A Religião perdeu a espiritualidade, ou foi esta que se tornou religiosa?

| 29 Mai 19 | Entre Margens, Últimas

Muito se fala hoje em espiritualidade procurando distingui-la de religião. No fundo, o que se pretende é aceder à Transcendência sem uma mediação institucional, em parte devido à péssima carga histórica de conflitualidade que as religiões carregam, devido à tentação do poder.

De certo modo pode dizer-se que a religião institucionalizada falhou em parte na sua missão, por várias ordens de razões. Desde logo porque a sua praxispode ser algo castradora, mas também devido ao excesso de ritualização a que obriga. Sabemos da importância de uma liturgia de culto minimamente estruturada numa religião de dimensão universal, em particular devido à importância da simbólica, que é fundamental nas religiões e geradora de sentido e orientação catequética.

Mas uma ordem de culto – como outras dimensões práticas da expressão da fé – extremamente rígida acaba por matar alguma espontaneidade, que é inerente à vida humana e à expressão das emoções, podendo levar à perda de sentido intrínseco. Os actos repetitivos, até à exaustão, tendem a perder o seu significado, sendo executados em perda de sentido. Mesmo que não queiramos essa é uma limitação do comportamento humano. É por isso que rituais como tomar banho, lavar os dentes ou subir no elevador do nosso prédio são normalmente executados sem pensar, de forma mecânica.

Outra questão que sugere a falência parcial da religião institucionalizada acontece sempre que os seus princípios doutrinários se encontram afastados da realidade da vida, devido ao difícil equilíbrio entre a tradição religiosa e a sociedade contemporânea, que se caracteriza por ser altamente dinâmica. Os crentes apercebem-se e sofrem na pele esta discrepância, que não compreendem e que provoca o seu espírito crítico. Muitos optam por filtrar tais orientações, deixando de lado aquilo com que não concordam. No caso português ouvimos muitos católicos confessos dizerem: “Sou católico mas não concordo com…”

Entretanto a questão mais grave será talvez a dos maus exemplos dados ao longo da história pelas estruturas das instituições religiosas. Desde logo as guerras, perseguições e opressões que promovem, mas também aquela irritante tendência para se queixarem de falta de liberdade nas regiões onde são minoritárias, enquanto vão gozando de privilégios onde constituem a maioria, por vezes até desenvolvendo mancebia com o poder secular, não se importando com a falta de direitos dos sectores religiosos aí em minoria, o que lhes retira toda a moral em termos globais. O que está na onda mediática é o abuso sexual de sacerdotes católicos no mundo, embora se registem casos de outras comunidades religiosas com o mesmo tipo de problemas. Mas os maus exemplos são inúmeros, como se sabe, também em matéria de manobras políticas e de corrupção.

Por outro lado, a Modernidade trouxe o primado da pessoa sobre o colectivo e do indivíduo sobre o grupo, pelo que as pessoas já não se sujeitam a orientações superiores de forma acéfala, sem questionar a sua legitimidade e razoabilidade. E se umas o fazem com base no bom senso outras há que tendem a discutir tais questões até mesmo em termos teológicos e científicos.

Por fim, a secularização levou as sociedades ocidentais do materialismo – enquanto utopia da felicidade que desembocou em desencanto – a uma nova busca de sentido e a formas de espiritualidade que muitas expressões religiosas não conseguiram oferecer. A importância do auto-conhecimento, auto-controlo, relaxamento e práticas de meditação, por exemplo, começaram a dar às pessoas aquilo que os dogmas, as liturgias rígidas, as penitências e o eterno peso da culpa não conseguiram. 

Tanto a religião como a espiritualidade podem revelar-se como vias falsas para obter uma relação com Deus. Se a religião tem frequentemente tendência para substituir uma relação genuína com Deus pela observância fria de rituais, por sua vez a espiritualidade tende a substituir tal relação por uma falsa conexão com o mundo espiritual.

Dizia Pedro Abrunhosa em entrevista ao jornal Público (30/11/18): “Vivemos um período de profunda agonia espiritual. A palavra espírito, na sua génese, quer dizer força vital. Uma palavra que está associada ao início do pensamento não mitológico, que faz uma clivagem entre o pensamento reflexivo e o não-reflexivo. Portanto, espírito não é apenas uma coisa religiosa. Para mim é a atitude perante a profundidade, a diferença entre o ser e o parecer.”

Mais preocupadas com as questões do poder, as instituições religiosas passaram muitas vezes ao lado dos anseios profundos da alma humana, da valorização e “empoderamento” do indivíduo, que é muito mais do que um número ou uma ovelha passiva e descartável do rebanho espiritual. E aí entrou o coaching religioso, a auto-ajuda e as novas propostas metafísicas.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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