A reunião de trabalho

| 26 Set 2020

Natural Bridge State Park, Virginia, EUA

Natural Bridge State Park, Virginia, EUA. Foto © Luís Castanheira Pinto

 

A reunião de trabalho convocada pela chefe chegou sem surpresa. Mais uma entre tantas. Comparecemos todos. Através do ecrã, a expressão no rosto e o tom da voz denotavam, no entanto, uma intenção outra. Um assunto especial. Havia efectivamente um assunto especial a abordar. Abertamente. Uma autenticidade sem pudor marcou o tom da conversa. Um cuidado humilde e generoso revelado sem condicionamentos.

Só este espaço invisível de inclusão e empatia permitira falar sobre o tema. Em equipa. E a chefe intuía isso mesmo. Como ninguém. Navegou águas perigosas habilmente, munida de uma experiência que se cultiva no fundo na alma. Não nos livros. Trazer à superfície algo tão sensível num grupo tão rico em diversidade. Implicava compaixão. Partilhada em abundância, mutuamente. E sem planos, um a um, todos aderimos. Quase sem perceber. Fomos falando. O que pensávamos e o que sentíamos. Soube bem. Muito bem. Nunca pensei poder falar assim de racismo numa reunião de equipa.

Este episódio foi em Junho, se não me engano. No eclodir das demonstrações contra o racismo nos EUA. Black Lives Matter. Toda uma sociedade em tumulto. Uma ferida ainda por sarar voltou a abrir. E ainda bem. Porque estava infectada. Não chegam os pensos-rápidos. É preciso tratar. Ir à raiz do mal.

Marcou-me a forma delicada, mas firme, com que o Banco Mundial se posicionou sobre este tema. Não se demitiu, não silenciou. Publicamente uns, em cascata outros. Todos nos implicámos. Quem quis, foi à rua. E bem. Outros, como a mulher que nos lidera, esbanjaram-se em humanidade e talento para trazer esta discussão para dentro, para cada um dos nossos espaços íntimos. Para dentro de cada um de nós.

Recordo isto agora porque me marcou. Sugeriu uma outra forma de gerir organizações e equipas que não tinha experienciado. Sobre a qual apenas tinha lido. Exemplos longínquos, de um universo imaginário. E porque, longe de estar resolvido, o assunto se mantém latente. À medida que se aproximam as eleições americanas, a ferida continua infectada. Está cada vez mais exposta.

Nunca como hoje me apercebo do racismo à minha volta. Por vezes explícito, mas tantas vezes subtil, camuflado. Impregnado nas estruturas sociais, nos códigos de comunicação, na segregação orgânica e espontânea por bairros e trabalhos. Assalta-me agora como nunca esta evidência. Não porque estivesse antes oculta e agora à vista. Não por viver há pouco nos EUA. E também não creio que por falta de abundante reflexão crítica e discussões sobre este assunto. Toca-me agora de forma diferente.

É neste tocar que me concentro. Neste poder transformador da relação, bêbada de espiritualidade. Porque me foi oferecida a dádiva de uma conversa aberta, generosa e fraternal com colegas de trabalho. Porque não foi feio mostrar vulnerabilidade. Nem medo. Nem raiva. Nem vergonha. Com colegas de trabalho. Coisa tão estranha esta. Com colegas de trabalho. Soa-me formal esta expressão. Distante do aconchego da palavra amigo. Ou irmão. E, no entanto, talvez por isso mesmo, foi precisamente ali, numa reunião de trabalho, entre colegas, que senti o sopro transformador do Deus em que acredito.

 

Luis Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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