A “rentrée” do Papa: 4 livros novos, uma encíclica, presenças “online” e enviados que vão onde ele não pode ir

| 17 Set 20

Desde o dia 2 de setembro, têm assistido à catequese do Papa, todas as quartas-feiras no Pátio de São Dâmaso, cerca de 600 pessoas. Foto: Vatican News.

 

Francisco já não está em confinamento, mas a sua vida não voltou a ser o que era antes da pandemia. Há viagens canceladas ainda sem nova data prevista, iniciativas que serão virtuais em vez de presenciais, visitas feitas pelos seus enviados e que, em circunstâncias normais, seria ele próprio a fazer. Uma coisa não mudou: a sua capacidade de trabalho e de se fazer presente. Entre o lançamento de livros, a publicação de uma nova encíclica, o regresso às audiências, a presença virtual em inúmeras atividades e até a realização de algumas viagens mais curtas dentro de Itália, a agenda do Papa nesta rentrée está completamente cheia.

Já no próximo dia 21 de setembro, segunda-feira, é aguardada a sua participação, com um vídeo pré-gravado, na Assembleia Geral das Nações Unidas, que assinala o 75º aniversário da organização e este ano se realiza em vídeo-conferência. Segundo o jornal britânico The Tablet, o discurso do Papa será sobre como transformar a crise provocada pelo novo coronavírus numa oportunidade para repensar a economia, a política e a proteção do ambiente, beneficiando a humanidade e o planeta.

Alguns dias depois, a 3 de outubro, Francisco sairá pela primeira vez de Roma desde que Itália iniciou o período de quarentena, viajando até Assis para assinar a sua nova encíclica, “Todos irmãos”. Aí, celebrará uma missa privada junto ao túmulo de São Francisco, cuja festa se assinala no dia seguinte. Regressará a casa logo depois.

Segundo a revista America, editada pela Companhia de Jesus nos EUA, outros dois textos estarão já na secretária do Papa a aguardar a sua aprovação: a constituição apostólica sobre a reorganização da Cúria Romana e o prometido relatório sobre a ascensão de Theodore McCarrick, o ex-cardeal e arcebispo de Washington, que chegou a um lugar cimeiro na hierarquia da Igreja, apesar das acusações de abusar sexualmente de seminaristas.

 

Viagens ao estrangeiro canceladas, secretários em ação

Por causa da pandemia, todas as viagens do Papa ao estrangeiro foram canceladas e ainda não têm novas datas previstas. É o caso da viagem a Malta, que deveria ter acontecido a 31 de maio, e da visita à Hungria, para participar no Congresso Eucarístico Internacional, o qual deveria estar a decorrer por estes dias, até 20 de setembro – foi adiado para 5 a 12 de setembro de 2021.

Adiada foi também a entrega dos símbolos da Jornada Mundial da Juventude aos jovens portugueses, que deveria ter acontecido na Praça de São Pedro no Domingo de Ramos, Dia da Juventude Diocesana. A cerimónia está marcada para o próximo dia 22 de novembro, dia da Festa de Cristo-Rei, mas a sua realização está ainda dependente da evolução da pandemia, salvaguarda o Vatican News.

Dias antes, entre 19 e 21 de novembro, irá realizar-se o encontro “A Economia de Francisco”, em modo virtual, uma iniciativa promovida pelo Papa que contará com a participação de jovens economistas e empresários de todo o mundo, e também do próprio Francisco, que planeia juntar-se a eles através de videoconferência. O objetivo é debaetr modelos e propostas para uma economia mais humana e justa.

Mas há casos em que a presença virtual não é uma opção ou não é suficiente, e aí têm entrado em ação os seus colaboradores mais próximos. O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, e o arcebispo Paul Gallagher, Secretário do Vaticano para as Relações com os Estados, foram enviados este mês ao Líbano e à Bielorrússia, respetivamente, manifestando assim a proximidade e solidariedade do Papa para com os povos de ambos os países a atravessar graves crises.

Desde o passado dia 2 de setembro, o Papa retomou também as audiências gerais com a presença de fiéis. Estas são agora realizadas no Pátio de São Dâmaso, no interior do Palácio Apostólico, com uma lotação bastante inferior à da Praça de São Pedro ou da Aula Paulo VI. Têm assistido à catequese do Papa, todas as quartas-feiras, cerca de 600 pessoas e já assim é visível a alegria de Francisco pelo reencontro com os fiéis.

 

Deixem-nos Sonhar, o novo livro do Papa
per un sapere della pace, Foto Vatican news

A mais recente obra publicada pela Livraria Editora Vaticana, intitulada “Por um saber sobre a paz”, conta com um prefácio do Papa Francisco. Foto: Vatican News.

 

Por estes dias, a presença do Papa tem-se manifestado também através do lançamento (ou anúncio) de novos livros: um que é da sua autoria, outro escrito por um jornalista com base em entrevistas que lhe foram feitas, um terceiro no qual assina o prefácio, e ainda a edição em Portugal do mais recente livro de Austen Ivereigh, biógrafo do Papa.

Let Us Dream (em português, “Deixem-nos Sonhar”) é o título do novo livro de Francisco, cujas edições em inglês e espanhol chegarão às livrarias no próximo dia 1 de dezembro, anuncia o The Tablet. Escrito pelo Papa durante a pandemia, pretende ser um olhar sobre a vida durante este período e explorar aquilo que podemos aprender para melhorar. De acordo com a informação da editora, o Papa partilha nesta obra muitas das suas experiências pessoais do tempo em que acompanhava os sem-abrigo nas ruas de Buenos Aires e mostra aos cristãos que devem colocar “os pobres e o planeta no centro de um novo pensamento”.

A preocupação com o planeta é, precisamente, o tema central de um outro livro, “Terra Futura. Diálogos com o Papa”, onde podemos encontrar as entrevistas realizadas ao Papa Francisco ao longo dos últimos três anos pelo jornalista agnóstico Carlo Petrini. O livro foi lançado em Itália no passado dia 9 e tem como temas principais o cuidado com a Terra e com todas as pessoas que nela vivem, a promoção da justiça e a preservação da natureza.

Fundador do movimento global “slow food”, que pretende promover uma maior fruição da comida, valorizando os produtos, essencialmente locais e de época, e elevando a qualidade das refeições, Carlo Petrini também conversou com o Papa sobre os prazeres da gastronomia.

“O prazer de comer existe para nos manter saudáveis pela alimentação, tal como o prazer sexual existe para que o amor seja mais bonito e para garantir a perpetuação das espécies”, disse Francisco numa das entrevistas com Petrini, acentuando que “os prazeres de comer e do sexo vêm de Deus” e considerando que visões opostas a esta “foram muito prejudiciais e ainda são sentidas em alguns casos hoje em dia”.

Uma semana depois, chegava às livrarias a mais recente obra publicada pela Livraria Editora Vaticana, intitulada Por um Saber Sobre a Paz, onde se podem também encontrar as palavras do Papa. Disponível desde terça-feira, 15 de setembro, o livro, dedicado às “ciências da paz”, conta com um prefácio assinado por Francisco, no qual questiona a retórica de guerra e de rejeição da diferença que é promovida por vários responsáveis internacionais.

“Porque é que, num mundo onde a globalização quebrou tantas fronteiras, onde todos – como se diz – estamos interligados, se continua a praticar a violência nas relações entre os indivíduos e as comunidades?”, questiona. “Porque é que quem é diferente de nós muitas vezes nos assusta, de tal forma que assumimos uma atitude defensiva e desconfiada, a qual, com muita frequência, se torna uma agressão hostil?”

Perguntas provocadoras, como é provocador o título de um outro livro, não escrito pelo Papa, mas sobre ele, que chegará às livrarias portuguesas no próximo dia 19 de outubro: O Pastor Ferido: O Papa Francisco e a Sua Luta para Converter a Igreja Católica, de Austen Ivereigh, será agora editado pela Vogais, um ano depois do seu lançamento no Reino Unido. A mesma editora publicara já uma biografia de Francisco, escrita pelo mesmo autor, intitulada Francisco, o Grande Reformador.

Com divertidas pequenas histórias, informações privilegiadas e a análise do reconhecido escritor e jornalista especializado em temas políticos e religiosos, o livro promete uma viagem “pelos episódios-chave da reforma de Francisco em Roma e em toda a Igreja” e contribui para tornar ainda mais próximo o Papa que a pandemia obriga a permanecer em Itália, anuncia a editora.

 

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas”

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas” novidade

Depois de terem emitido um comunicado em que diziam “esperar melhor da Europa e dos seus líderes” em relação à política de acolhimento de migrantes e refugiados, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e a Comissão das Igrejas para os Migrantes na Europa (CCME) fizeram questão de entregar o texto em mãos, na passada sexta-feira, 25 de setembro, na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. Recebidos por Vangelis Demiris, membro do gabinete da vice-presidente da comissão, Margaritis Schinas, os representantes das igrejas cristãs em todo o mundo disseram acreditar que há espaço para melhorias no novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Eurorpeia a 23 de setembro.

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Breves

“Basta. Parem estas execuções”, pedem bispos dos EUA a Trump

O arcebispo Paul Coakley, responsável pelo comité de Justiça Interna e Desenvolvimento Humano na conferência episcopal dos EUA (USCCB), e o arcebispo Joseph Naumann, encarregado das ações pró-vida no mesmo organismo, assinaram esta semana um comunicado onde pedem , perentoriamente, ao presidente Donald Trump e ao procurador-geral William Barr que ponham fim às execuções dos condenados à pena de morte a nível federal, retomadas em julho após uma suspensão de quase duas décadas.

ONGs lançam atlas dos conflitos na Pan-Amazónia

Resultado do trabalho conjunto de Organizações Não Governamentais (ONGs) de quatro países, o Atlas de Conflitos Socioterritoriais Pan-Amazónico será lançado esta quarta-feira, 23 de setembro, e irá revelar os casos mais graves de violação dos direitos dos povos da região, anunciou a conferência episcopal brasileira.

Papa apoia bispos espanhóis para ajudar a resolver estatuto do Vale dos Caídos

O Papa Francisco recebeu os novos responsáveis da Conferência Episcopal Espanhola, com quem falou sobre o papel da Igreja Católica no apoio aos mais pobres e mais fragilizados pela pandemia e sobre dois temas que esta semana estarão em debate nas Cortes de Espanha: eutanásia e lei da memória histórica, com o futuro do Vale dos Caídos em questão.

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Boas notícias

Sea-Watch 4 resgata 104 migrantes no Mediterrâneo

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O Sea Watch 4 resgatou, de manhã cedo, neste domingo, 23 de Agosto, 97 pessoas que viajavam a bordo de uma lancha pneumática sobrelotada, já depois de ter salvo outras sete pessoas noutra lancha. A presença do navio desde há dias no Mediterrâneo central, é fruto da cooperação entre a Sea Watch, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Igreja Protestante alemã, que promoveu uma campanha de recolha de fundos para que ele pudesse zarpar.

É notícia

Mais de 220 milhões de crianças são vítimas de exploração sexual

No Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Pessoas, assinalado esta quarta-feira, 23 de setembro, as Missões Salesianas alertaram para o facto de existirem atualmente no mundo mais de 150 milhões de meninas e 73 milhões de rapazes vítimas de exploração sexual, ou obrigados a manter relações sexuais sem o seu consentimento. Outros dois milhões de menores são ainda vítimas de tráfico para fins de exploração sexual, de acordo com a Organização Internacional de Trabalho. Para combater esta “forma de escravidão do século XXI”, os Salesianos têm em marcha projetos de educação e prevenção em diversos países, nomeadamente na Nigéria, Índia e Gana.

Cardeal Tolentino recebe o hábito dominicano

O cardeal José Tolentino Mendonça vai receber o hábito dominicano, no próximo dia 14 de novembro, no Convento de São Domingos, em Lisboa. A iniciativa surgiu da Ordem dos Pregadores (nome pelo qual são conhecidos oficialmente os dominicanos), devido à amizade de longa data que os une ao cardeal e ao reconhecimento da sua forte identificação com o carisma dominicano. “Foi um convite que lhe fizemos e ele aceitou de imediato por se identificar com o carisma de São Domingos, e deu-se a feliz coincidência de, quando ele foi feito cardeal, ter ficado titular da igreja de São Domingos e São Sisto, em Roma. Ele próprio assumiu nesse dia a sua ligação aos Dominicanos”, recordou frei Filipe Rodrigues, mestre de noviços e dos estudantes à agência Ecclesia.

Padre polaco acusa cardeal Dziwisz de encobrir abusos de menores

O padre polaco Isakowicz-Zaleski divulgou no seu blogue pessoal a carta que terá entregue em mãos ao cardeal Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia, em 2012, na qual denunciava a prática de atos de pedofilia por parte de um outro padre, Jan Wodniak. Zaleski acusa Dziwisz de ter encoberto tais atos, o que o levou a traduzir a carta para italiano e enviá-la, um ano depois, diretamente à Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano. Wodniak viria a ser condenado em 2014. Dziwisz diz nunca ter recebido a carta de Zaleski.

Justiça angolana encerra todos os templos da IURD no país

No mesmo fim de semana em que foram retomados os cultos religiosos em Luanda, suspensos desde março devido à pandemia de Covid-19, a justiça angolana iniciou um processo de encerramento e apreensão de todos os templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no país. Desde novembro do ano passado que a IURD tem estado envolvida em diversas polémicas em Angola. Em agosto, a Procuradoria-Geral da República tinha já apreendido sete templos em Luanda, no âmbito de um processo-crime por alegadas práticas dos crimes de associação criminosa, fraude fiscal e exportação ilícita de capitais.

Entre margens

A trama invisível da cidadania e o valor de educar

“Em Ersília, para estabelecer as relações que governam a vida na cidade, os habitantes estendem fios entre as esquinas das casas, brancos ou pretos ou cinzentos ou pretos e brancos, conforme assinalem relações de parentesco, permuta, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que já não se pode passar pelo meio deles, os habitantes vão-se embora: as casas são desmontadas; só restam os fios e os suportes dos fios.”

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Encarnando o irmão Luc

Michael Lonsdale era, naquele final do dia, em Braga, o irmão Luc, assim dando corpo e espírito ao monge com o mesmo nome que foi assassinado na Argélia, em 1996. E é inesquecível a sua participação no filme Dos Homens e dos Deuses, que evoca a vida dos monges do mosteiro argelino de Tibhirine, sete dos quais (Bruno, Célestin, Christian, Cristophe, Michel, Paul, além de Luc) raptados e assassinados por um grupo de islamitas.

Michael Lonsdale: “Gostaria de morrer tranquilamente. Em Deus sobretudo”

Um dos mais fascinantes actores franceses, Michael Lonsdale morreu na passada segunda-feira, 21. Uns lembrar-se-ão de ele ter sido o vice-cônsul de Lahore no filme India Song, de Marguerite Duras, outros não ignorarão o facto de ele se ter empenhado em fazer a vida negra a James Bond. Mas Michael Lonsdale participou em filmes de Truffaut, Malle, Buñuel, Spielberg e outros realizadores não menos relevantes.

Sete Partidas

A reunião de trabalho

A reunião de trabalho convocada pela chefe chegou sem surpresa. Mais uma entre tantas. Comparecemos todos. Através do ecrã, a expressão no rosto e o tom da voz denotavam, no entanto, uma intenção outra. Um assunto especial. Havia efectivamente um assunto especial a abordar. Abertamente. Uma autenticidade sem pudor marcou o tom da conversa. Um cuidado humilde e generoso revelado sem condicionamentos.

Aquele que habita os céus sorri

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