero a citação de John Keats que já mencionara no texto que escrevi sobre este tema: “A thing of beauty is a joy forever.”
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.










