A quarentena romana do bispo Carlos Azevedo: Reduzir o convívio torna-se acréscimo de viver solidário

| 15 Mar 20

Partilho, fraternalmente, as minhas reflexões em dois dias.

Cúpula da Basílica de São Pedro, Vaticano. Outubro de 2019. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

6 de março de 2020

Em final de retiro, este ano sem o Papa Francisco, escrevo: Na adversidade, evidencia-se quanto a idolatria e a cegueira de não reconhecer a debilidade da fé dominam o concreto das nossas opções. De facto, substituímos a escuta por realidades que não falam, por ídolos. Muita liturgia pode pretender exaltar Deus, mas celebra apenas a exata aparência dos devotos. Substitui-se a consolação verdadeira pelo divertimento, multiplicador de tédio.

Ocorre, então, a força salvadora plenamente revelada em Cristo para que, na travessia perigosa e contraditória da vida, vençamos o medo e sintamos o encorajamento vindo da força dos dons de Deus, da vara que faz passar o Mar Vermelho, que oferece água na sede do caminho e sustenta na luta. Tudo é possível pelo amor misericordioso.

Deus precisa de servidores como Moisés, de seguidores de Cristo, de quem escute os gritos do povo, as dúvidas e tentações hodiernas, de quem faça a experiência da indigência, de quem se atire sobre as necessidades atuais e socorra os pequenos. Não com intenções, mas com a realidade da compaixão, da prática das obras de misericórdia.

Para sustentar esta fidelidade e resistir nas adversidades e perseguições, só a dedicação à oração manterá vivo o ministério da reconciliação, tão dependente e unido ao ministério da intercessão. Não se pode baixar os braços. Por isso, Moisés os mantinha altos, com a ajuda da comunidade orante.

Nesta Quaresma 2020, convido todos a fazermo-nos cargo de um serviço espiritual para assumir a missão de ser profetas da misericórdia. Profetas de mente lúcida, coração novo, ouvidos de discípulo, olhar atento e contemplativo, joelhos em adoração do único Absoluto, mãos estendidas e pés ágeis no socorro de quem precisa. O que vivemos pessoalmente não podemos arrecadar. Se Deus desceu ao nosso coração transforma as nossas relações num decisivo amor pela humanidade, a começar pela que nos está mais próxima.

 

14 de março 2020

Praça de São Pedro, vista da cúpula, fotografada em Outubro de 2007. Foto © Till Niermann

 

Agora sou provocado, não pelas meditações do retiro, mas pelo que observo: Praça de S. Pedro há vários dias vazia, pois compete ao Estado italiano vigiar pela sua segurança; escolas, museus, cinemas e teatros fechados; restaurantes e bares encerrados, deslocações aéreas impedidas, condições de trabalho alteradas, ausência de celebrações da eucaristia, fila de mais de meia hora nos supermercados nos quais não falta nenhum abastecimento, guardar o espaço de metro e meio e o intervalo de quem passa nos corredores, noticiários aguardados para escutar o avanço vertiginoso dos contagiados e debates televisivos com apelo ao essencial, exemplo de enfermeiros e médicos que se entregam desmesuradamente até caírem esgotados e alguns mesmo atingidos pelo Covid-19, a chegada de toneladas de máscaras e aparelhos hospitalares oferecidos pela China, a disponibilidade de voluntários em tantos prédios para fazer compras a quem deve estar em casa…

Trata-se de situação muito grave e séria, com consequências inesperadas na economia, exigente de uma responsabilidade cívica imediata e obediente às indicações sanitárias.

A globalização evidencia a sua potencialidade nos enormes dons para a sociedade e na facilidade para espalhar as epidemias. As descobertas científicas incentivam-se e partilham-se imediatamente para auxiliar os doentes. A humanidade prova uma autêntica fraternidade global de vivência solidária, multiplicam-se os apelos por parte dos mais variados sectores sociais e culturais, em vez da inútil intriga e má-língua.

Neste momento crítico, como viver a Quaresma?

Pode constituir oportunidade única para entender este deserto como apelo a perceber os desvarios de corridas inúteis, para descobrir a beleza de se ser plenamente para os outros, com opções que recusem a indiferença, para saborear o valor da interioridade e do silêncio, para gozar o afeto e convívio em família, para ler ou ouvir música, para inventar passatempos construtivos, para conceder tempo à conversa que aproxima e tece a relação, para soltar a fantasia da caridade.

Este tempo poderia levar a uma espera pesada, medrosa, impertinente; porém – dando conta que se trata de uma passagem para a Páscoa, não cronológica, mas ocasião de renascimento espiritual, de renovação de critérios e de estilo de vida – ganha peso de esperança, exatamente oposto ao desespero. Quando todos os eventos se adiam, a Quaresma impulsiona-nos ao já e agora.

Uma reflexão sobre esta hora leva-me a dar lugar à meditação, capaz de alimentar seja a oportuna humildade da nossa frágil existência da qual não somos donos, seja a real dependência uns dos outros, seja, ainda, a força da responsabilidade pelo bem comum.

No isolamento forçado, cresceremos na aproximação por meio de um telefonema aos distantes, aos sós em lares, aos doentes. Uma criatividade pastoral recorre e cristianiza, como nunca visto, o Facebook e o Youtube e as diversas redes sociais.

Reduzir o convívio social torna-se acréscimo de viver solidário.

 

Carlos Moreira Azevedo é bispo católico e delegado do Conselho Pontifício para a Cultura

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