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A ressurreição do Cordeiro Místico

A ressurreição do Cordeiro Místico

by | 10 Abr 20

Jan van Eyck, A Adoração do Cordeiro Místico (pormenor), em exibição em Gent.

 

A Semana Santa poderia muito bem ter oferecido a ocasião adequada para observar demoradamente uma das obras mais singulares da História da Arte: A Adoração do Cordeiro Místico ou Retábulo de Gent. A pandemia tornou, todavia, impossível uma deslocação à Bélgica para aproveitar o ano Van Eyck, que a cidade de Gent e região da Flandres promovem, abrindo as portas da Catedral de Saint-Bavon, onde os painéis restaurados do Cordeiro Místico se encontram em exibição.

Além de um novo centro de visitas, a catedral oferece, segundo noticia o diário Le Monde, “um sistema revolucionário de realidade aumentada”, que permite uma imersão total em A Adoração do Cordeiro Místico, o retábulo de vinte e quatro quadros; uma obra mítica, que Bart Devolder, um dos especialistas que contribuiu para o seu demorado restauro, citado pelo jornal francês, considerou ser “a mais bela de todos os tempos”.

A crise global de saúde obrigou ainda ao encerramento da exposição Van Eyck Uma revolução óptica, apresentada como a maior de sempre dedicada a Jan Van Eyck. Se o que está anunciado se concretizar, reabrirá a 19 de Abril e é possível que se prolongue para além da data prevista para o seu encerramento, no fim do mês.

“Com o ano temático ‘OMG! Van Eyck was here’, a cidade quer mostrar que, seis séculos depois, Van Eyck continua a marcar a sua cidade. O legado de Van Eyck está nela omnipresente e faz parte do ADN da população de Gent”, refere o site dedicado à iniciativa. A oportunidade para olhar “a obra de arte mais roubada de todos os tempos” fica, pois, adiada.

A Adoração do Cordeiro Místico, um retábulo com 12 painéis, foi finalizado por Jan van Eyck (o irmão Hubert também esteve associado à obra) no início dos anos 30 do século XV. Os painéis laterais foram pintados dos dois lados, de modo a exibirem perspectivas distintas conforme estejam abertos ou fechados.

Jan van Eyck, A Adoração do Cordeiro Místico, no conjunto dos 12 painéis.

 

Um dos painéis que compõem o políptico foi roubado em 1934 e o seu paradeiro nunca foi descoberto. Os roubos foram abundantes ao longo da História.

No final do século XVI, apesar de os calvinistas terem lançado em Gent um empreendimento iconoclasta, A Adoração do Cordeiro Místico conseguiu escapar. No fim do século XVIII, os quatro painéis centrais foram levados para Paris pelas tropas napoleónicas. Restaurados, foram para o Museu do Louvre. Já no século XIX, o Duque de Wellington, após a vitória na Batalha de Waterloo, tratou de que de fossem restituídos.

A seguir, um vigário geral, na ausência do bispo, iria vendê-los. Tardaram poucos anos até que fossem parar às mãos do rei da Prússia, Friedrich Wilhelm III, que os conserva durante décadas. Para poderem ser vistos simultaneamente, sem que, para isso, seja necessário abri-los ou fechá-los, os dois painéis laterais foram divididos ao meio na espessura. O Tratado de Versalhes obrigou, em 1919, a Alemanha a devolver a obra.

Anos depois, em 1940, os nazis trataram de a reaver para a colocar num museu que Hitler queria erguer em Linz, na Áustria. Escondida numa mina de sal austríaca, em Altaussee, próximo de Salzburgo, seria descoberta pelo exército americano pouco após o fim da II Guerra Mundial, como se recordarão os que viram o filme Os Caçadores de Tesouros (The Monuments men, 2014), realizado por George Clooney. Ao contrário do que pretendia a autoridade nazi da região, disposta a cumprir as ordens de Hitler que não queria que nenhum bem do Reich fosse para as mãos do inimigo, A Adoração do Cordeiro Místico não tinha sido destruída.

O restauro do rosto do Cordeiro Místico fez polémica: demasiado humano?

 

O recente trabalho de restauro da obra não foi isento de controvérsia por causa de o Cordeiro de Deus ter agora um rosto algo humanizado. A polémica foi injustificada porque o trabalho efectuado por um comité internacional ter-se-á limitado a recuperar o original, que, durante anos, teve o aspecto resultante de um restauro que foi realizado em meados do século XVI. O que Gent e a sua catedral dão a ver é, portanto, a ressurreição do Cordeiro Místico.

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