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A religião e os outros

| 24/06/2020

A religião e os outros

by | 24 Jun 20 | Entre Margens, Sociedade, Últimas

Os profissionais de saúde são dos sectores da população mais atingidos pela covid-19 em todo o mundo, quer pelo perigo de infecção quer pelas consequências do stresse. Mas há formas de combater essa vulnerabilidade emocional.

 

A razão pela qual médicos, enfermeiros e técnicos de saúde em geral são dos mais expostos ao vírus não se deve apenas ao facto de trabalharem com população infectada, mas sobretudo por muitas vezes não disporem de condições adequadas para desempenhar o seu trabalho com segurança. Já dos efeitos emocionais de quem trabalha na frente da “batalha” muito dificilmente alguém se livra, de acordo com estudos anteriores.

Recentemente foi publicada uma investigação por investigadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, a partir duma amostra de cerca de 100 mil indivíduos, enfermeiras e outros profissionais de saúde de ambos os sexos, que durou décadas a realizar. A pesquisa era centrada na temática do bem-estar dos profissionais de saúde nos Estados Unidos e veio publicada na revista JAMA Psychiatry intitulada “Religious Service Attendance and Deaths Related to Drugs, Alcohol, and Suicide Among US Health Care Professionals”.

Com surpresa – ou talvez não – o estudo sugere que os profissionais que frequentam serviços religiosos com regularidade apresentam um menor risco de morte relacionada com o álcool, drogas ou suicídio, conhecidas em conjunto como mortes por desespero. No caso das mulheres esse risco reduz-se em cerca de 68 por cento e nos homens 33 por cento.

As conclusões do estudo conferem com evidências anteriores, mostrando que a assistência a serviços religiosos estará inversamente associada à mortalidade em geral, como também aos riscos de morte por desespero, e positivamente associada a resultados de bem-estar psicossocial e à saúde subsequente em comparação com outros aspectos da integração social. Apesar disso, os investigadores também observaram que outras formas de integração social também estarão associadas à saúde e ao bem-estar, embora de forma menos substancial.

Estes resultados revelaram-se especialmente impressionantes durante a presente pandemia devido a dois factores conjuntos. Primeiro, porque os profissionais de saúde têm vindo a enfrentar condições de trabalho muito duras, mas também porque a maior parte dos serviços religiosos foram suspensos por confinamento profiláctico.

Já em 2018 a Universidade de San António, Texas, tinha desenvolvido uma investigação – cujo resumo foi publicado pelo Sleep Health, da National Sleep Foundation – onde se concluía que as pessoas que frequentavam cultos religiosos e mantinham hábitos de oração tendiam a apresentar resultados mais saudáveis no sono do que os seus pares menos religiosos, limitando a excitação mental, química e fisiológica associada a sofrimento psicológico, uso de substâncias, exposição ao stresse e carga alostática.

Trata-se de um padrão geral que pode ser observado em grandes estudos populacionais nos Estados Unidos. Embora numerosos estudos empíricos mostrem que o envolvimento religioso está associado a uma saúde melhor e a maior expectativa de vida, durante muito tempo a investigação quase ignorou as possíveis correlações entre envolvimento religioso e sono.

Pode-se dizer que o factor religioso interfere essencialmente em dois âmbitos. Desde logo o individual, que remete para a transcendência e que responde às necessidades espirituais do humano, dele resultando uma sensação de completude que assume especial importância em tempos de niilismo, de perda de valores e de solitude. Mas a dimensão colectiva é igualmente relevante, pois a religião funciona na base de um carácter gregário (ao contrário de algumas espiritualidades) e responde às necessidades inerentes ao sentimento de pertença, assim como das relações interpessoais através das quais nos construímos como pessoas, como considerava o notável psicólogo Carl Rogers em Tornar-se pessoa.

É cada vez mais difícil ao indivíduo pós-moderno admitir que precisa dos outros para se construir a si próprio com vista à sua harmonia interior, quando pontifica na sociedade o hiperindividualismo. O primado da pessoa, trazido pela Modernidade, isto é, a autodeterminação individual que foi desconhecida durante séculos a fio, não impede que cada um seja o “capitão da sua alma” – no sentido de decidir a sua vida sem dependências doentias – mas, pelo contrário, reforça a necessidade da convivência com os outros que são diferentes de mim, de modo a que eu me edifique tendo em conta as referências positivas que me rodeiam mas também as negativas, porque não somos talhados para o isolamento.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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