[Olhar de teóloga]

A Ressurreição e as abelhas

| 2 Mai 2022

Abelhas na sua colmeia. Foto © Boba Jaglicic | Unsplash

Abelhas na sua colmeia. Foto © Boba Jaglicic | Unsplash

 

 

Diz-se que no dia em que as abelhas se extinguirem, a vida deixará de existir porque, sem polinização, a vida vegetal não poderá subsistir e será desencadeado um processo de desaparecimento. Segundo os peritos, são insectos sociais hierarquicamente organizados que comunicam por meio de uma dança ritual.

Pequenas, originais, trabalhadoras e sempre a fazer o seu trabalho, fornecem-nos um dos alimentos mais completos que podemos desfrutar. A sua combinação de vitaminas, minerais e proteínas é literalmente uma fonte de vida.

No Haiti, um dos países mais pobres do mundo, há uma escola que escolheu as abelhas para um projecto tão importante que se chama assim, Projecto Abelha, no qual estes insectos, para além do mel, estão a demonstrar como podem ser multifacetados.

No projecto estão directamente envolvidos alunos a partir dos dezasseis anos, religiosas, professores, pais e, é claro, qualquer pessoa que queira dar uma mão. À frente da escola está a Companhia de Maria, e é preciso ouvir a sua responsável, Rose Marie, sempre a sorrir com aquela alegria que não nasce de nada humano, contar como surgiu o projecto, como já recolheram várias colheitas de mel e como, graças à conquista de um prémio, têm um laboratório que lhes permite seguir adiante com o mel e os seus derivados.

Com este projecto alcançam-se vários objectivos. Preparar alguns alunos para que possam viver da apicultura, unir toda a comunidade escolar num projecto comum (não é o único), angariar fundos para continuar com a escola, que já têm a ideia de ampliar, e polinizar o meio ambiente fortemente devastado por terramotos, tufões e todo o tipo de infortúnios.

Há que ter em conta que, sendo o Haiti um país que não tem nada, nenhum país se mostra interessado nem sequer numa visita de cortesia. Mas desde há algum tempo que a escola já é algo que o Haiti pode mostrar como sendo uma conquista, um modelo e uma possibilidade. Um verdadeiro triunfo destas freiras! Tal como o são o de milhares de religiosas, em qualquer parte do mundo, que dão as suas vidas para dar vida.

Aí está a Rose Marie e outras suas companheiras fazendo com que, cada dia, possa valer a pena continuar a lutar por essas crianças cuja única comida é a que recebem na escola, por esses jovens que têm uma oportunidade de seguir em frente, por essas famílias que, pela primeira vez, estão envolvidas em projectos que geram vida e comunidade.

Conta a Rose Marie – sem perder o sorriso – como, no final do dia, dão graças a Deus por terem ultrapassado os obstáculos habituais e aqueles que aparecem sem os procurar; dão graças para que o projecto siga adiante; e dão graças por poderem continuar a ajudar as crianças e jovens haitianos e as suas famílias. Alguém me sussurra, em voz baixa, que embora Rose Marie não o diga, também dão graças, em cada dia, por não terem sido assassinadas.

 

Ressurreição

Quando falamos de ressurreição, o nosso pensamento vai logo para a ressurreição final; no entanto, estas ressurreições quotidianas onde o Ressuscitado se faz presente custam-nos mais a ver. Quanto nos custa ver aquilo que é evidente! Nisto somos parecidos com as abelhas. Milhares delas passarão por este projecto e só verão o mel que produzem, nada mais…. E sem elas não haveria vida!

Quando se caminha num claustro medieval ou onde quer que haja colunas com capitéis decorados dessa época, descobre-se como a ressurreição se expressava com símbolos como o pavão, as pinhas, os ovos… Agora poderíamos acrescentar as abelhas porque, realmente, devem ser consideradas como um símbolo de ressurreição.

Há pessoas que nos dão a vida através do seu testemunho e do seu compromisso. Dão-nos a oportunidade de desfrutar da vida como ela deve ser, de amor dado. Mas, como diz Francisco quando se refere ao amor, dando-lhe o significado que tem em hebraico, que é “fazer o bem”. E muito bem é feito com este Projecto Abelha.

Desfrutemos da ressurreição de Cristo que, ao vencer a morte, nos ofereceu a Vida Eterna. E desfrutemos também das ressurreições quotidianas que nem sempre sabemos ver e que, no entanto, estão tão presentes nas nossas vidas. Feliz Páscoa!

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Este texto é publicado por cedência da autora e da revista espanhola Vida Nueva  ao 7MARGENS. Tradução de Júlio Martin.

 

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