A quem Deus vira as costas?

| 12 Fev 2024

[domingo vi do tempo comum // dia mundial do doente ─ b ─ 2024]

[onde estão meus braços? / na tua mão vermelha? / − circo das borboletas © haiku e fotografia: Joaquim Félix]. Foto: «Pietà», em madeira, esculpida por Mircea Roman, exibida na exposição «Sacrifício», em 2019, na Bienal de Vila Nova de Cerveira. 

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1. Acabamos de escutar quatro breves passagens bíblicas,
que muito se adequam ao Dia Mundial do Doente, que hoje celebramos.
Procuremos receber delas a luz da vida que condensam,
para sairmos daqui mais elucidados sobre a nossa condição
e sobre a compaixão e a vontade de Jesus,
que Paulo, através do seu testemunho de ‘agrado’,
nos exorta a experimentar e a pôr em prática,
«para a glória de Deus» (1 Cor 10,31) e o bem da comunidade.

2. Compreenderemos melhor a cura do leproso,
se recordarmos os preceitos do Levítico.
Tal como nos socorremos dos médicos, quando surgem certos sintomas,
também os judeus, detetando na pele tumores, impigens ou manchas,
que pudessem desenvolver-se em chagas de lepra,
se apresentavam ao sacerdote Aarão ou aos seus filhos sacerdotes.
Se o diagnóstico fosse positivo, a doença era declarada,
e o leproso, como ouvimos, estava obrigado a preceitos impiedosos
como vestir-se de forma andrajosa, cobrindo até o rosto, e andar desgrenhado.
Sempre que avistasse alguém, deveria gritar: «Impuro, impuro!» (Lev 13,45).
Tinha, ainda, de afastar-se do acampamento para morar à parte.

3. Por sugerirem tanta crueldade, tais preceitos podem causar estranheza.
Recordemos que, na cultura judaica antiga, mas não era a única,
o leproso era considerado como ‘a pessoa marginalizada por excelência’.
Além de ser estimada como uma das doenças mais repugnantes,
a lepra era vista como ‘punição divina’ por pecados cometidos.
Motivo pelo qual o leproso era tido por pecador público,
castigado por Deus (cf. Nm 12,14; Lv 13-45-46).
Era um cadáver vivo, «o primogénito entre os mortos» (Job 18,13).
É algo que, infelizmente, ainda hoje se conserva,
quando muitos, diante da dor e do sofrimento, se interrogam:
«Que mal fiz a Deus, para merecer tal castigo?»;
ou, então, «Porque Deus me vira as costas, quando mais preciso?»;
e outras perguntas semelhantes a estas.

4. Este tipo de questões faz lembrar «O círculo das borboletas»,
uma curta-metragem na qual se narra, entre outras, a vida de Will (Nick Vujicic).
Tendo ele nascido sem pernas nem braços,
ele como os demais portadores de «necessidades especiais»
estavam ao serviço de um circo que vivia do espetáculo das ‘perversões da natureza’.
Sim, daqueles e daquelas, como se diz, «a quem até Deus virou as costas»,
cujas doenças e malformações são apresentadas como «curiosidades da região».
Condenados a viver atrás de uma cortina… que se abre para o ‘espetáculo’.
Mas… haverá algo de inspirador na exibição das imperfeições de uma pessoa?
Creio que não haja. Nenhuma mesmo!
O problema surge quando perdemos a esperança naquilo que o mundo precisa:
«um pouco de ternura»; sim, repito como no filme, «um pouco de ternura».
É urgente, como fez uma criança, distribuir bilhetes para a magnificência da vida,
─ quando ela se liberta da crisálida e, como as borboletas, passa a voar ─,
e não de quem nos convença que até Deus nos pode virar as costas,
porque Ele jamais o fez ou fará:

 

5. Concentremo-nos agora no comportamento de Jesus.
Ele deixa Cafarnaum e aquela multidão que o cercava (cf. Mc 1,36-37),
e atravessa, atento e calmo, os territórios da Galileia.
Assim, com tempo para evitar os percursos mais rápidos,
encontra um leproso que lhe sai ao encontro.
Em vez da rigidez legalista, que prescrevia o seu afastamento,
Jesus deixa que ele se aproxime e, ajoelhado, lhe dirija a súplica:
«Se quiseres, podes curar-me» (Mc 1,40).
Note-se: é o único doente que, em todas as narrativas evangélicas,
se ajoelha diante de Jesus, num gesto de adoração e súplica.
Jesus não o recrimina, por infringir a Lei, que aliás bem conhecia.

6. Antes de lhe responder,
Jesus faz tudo aquilo que seria insensato para um judeu:
compadece-se dele, em solidariedade com o seu sofrimento;
estende-lhe a mão, ajudando-o a levantar-se da humilhação a que foi votado;
e toca-o, sem medo de contrair esta doença altamente contagiosa.
Depois de todos estes ritos do amor, da compaixão-em-direto-e-em-ato,
descendo ao encontro dos marginais e condenados pela vida e pela sociedade,
inclusive por uma ‘justiça de Deus’ mal compreendida, pervertida mesmo,
Jesus diz-lhe com o carinho do médico que rompe o código deontológico,
derramando nas palavras a sua vontade balsâmica:
«Quero: fica curado» (Mc 1,41).
Jesus estende-lhe a mão, com a força reabilitadora da ‘mão de Deus’.
Lembra-me todos os cuidadores de doentes, profissionais da saúde e visitadores,
e a atitude daquela imensa «Pietà», esculpida por Mircea Roman,
─ um dos mais reconhecidos escultores contemporâneos da Roménia ─,
exibida na exposição «Sacrifício», em 2019, na Bienal de Vila Nova de Cerveira.
Na verdade, aquela «Pietà», profundamente inclinada,
tinha na mão esquerda o rosto de alguém que assumira na sua ternura.

Foto: «Pietà», de Mircea Roman, perspetiva desde o lado esquerdo. © Joaquim Félix

 

7. Com esta sintética palavra de salvação,
diz o texto que, «no mesmo instante, o deixou a lepra e ele ficou limpo» (Mc 1,42).
Na sequência disso, Jesus ordenou-lhe, conforme a lei do mesmo livro do Levítico,
para voltar à presença dum sacerdote com a ‘oferta da cura’ prescrita por Moisés.
Não obstante lhe tenha pedido para calar quanto ao resto,
o homem, não se contendo de felicidade,
«começou a apregoar e a divulgar o que acontecera» (Mc 1,45).
O seu grito de ‘impuro’ dá origem a um novo grito, consciente da graça,
próprio de quem acaba de ressuscitar e tem uma ‘boa nova’,
um evangelho a difundir para aproximar as pessoas de Jesus,
curador de todas as formas de exclusão!
Nasce um ‘Homem novo’, ressuscitado pela Palavra de Jesus.
Ainda que ele não o desejasse, porque de contrário nada diria,
Jesus deixou de entrar abertamente nas cidades e,
por isso, «ficava fora, em lugares desertos» (Mc 1,45).

8. Talvez compreendamos agora o que Isaías dizia do servo sofredor,
e que aplicamos a Jesus:
«Ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores.
Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por causa dos nossos crimes,
esmagado por causa das nossas iniquidades.
O castigo que nos salva caiu sobre ele,
fomos curados pelas suas chagas» (Is 53,4-5).
Talvez entendamos agora porque é que S. Francisco de Assis,
no acto de abraçar um leproso, compreendeu todo o Cristianismo,
e começou o caminho de se tornar, até à morte e na morte, imitador de Jesus.
Não será por isso que S. Paulo nos diz para sermos seus imitadores, como ele foi de Jesus?
Seguramente, porque todo o escândalo ou acepção entre judeus e gregos,
ou entre quem quer que seja em nossos dias,
são formas de segregação, semelhantes à lepra, da comunidade e do louvor a Deus.
Não há pessoas a acolher e outras a evitar.
Se queremos ser «mimos» de Jesus, só há pessoas para nos compadecermos.

9. Hoje, incompreensivelmente, há tantas pessoas prisioneiras de ‘legalismos’,
fossilizados em dogmas anti-espírito-da-Lei ─ sempre na ponta da língua! ─,
para aplicar aos outros e os acusar de incumprimentos.
Nem mesmo os cristãos escapam a esta lepra terrível.
Por que razão acontecerá isto tão frequentemente?
Creio que tal sucede porque nunca nos vimos na condição do leproso.
Se aquele leproso fosse um de nós, que esperaríamos de Cristo?
Sentir-nos-íamos bem com a exclusão da sociedade e do louvor de Deus,
que os leprosos, naquela altura, estavam votados?
Não esperaríamos antes que Jesus nos acolhesse no seu amor incondicional,
compadecendo-se de nós e devolvendo-nos novamente à luz da vida?

10. Por isso, saibamos aproximar-nos de Jesus com as nossas enfermidades,
que Ele passa entre nós, cruzando-se no caminho das nossas dores e sofrimentos.
Precisamos de fazer como Santo Agostinho,
que tinha o salmo 31, cantado nesta eucaristia,
afixado numa parede do seu quarto mesmo em frente ao seu leito.
Conta a tradição oral que ele o meditava em lágrimas,
lembrando-se da sua antiga condição de pecador,
mas também por reconhecer que Jesus lhe perdoara a sua culpa.
Esta é uma atitude nova, que nos faz ressuscitar para a compaixão,
desde logo para com as pessoas mais queridas,
a quem o Papa Francisco não deixa de recordar,
na mensagem para o Dia Mundial dos Doentes,
no «Angelus» e no vídeo com a intenção da oração deste mês de fevereiro:
Lutemos, por isso, por mais e melhores condições de saúde,
nos hospitais públicos, inclusive para os cuidados continuados e paliativos.

 

11. Em perfeita sintonia com os temas deste dia,
sugiro a leitura, ou releitura, de um documento, que hoje completa 40 anos:
a Carta Apostólica «Salvifici Doloris»,
sobre o sentido cristão do sofrimento humano.
Por fim, recordo um dos ministérios dos doentes ao serviço da comunidade:
«Além disso, compete aos doentes na Igreja não só despertar nos outros,
com o seu testemunho, a lembrança das coisas essenciais e superiores
mas também mostrar que a vida mortal dos homens deve ser salva
pelo mistério da morte e ressurreição de Cristo»
(Ritual Romano, Unção e Pastoral dos Doentes, Preliminar n.3).
É precisamente este mistério que agora nos aprestamos a celebrar.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado dia 11 de fevereiro, domingo vi do tempo comum // dia mundial do doente ─ b ─ 2024, do calendário litúrgico católico,  proferida na  igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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