A prova dos caracóis

11 Jun 19Entre Margens, Últimas

Como o trabalho voluntário em ambientes de incerteza e risco nos pode levar a viver valores que defendemos, mas que dificilmente concretizamos.

“O pai do pequeno Zé, menino que eu já me tinha habituado a acompanhar a casa, tinha preparado um panelão de caracóis para eu comer com eles!… e teve de ser!”. Foto © Marques Maia/Wikimedia Commons

 

Retomo e continuo a última crónica em que escrevia, recorrendo a um diário em que registei algumas notas, sobre o trabalho que fiz com 16 anos (em 1973) no Bairro do Relógio, em Lisboa, perto da Rotunda do Aeroporto, num Centro de Tempos Livres com crianças pobres em idade escolar.

Mais importante do que o planeamento de atividades no Centro de Tempos Livres, a sua concretização e o balanço que delas íamos fazendo, foi o Tempo dado que vivi nesses dias passados no Bairro do Relógio.

O Tempo dado só se diferenciava de todo este trabalho voluntário, por ser aquele que livremente nos dispúnhamos a dar fora do horário estipulado para atividades dentro do centro. Lembro-me que esta foi uma sugestão da assistente social que nos desafiou dando-nos inteira liberdade individual para a concretizar ou não.

Vamos então aos registos do que escrevi no meu diário:

 “(…) Hoje cheguei bastante cedo e já havia miúdos rondando o centro, tentando entrar. Uns trepavam as redes, outos saltavam para dentro. Enfim: um movimento inexplicável de crianças.

Algumas miúdas vieram ter comigo, com umas caras desejosas de saber do amor. Compreendi então que me tinha de dar na totalidade a todos se queria realmente trabalhar com eles.

(…) não sei bem como, mas a certa altura dei um lenço a uma miúda que tinha ficado encantada com ele quando eu a assoei de tudo o que tinha no nariz. Ficou tão contente com a prenda que se agarrou ao meu pescoço com tal força que senti dentro de mim uma tão grande alegria que, se tivesse 20 lenços, dava-os todos.

(…) Por fim, quando saíamos, sempre com muita dificuldade em deixar os lápis, a plasticina e os dados coloridos, íamos para a rua e víamos que havia já alguma ligação entre alguns de nós e os miúdos que se começavam a cativar mutuamente.”

Tornou-se um hábito sair com eles do Centro no final das atividades.

“(…) ao sairmos fiquei a falar com alguns dos miúdos e talvez por eles, ou por mim, conseguiram levar-me a dar uma volta. E foi uma volta que já mais esquecerei…”

A prova dos caracóis aconteceu numa dessas caminhadas que me habituei a fazer com os miúdos depois da atividade. Nessas voltas conversávamos mais à vontade e eles gostavam de me mostrar as casas e as famílias. Nem sempre me sentia muito à vontade, mas hoje reconheço que só “ganhei” na proximidade que fui conseguindo com aqueles miúdos que na sua humildade e gratidão me retribuíram muito para além do que eu dei.

Nunca tinha experimentado caracóis e para dizer a verdade só de pensar nisso dava-me volta ao estômago, mas nesse dia não havia volta a dar. O pai do pequeno Zé, menino que eu já me tinha habituado a acompanhar a casa, tinha preparado um panelão de caracóis para eu comer com eles!… e teve de ser!

E, surpresa… gostei!

Recordo com uma emoção muito especial, sempre que volto a comê-los, essa prova dos caracóis que agradeci do fundo do coração por me ter ensinado a receber de mãos abertas o que é diferente e nem sempre fácil, desde que seja sinal de amor e amizade.

 

Lisboa, Junho de 2019

 

Ana Cordovil é pintora

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