[Nas margens da filosofia (LXII)]

A respiração das casas

| 1 Abr 2024

“Lembro-me de escolhermos uma casa com corredor que embora diminuto nos permitia instalar alguns livros e pregar um ou dois quadros.”

 

As casas que me marcaram tiveram sempre corredor. O corredor da casa dos meus avós era uma faixa comprida que partia da cozinha, estendia-se ao longo de salas e terminava no quarto da minha avó. Percorrê-lo de patins foi sempre um sonho nunca concretizado, pelas razões óbvias do barulho e dos estragos na madeira encerada. Na casa dos meus pais também existia um corredor que embora  menos extenso não deixava de ser importante, até porque no seu extremo havia um relógio de pêndulo que marcava o ritmo da casa. Por vezes as suas badaladas eram-nos incómodas porque nos acordavam de noite. Não deixavam no entanto de ser reconfortantes pois afastavam o medo da escuridão, dando-nos o aconchego de uma casa viva, com tempos próprios para dormir e despertar.

Quando casei e procurámos casa, os corredores tinham-se tornado obsoletos e não existiam na maior parte dos andares que visitámos.  Lembro-me de escolhermos uma casa com corredor que embora diminuto nos permitia instalar alguns livros e pregar um ou dois quadros. No ar que se respirava havia vestígios das nossas casas de origem e uma das atracções que para além da renda acessível nos levou então a escolher esse local foi a sua proximidade com o Jardim da Gulbenkian que reforçava a respiração da nova casa com a paisagem idílica com que deparávamos quando abríamos as janelas. O susto maior que aí apanhámos foi na noite das grandes cheias de Lisboa nos anos sessenta do século passado. Ao querermos sair para ir ao cinema verificámos que era impossível pois a rua se tinha transformado num imenso mar onde flutuavam carros (entre os quais o nosso).

Quando os filhos nasceram precisámos de uma casa maior e renovaram-se as buscar na procura de outra habitação que nos albergasse, bem como aos múltiplos livros que então já possuíamos.  A segunda casa em que vivemos tinha um corredor muito comprido, o que me alegrou. Quando a visitámos para a alugar verificámos que a cozinha e a sala se situavam no extremo do corredor sendo os quartos colocados à entrada. Imediatamente alterámos esta lógica, invertendo-a; a sala ficou na entrada e os quartos ao longo do corredor. Este mantinha a sua função de passagem, com o inconveniente de a comida por vezes chegar fria mas com a vantagem de nos obrigar a um passeio permanente.

Aprecio muito os livros que nos falam de casas e da sua respiração. Por vezes a visualização das mesmas é-nos facultada quando sobre eles se fazem filmes. Raramente a imagem corresponde ao cenário tal como o escritor (ou a escritora) o descreveram e nós o idealizámos. Lembro no entanto um dos casos em que tal discrepância (para mim) não existiu – o filme Rebecca de Alfred Hitchcock que tem por base o romance de Daphne du Maurier,  um livro que fez as delícias da minha juventude e que muitas vezes  reli.  Numa cena magistral em que as palavras se tornam desnecessárias, assistimos ao modo como uma governante perversa (Mrs. Denver) conduz a recente mulher do proprietário de Manderley pelo corredor de uma galeria. Nela figuram os retratos das anteriores Senhoras do Palácio, reduzindo à sua insignificância a sua jovem e recente proprietária.  O corredor da galeria percorrida por ambas mostra-nos a crueldade da governanta bem como o desamparo da recente noiva, acentuando nela o receio de não estar à altura da situação que presentemente ocupava.

Há muitos livros e filmes em que as casas ocupam um lugar central, tão importante como as personagens que neles nos são apresentadas.  Releio-os e revejo-os com o mesmo prazer da primeira experiência que deles tive. Sobretudo quando através deles consigo recuperar a respiração das casas em que me foi dado viver.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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