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A reforma do Estado e a mercantilização da Educação

Os temas mediáticos, de um modo geral, apodrecem rapidamente. Durante um dia, de manhã à noite, ninguém se cala sobre um assunto qualquer. Com a colaboração de legiões de generalistas, ele é dissecado minuciosamente nos canais de informação em contínuo. No dia seguinte, nova matéria toma conta da agenda. O assunto do dia anterior fica praticamente esquecido. E, no entanto, há questões que justificariam mais prolongada e profunda atenção. Uma delas diz respeito à educação e ao ensino.

O ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, anunciou há dias, na Web Summit, que o governo iria dar a cada aluno um tutor de Inteligência Artificial. A declaração foi comentada sobretudo em tons humorísticos, por causa do entusiasmo algo pueril demonstrado no palco do evento tecnológico, mas cedo foi para o arquivo morto. Não devia.

O anúncio é particularmente bizarro: agora a educação e o ensino das crianças e jovens portugueses estão sob a alçada da Reforma do Estado? As aprendizagens dos alunos são questões de modernização administrativa? É esquisito. É estranha a ligeireza dos crentes no solucionismo tecnológico, a disseminada ideologia que crê que as tecnologias resolvem todos os problemas humanos. O modo como as grandes empresas tecnológicas penetram na escola tem de ser mais escrutinado. As questões da educação e do ensino das crianças e jovens impõem um tratamento mais cauteloso e menos ofuscado por delírios tecnológicos.

O historiador Jacques Julliard usou uma metáfora apropriada para caracterizar a situação da escola, considerando-a “uma politraumatizada grave”, tantas são as lesões que a afectam [1]. Umas podem ser provocadas pela progressão da iliteracia (incluindo a digital); outras, pelo modo como se formam, recrutam e remuneram os professores; outras ainda, pelas falhas no ensino básico (“o ensino básico é fundamental porque determina tudo o resto”) ou pela deficiente articulação entre o ensino secundário e o superior.

Jacques Julliard identificava uma grave desigualdade entre as crianças. Dizia respeito ao domínio do vocabulário. Quando ele é reduzido as consequências são nefastas. Aumentar o vocabulário, sobretudo dos mais ignorantes, é um vasto trabalho. Esta pobreza vocabular (e escassez de cultura humanística) é, já agora, igualmente visível, entre nós, no debate político, havendo políticos que não parecem conhecer mais do que as três ou quatro palavras que repetem continuamente.

Perante o fascínio tecnológico do ministro português, impõe-se recordar a dúvida do historiador francês: “Como fazer com que a sociedade compreenda que a criança tem necessidade de ler, de aprender de cor, de memorizar?”

Jacques Julliard assinalou um risco muito sério, o de introduzir no mundo da educação o cavalo de Tróia dos GAFAM (um acrónimo que designa os quatro gigantes americanos do mundo digital: Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) – o apelo à precaução não referia as grandes empresas tecnológicas de Inteligência Artificial que ainda não tinham emergido tão poderosas. Tal penetração, segundo o historiador, será “catastrófica, uma vez que a escola se funda sobre a gratuitidade e sobre o facto de a educação não ser mercantilizável”. Nota Jacques Julliard que “o escândalo filosófico que representam Google e consortes é precisamente o de tornar mercantilizáveis e comercializáveis todos os valores do espírito”. É por essa razão que se impõe evitar que o imperialismo tecnológico seja o cavalo de Tróia da mercantilização da escola. Para glosar o cartoon de El Roto no diário El País de terça-feira, dia 25, o futuro das humanidades não pode ser a robótica.

Adolescentes a ler na escola. Foto skynesher

“Como fazer com que a sociedade compreenda que a criança tem necessidade de ler, de aprender de cor, de memorizar?” Foto © Skynesher

“Não deixem que a Inteligência Artificial faça os vossos trabalhos de casa”, pediu há dias Leão XIV, numa videoconferência em que participaram cerca de 15 mil jovens norte-americanos. A Inteligência Artificial é uma grande preocupação para o Papa. Ela “está a transformar muitos aspectos da nossa vida diária, incluindo a educação, o entretenimento e a segurança dos menores, afirmou Leão XIV, no dia 13 de Novembro, no Discurso do Papa Leão XIV aos participantes na Conferência “A Dignidade das Crianças e dos Adolescentes na Era da Inteligência Artificial”.

A utilização da Inteligência Artificial “levanta importantes questões éticas, especialmente no que diz respeito à proteção da dignidade e do bem-estar dos menores”, explicou Leão XIV, advertindo que “as crianças e os adolescentes são particularmente vulneráveis à manipulação através de algoritmos de Inteligência Artificial que podem influenciar as suas decisões e preferências. É essencial que pais e educadores estejam cientes destas dinâmicas e que sejam desenvolvidas ferramentas para monitorar e orientar as interações dos jovens com a tecnologia”.

O Papa instou os governos e as organizações internacionais que têm a responsabilidade de conceber e implementar políticas a protegerem “a dignidade dos menores”, o que “inclui a atualização das leis de proteção de dados existentes a fim de enfrentar novos desafios colocados por tecnologias emergentes e a promoção de padrões éticos para o desenvolvimento e para a utilização da Inteligência Artificial”.

O ministro da Reforma do Estado quer “dar a cada aluno um tutor de Inteligência Artificial que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”. Mas, quanto a questões de tutoria, pode ser curioso verificar o que é que a própria Inteligência Artificial tem a dizer. Perguntando ao Copilot, o assistente conversacional da Microsoft e meu conjuntural interlocutor de Inteligência Artificial, sobre se ao próprio ministro não conviria um tutor, a resposta foi pronta e, aparentemente, entusiasmada: “Excelente ideia”. Para o Copilot, “um tutor de Inteligência Artificial para um ministro da Reforma do Estado poderia ser uma ferramenta estratégica, não apenas técnica. Ele funcionaria como um mediador entre a complexidade tecnológica e a missão política de modernizar a administração pública”.

A resposta do Copilot enunciou o que o tutor poderia explicar ao ministro. As sugestões não eram descabidas. Algumas até lhe moderariam o excessivo deslumbramento perante a própria Inteligência Artificial.

O tutor do ministro encarregar-se-ia, por exemplo, de o fazer olhar para questões de “ética e regulação”. O Copilot referiu três: “Alertar para riscos: discriminação algorítmica, privacidade, segurança de dados; propor boas práticas: garantir que a modernização administrativa respeite direitos fundamentais e valores democráticos; inspirar políticas inclusivas: sugerir formas de usar a Inteligência Artificial para reduzir desigualdades no acesso aos serviços públicos”.

A garantia de que a modernização administrativa respeita direitos fundamentais e valores democráticos é uma recomendação avisada. Se quase ninguém tem saudades do tempo do papel selado ou quer tão dilatados tempos de espera por um carimbo, muitos são os que não ambicionam que a alternativa seja passar a ser atendido telefonicamente (se se for atendido) por simulacros de voz humana, sem possibilidade de, em última instância, encontrar uma pessoa, capaz de desatar algum dos incontáveis nós cegos incompreensíveis para os algoritmos. A “modernização” não pode ser trocar pessoas por aplicações, assistentes virtuais, códigos QR, tutores de Inteligência Artificial e coisas assim. O próprio Copilot o assegura na sua explicação sobre em que o tutor poderia ser recomendável para o ministro da Reforma do Estado: esse tutor poderia impedir que “a modernização se reduza a mera digitalização burocrática”.

Sobre o logro que representa a crença desmedida no papel da tutoria individual da Inteligência Artificial no ensino, inicialmente prometedor, mas, pouco depois, muito decepcionante para alunos e as suas famílias, a revista Wired publicou uma extensa reportagem sobre a experiência de um estabelecimento de ensino nos Estados Unidos da América, em Brownsville, Texas [2]. O texto é eloquente sobre o pesadelo em que se tornou essa escola na qual, segundo um inquirido, se “procurava preparar os alunos para um ambiente hipercompetitivo, ‘típico do capitalismo tardio e da lei do mais forte”.

É certo que, ouvido pelo repórter Todd Feathers, Neil Selwyn, um académico especialista em educação, não deitou fora o bebé com a água do banho, considerando que as tutorias individuais podem ser uteis para quem quiser aprender matemática, ciências, engenharia ou programação. Todavia, acrescentou, não servem para aprender história, poesia, arqueologia ou qualquer outra disciplina das humanidades.

São abundantes as investigações sobre, por exemplo, as consequências do carácter extraordinariamente viciante da Inteligência Artificial ou a extorsão de dados conversacionais do utilizador, considerados como de inestimável valor para os profissionais de marketing e os correctores de dados [3].

Mas não é preciso ler muito para desconfiar do solucionismo tecnológico. Questionado sobre porque é que é errado os alunos terem um tutor de Inteligência Artificial, o Copilot, de novo o meu interlocutor de Inteligência Artificial, apresenta dois pontos críticos sobre o assunto. Um diz respeito às “razões pelas quais pode ser problemático”. O outro refere em que é que “a Inteligência Artificial pode ser útil sem substituir”. A utilidade é referida em poucas linhas e diz respeito, por exemplo, ao “apoio personalizado em dúvidas pontuais”, considerando que a Inteligência Artificial deve ser encarada como uma “ferramenta de estudo complementar, como um ‘assistente’ e não um tutor”.

Quanto às “razões pelas quais pode ser problemático” os alunos disporem de um tutor de Inteligência Artificial, o Copilot refere cinco aspectos. Em primeiro lugar, surge a “redução da dimensão humana da educação”. É que “a relação educativa não é apenas transmissão de conhecimento. É também encontro, presença, empatia, escuta e exemplo. Um tutor de Inteligência Artificial não pode substituir a experiência de ser acompanhado por alguém que vive, sente e partilha valores”.

Em segundo lugar, pode haver um “risco de dependência tecnológica”. De facto, “se os alunos se habituarem a recorrer sempre a uma Inteligência Artificial para resolver dúvidas, podem perder autonomia crítica e capacidade de enfrentar a incerteza – competências fundamentais para a vida”.

O meu interlocutor de Inteligência Artificial reconhece os seus próprios limites: a sua “neutralidade aparente, mas enviesada”. Diz o Copilot que “a Inteligência Artificial é treinada com dados que refletem visões de mundo, desigualdades e preconceitos. Um tutor artificial pode transmitir esses enviesamentos sem consciência crítica, dando a ilusão de objetividade”.

Problemática é também a “fragilidade ética e relacional”. O assistente conversacional nota que “um tutor humano assume responsabilidade moral e afetiva pelo acompanhamento. A Inteligência Artificial não tem consciência nem responsabilidade, o que pode gerar situações de desumanização ou de falta de cuidado”.

Finalmente, é preciso, regista o Copilot, encarar a “educação como formação integral”. Ou seja, “a educação não é apenas instrução. É também formação de caráter, cidadania, espiritualidade, criatividade. Um tutor de Inteligência Artificial pode apoiar em conteúdos, mas não pode encarnar valores ou testemunhar experiências de vida”.

Não deixa de ser assinalável que a Inteligência Artificial encontre mais sentido em tutorar um ministro do que um aluno.

Notas:

[1] “Comment sauver l’école : le débat entre Jean-Michel Blanquer et Jacques Julliard”. Marianne, 4 de Novembro de 2017
[2] Todd Feathers – “Parents Fell in Love With Alpha School’s Promise. Then They Wanted Out”. Wired, 27 de Outubro de 2025
[3] Eileen Guo e Melissa Heikkilä – “The State of AI: don’t share your secrets with a chatbot”. Financial Times, 24 de Novembro de 2025

 

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