O desafio ao Papa para uma Quaresma vegan, o hinduísmo e o budismo (e onde fica a carne barrosã?)

| 8 Fev 19

“Hoje, Papa Francisco, peço-lhe que se junte a mim e se abstenha de todos os produtos de origem animal durante a Quaresma e que apoie a campanha Million Dollar Vegan”. São estas as palavras de Genesis Butler, a ativista californiana de 12 anos, que desafiou o Papa Francisco a tornar-se vegan durante o período da Quaresma, prescindindo de qualquer alimento de origem animal. 

Se o Papa aceitar o desafio, a fundação Blue Horizon International, que apoia a iniciativa de Genesis, doará um milhão de dólares a instituições de solidariedade social à escolha do líder da Igreja Católica. Em forma de vídeo, a nova porta-voz da associação Million Dollar Vegan e outras crianças de todo o mundo, pedem a Francisco que embarque neste desafio:

Segundo Genesis, a ideia surgiu da sensibilidade já demonstrada pelo Papa argentino na carta encíclica Laudato Sí, “sobre o cuidado da Casa Comum”: “Na sua carta encíclica, Laudato Sí, mencionou que todos os esforços para proteger e melhorar o mundo terão de envolver mudanças de estilo de vida, de produção e de consumo. Concordo profundamente e procuro, neste momento, o seu apoio no combate a uma das maiores causas subjacentes aos problemas que enfrentamos: a pecuária.”

Na tradição cristã, o período da Quaresma dura 40 dias e, em memória do mesmo número de dias que, segundo a tradição, Jesus passou a fazer jejum no deserto, os cristãos são convidados a fazer um período de renúncia. No caso dos católicos, isso passa nos tempos de hoje pela abstinência de carne e pelo jejum nas sextas-feiras da Quaresma e no primeiro dia deste ciclo, Quarta-Feira de Cinzas. 

Períodos de jejum não são novos no panorama religioso e fazem mesmo parte de muitas confissões: é o caso do Ramadão no islão ou o Yom Kippur na tradição judaica. O judaísmo tinha vários interditos e regras alimentares, que o cristianismo recusou. Mas, ao propor ao Papa o veganismo, Genesis Butler levantou outra questão: será que ser religioso implica uma atenção especial à alimentação?

No caso dos budistas, o vegetarianismo é algo a que se deve tender, já que um um dos preceitos fundamentais do budismo é não matar e não ofender a integridade física dos seres vivos, humanos ou não.

Paulo Borges, ex-presidente da União Budista Portuguesa (UBP) e professor de filosofia na Universidade de Lisboa, explica que a não-violência implica a renúncia de causar sofrimento a qualquer ser vivo: “A ideia é não causar sofrimento a nenhum ser vivo porque todos, sejam humanos ou animais, procuram estar bem e felizes. Uns mais conscientes e ou outros menos conscientes, todos temos o desejo natural de ter a integridade física preservada.”

O ex-presidente da UBP acrescenta que, com a informação dos dias de hoje, a comunidade budista não só é maioritariamente vegetariana como é vegan, já que se sabe “que o consumo de produtos animais também contribui para o seu sofrimento.”

Foto © Pexels/Pixabay.

Na sua mensagem ao Papa, Genesis também menciona a “cadeia de destruição e devastação global” que a alimentação à base de animais acaba por causar: “A pecuária utiliza 83% dos terrenos agrícolas, embora produza apenas 18% das calorias que consumimos. Hoje em dia, há 815 milhões de pessoas no mundo a sofrer de má nutrição. Imaginemos quantos povos famintos poderíamos alimentar, caso nos afastássemos da produção de alimentos ineficientes.”

Segundo Paulo Borges, isto também é algo que se tem em conta hoje em dia: “Claro que no tempo em que surgiu o budismo, há 2600 anos, não havia os problemas ambientais que hoje há e, portanto, não havia esta consciência ecológica – porque não havia necessidade dela. Hoje, os filósofos e mestres budistas também defendem o vegetarianismo muito fortemente por motivos ambientais.”

Também Darchite Kantelal, hindu e nutricionista de profissão, defende que a única maneira de salvar o planeta é a partir de uma redução da agricultura de base animal, principal causa de desgaste do planeta: “Hoje em dia temos muitos estudos, que apoiam a visão de que temos que reduzir drasticamente o nosso consumo de produtos de origem animal para salvar o planeta – e não há outra forma de o fazer.”

Vegan há 3 anos, Darchite cresceu numa família ovo-lacto vegetariana apesar de em pequeno “não entender bem porquê”. Quando estudou em Inglaterra para se tornar nutricionista ganhou percepção da quantidade de estudos científicos que provam que o consumo de produtos de origem animal, especialmente em grandes quantidades, não é benéfico para a saúde.

Vendedor de frutas em Nova Delí, Índia. Foto © Fancycrave/Unsplash.

Ser hindu é algo que contribui para a opção de Darchite ser vegan, apesar de nem todos os hindus serem vegetarianos: “Na religião hindu temos três categorias diferentes de alimentos, divididas pela energia que cada ser vivo emite: aqueles que têm efeito positivo, aqueles com efeito neutro e negativo. Estes últimos alimentos ditos ‘maus’ têm efeito negativo no corpo e na consciência, e nestes enquadram-se os produtos que têm origem no sofrimento animal.”

Esta é a razão pela qual a religião em si não apoia o consumo de produtos animais; no entanto, “o hinduísmo em sim não obriga a pessoa a comer de certa forma”; portanto, a classificação dos alimentos pode estar sujeita à interpretação de cada pessoa.

No Tibete, de tradição budista, grande parte da população dependia dos animais para sobreviver pois escasseavam os legumes e os frutos, conta Paulo Borges: “Eram poucos que conseguiam viver integralmente os preceitos de não contribuir para o sofrimento animal e, por motivos de sobrevivência, muitas vezes eram carnívoros. Mas, por ser para sobrevivência era aceite e, sempre que abatiam animais, oravam pelos mesmos, para de algum modo os compensarem espiritualmente por os terem que privar da vida.”

Assunção Rosinha, veterinária, produtora de enchidos tradicionais, que integra a Confraria da Carne Barrosã (reside em Montalegre), coloca também esse problema: manifestando-se contra “tudo o que chega a extremos”, como considera esta proposta de Genesis Butler, defende que “adorava viver num mundo em que as vacas andam como aqui na região do Barroso: os animais vivem em condições de muito respeito pela natureza, vivem nos pastos, contribuem para os manter limpos e as próprias fezes adubam o pasto de forma natural – toda a poluição é mínima”, garante. Além disso, acrescenta, a produção pecuária “é uma forma de manter o interior: quando deixar de haver animais, deixa de haver gente” e o desaparecimento de animais em determinadas áreas rurais ou florestais também leva a desastres ecológicos”, de que os incêndios são uma das consequências trágicas, diz. 

Admitindo que devemos alterar “alguns hábitos”, a médica veterinária diz que deveríamos voltar á dieta mediterrânea que nos foi transmitida: comer carne. peixe, frutas e legumes, de forma equilibrada. “O problema está em que passámos a comer carne em excesso, mas precisamos de proteínas quer animais, quer vegetais.” Na sua perspectiva, a produção intensiva, seja de animais seja de vegetais, tem “a vantagem de reduzir custos”, mas os inconvenientes de usar químicos, pesticidas e outros factores poluentes. E por isso, é a produção intensiva que deve ser reduzida e usar factores mais amigos do ambiente. No seu caso, os animais que tem em casa – galinhas e ovelhas, além de cinco cães e três gatos – ajudam a reduzir e reciclar o lixo que produz, de forma natural. O problema está nas embalagens que tem de deitar fora diariamente. 

Enquanto católica que também é, Assunção Rosinha considera que o primeiro dever é “dar de comer a quem fome”, tendo a preocupação de “preservar o planeta e transmiti-lo mais cuidado a filhos e netos”. Mas fica preocupada por ver a quantidade de desperdício, de plástico gasto em embalagens desnecessárias – o nosso grande dilema – e, pior ainda, que haja por vezes “tanta preocupação em defender os animais, esquecendo, por exemplo, que temos muitos sem-abrigo”.

“Aqui na minha região, o alimento também funciona como o prazer da mesa, da partilha e da amizade. Como não temos cinemas e outras coisas do género, a mesa é a possibilidade de partilhar”, acrescenta ainda. Já começámos todos a ter preocupações ecológicas, por exemplo reduzindo o consumo de carnes vermelhas, diz também a produtora de enchidos tradicionais. Mas o ser vegan é “um estilo de vida”, com o qual não está de acordo. 

Já Paulo Borges, a proposta de Genesis Butler é interessante por mostrar a consciência da juventude para problemas ambientais, algo que “parece faltar nos responsáveis políticos mundiais.”

Já Darchite Kantelal afirma que a verdadeira essência desta proposta reside no facto de o Papa ser uma figura tão influente: “Na comunidade científica sabe-se que os problemas existem. Mas, muitas vezes, os factos científicos não interessam, as pessoas gostam de ouvir alguém com quem têm uma ligação emocional. E o Papa Francisco tem maior poder do que qualquer cientista ou nutricionista – se ele desse o exemplo seria fantástico.”

(Este texto teve o contributo de António Marujo)

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