A questão racial nas igrejas evangélicas

| 6 Set 19

A presença de evangélicos no espaço público e na vida política brasileira tem-se tornado significativa desde a década de 80, coincidindo com a redemocratização do Brasil, após um longo período de regime ditatorial. A sua presença no Congresso e na Câmara de Deputados tem instigado debates sobre diversos temas relacionados com os Direitos Humanos, contribuindo para que os evangélicos se tenham tornado um relevante grupo de manobra política em tempos de eleições.

De acordo com o último censo populacional do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, o segmento religioso evangélico é aquele que regista o maior crescimento em número de fiéis. Dentro deste segmento, a Assembleia de Deus é a denominação que mais cresce. Não é, portanto, de estranhar que o segmento evangélico no Brasil venha adquirindo uma importância cada vez mais significativa no tratamento de determinadas questões políticas e sociais.

Presentes desde o século XVIII no território brasileiro, as primeiras igrejas protestantes tinham como principal função prestar serviços de capelania aos recém-chegados imigrantes norte-americanos. Vindos, sobretudo, dos estados sulistas, principalmente após a derrota da guerra da Secessão (1861-1865), os imigrantes sulistas encontraram na sociedade brasileira a mesma estrutura escravocrata existente nas suas sociedades de origem.

Favoráveis à escravatura, sustentavam o seu posicionamento no argumento de que ao Estado caberia a função de tratar dos assuntos políticos e às igrejas a responsabilidade de tratar dos assuntos da alma. Embora esta tenha sido o posicionamento dominante destas igrejas, houve entre os protestantes manifestações individuais de condenação da prática da escravatura e do tratamento reservado aos negros na sociedade brasileira.

A presença das igrejas pentecostais no Brasil remonta ao início do século XIX. Inspiradas no movimento revivalista norte-americano basearam a sua mensagem em três pilares: o batismo pelo Espírito Santo, a glossolalia (falar em línguas estranhas) e a batalha espiritual. Foi uma mensagem facilmente acolhida pelas populações menos favorecidas que viram no espaço dessas igrejas a possibilidade de terem um lugar, uma vez que a mensagem do Espírito Santo não excluía ninguém, estando ao acesso de todos.

O batismo no Espírito Santo associado à primeira onda do pentecostalismo no Brasil apresenta-se como uma proposta totalmente oposta à mensagem da Teologia da Prosperidade, segundo a qual a verdadeira fé em Deus é recompensada pela aquisição de bens materiais. Uma mensagem muito menos democrática, até mesmo injusta, se tivermos em conta a desigualdade sócio-ecnómica que caracteriza a sociedade brasileira.

O racismo nunca se colocou como uma questão nas igrejas protestantes e pentecostais que acabavam reproduzindo a máxima de que não havia racismo na sociedade brasileira. A crença na “democracia racial” fez acreditar que as relações da irmandade cristã estariam salvaguardadas do racismo. Contudo, o que se veio a demonstrar é que estas igrejas, como instituições presentes numa sociedade onde o racismo se faz presente, acabavam por reproduzi-lo.

O racismo nas igrejas manifestar-se-ia de diferentes formas: pela negação da cultura afro-brasileira, na medida em que o sujeito negro para ser aceite nessas igrejas teria de adotar um ethos próximo à cultura europeia (estilos de cabelo, vestimentas, gostos musicais), não permitindo qualquer tipo de identificação com elementos culturais que, de forma direta ou indireta, estivessem associados às religiões afro-brasileiras; e na pouca representatividade dos sujeitos negros na estrutura hierárquica das igrejas evangélicas, demarcando o lugar a eles destinados e na própria leitura da Bíblia, reproduzindo verdades, sem o devido filtro critíco, como a de que “a cor do pecado é negra”.

A partir da década de 1990, alguns pastores e membros das igrejas cristãs unem-se para desmascarar o racismo existente nas suas igrejas. Uma denúncia que pretendeu não apenas o pedido de desculpa oficial, por parte destas igrejas relativamente ao seu passado histórico, conivente com a escravidão, como também trazer o debate racial para o centro das suas igrejas.

Debater o racismo no espaço cristão pressupõe um movimento de aproximação com as religiões afro-brasileiras, um caminho contrário à intolerância religiosa que tem sido praticada contra as tradições afro. Os atos de intolerância conduzidos maioritariamente pelos segmentos neopentecostais expressam-se de duas formas distintas, pela negação da história e da cultura deixada pelos escravos e seus descendentes. Assim, elementos tradicionalmente associados às religiões de matriz africana como a capoeira, usada no passado como técnica de defesa dos terreiros (espaço sagrado) constantemente perseguidos, é transformada em “capoeira de Jesus” negando-se toda a sua raiz histórica. Outra forma assumida pela intolerância é a da violência dos ataques promovidos contra terreiros e seus membros, que nos últimos anos se têm vindo a intensificar. Segundo o mapa da intolerância religiosa elaborado pela Koinonia, em 2018, os terreiros e os membros das religiões afro-brasileiras são apontados como as principais vitimas dos ataques de intolerância religiosa.

A discussão racial no cristianismo tem-se fortificado pela ação do Movimento Negro Evangélico (MNE). Inspirados e influenciados pela Teologia Negra norte-americana que reúne nomes tão importantes como o de James Cone e de Martin Luther King, o MNE toma para si a proposta de fazer uma leitura da Bíblia descolonizada, valorizando a presença do povo negro africano nas escrituras sagradas e não circunscreve esse debate ao espaço cristão, estendendo-o à sociedade brasileira, chamando a atenção para questões graves que vêm acometendo a população negra brasileira como a desigualdade social e o elevado número de assassinatos de jovens negros nas favelas.

Embora em crescimento, este grupo de evangélicos que tem promovido o debate sobre a questão racial é extremamente pequeno e singular e as suas atitudes e comportamentos não representam a totalidade do universo evangélico, para quem esse debate se apresenta desprovido de sentido, quer por considerarem que não cabe às igrejas promoverem esta reflexão, quer por não assumirem que o racismo estrutura as relações sociais dentro e fora das igrejas. De acordo com uma pesquisa de opinião feita pela revista Veja, em 2017, o Brasil é o país onde o racismo se faz presente, mas no qual ninguém se assume como racista. Por outras palavras, um país racista sem racistas. Só a menção à própria questão racial já causa, por si só, desconforto.

No passado mês de julho, a Juventude Batista Brasileira (JBB) organizou uma jornada com a intenção de promover vários debates, que ocorreu na igreja frequentada por Michele Bolsonaro, primeira-dama brasileira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma das mesas propostas sob o título “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a igreja?” pretendia debater a questão racial no espaço religioso e iria contar com a presença da educadora social e integrante do Movimento Negro Evangélico, Fabiola Oliveira e do pastor Marco Davi de Oliveira, autor do livro A religião mais negra do Brasil. Por que os negros fazem a opção pelo pentecostalismo.

À última da hora, sem prévias explicações, a mesa de debate é dissolvida e os integrantes desconvidados. Esta situação ocasionou várias críticas e ataques aos integrantes da mesa pelos seus posicionamentos políticos e por debaterem esta questão, considerada contrária a Deus e às suas verdades. Para muitos evangélicos, esta reação demonstra a dificuldade de trazer esta questão a debate, mesmo que não se pretenda acusar ou responsabilizar ninguém. Para além disso, tratando-se da igreja frequentada por Bolsonaro e sua mulher, a proposta desta mesa trouxe desconforto, pois poderia levar à manifestação de discursos políticos contrários ao governo atual, reforçando o mal-estar já presente nas igrejas evangélicas derivado da intensa polarização política que se vive no Brasil.

 

Inês Almeida Ribeiro é licenciada em Psicologia pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As áreas de pesquisa centram-se em religião, identidade, racismo e intolerância religiosa.

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