A revelação ética mais importante da história humana

| 13 Ago 2022

Em 25 de fevereiro de 2022, em Kiev, na Ucrânia, uma rapariga olha para a cratera deixada por uma explosão em frente a um prédio de apartamentos que ficou fortemente danificado durante os ataques militares russos em curso. Foto © UNICEF

Em 25 de fevereiro de 2022, em Kiev, na Ucrânia, uma rapariga olha para a cratera deixada por uma explosão em frente a um prédio de apartamentos que ficou fortemente danificado durante os ataques militares russos em curso. Foto © UNICEF

 

A leitura de dois livros recentemente publicados do historiador espanhol Manuel Alejandre Rodriguez de la Pena, Compassión-Una Historia (CEU Ediciones, 2ª ed. Madrid, 2022) e Imperios de Crueldad,-La Antiguidad Classica y la Humanidad (Ediciones Encuentro, Madrid, 2022) orienta-nos na análise de alguns factos e questões que marcam a atualidade.

Discute-se hoje o valor do legado cultural da Europa e do Ocidente, a marca cristã desse legado (que por vezes é simples pretexto de afirmação identitária e conduz a um “nacionalismo de exclusão” contrário à essência da mensagem cristã). A chamada “cultura do cancelamento” pretende fazer “tábua rasa” desse legado. A invasão da Ucrânia revela mais uma vez onde podem chegar as atrocidades da guerra de extermínio e essas atrocidades suscitam a indignação da consciência moral de toda a humanidade.

A tese deste historiador espanhol, desenvolvida com profundidade nos livros que referi, resume-se facilmente.

A ética da compaixão implica uma atitude empática para com o sofrimento alheio, para com as vítimas débeis e vulneráveis. Não é uma constante das sociedades e das culturas. A sua vigência corresponde a uma conquista histórica da maior relevância. Manuel Rodriguez Pena chega a qualificá-la como «a revelação ética mais importante da história humana». Para essa vigência o contributo histórico mais relevante foi o do cristianismo.

As sociedades ditas primitivas, de um modo geral, não se guiavam pela ética da compaixão. O “bom selvagem” não é mais do que um mito. De entre cinco mil dessas sociedades, só dez poderão considerar-se pacíficas, nas outras predominava a brutalidade homicida. Fazer “tábua rasa” de legados civilizacionais que se seguiram a essas sociedades, como pretende a “cultura do cancelamento” não será, pois, o mais sensato.

Mas também o legado da Antiguidade clássica (de Grécia e Roma) não é, a este respeito, exemplar. Nessas civilizações predominava uma noção de “bem” associada ao poder e à força. A violência, a opressão e a crueldade eram socialmente aceites, eram estruturais e sistémicas, permanentes e não episódicas. São comuns, e motivo de orgulho e jactância, o extermínio, a violação e a escravidão de povos vencidos e de civis inocentes e a destruição de cidades inteiras. A política de massacre caracterizava a ação dos exércitos assírio, cartaginês, gregos (de Atenas e de Esparta) e romano. Alguma limitação ética dessas ações (entre as várias cidades gregas, por exemplo) nunca chega a ser verdadeiramente universal, detém-se na fronteira que separa o grupo tido por inimigo de outros grupos (os que não são gregos, designadamente).

É verdade que essa crueldade sistemática também caracteriza as guerras de todas as épocas, até as de hoje, como se vê na Ucrânia. Mas ela foi deixando de ser socialmente aceite e foi suscitando cada vez mais generalizada indignação, a ponto de se definirem os crimes de guerra e contra a humanidade. Até Hitler e Estaline pretenderam esconder os crimes de que foram responsáveis (como hoje Putin pretende negar os crimes do exército russo na Ucrânia).

Para além da violência bélica, a crueldade que caracteriza as sociedades e civilizações da Antiguidade reflete-se em fenómenos como os sacrifícios humanos, o infanticídio generalizado, a violência sobre a mulher, a escravatura ou os espetáculos de sangrentas e mortíferas lutas de gladiadores.

 

A ética da compaixão proposta pelo cristianismo

Ainda no âmbito dessas civilizações surgiram, quais “vozes que clamam no deserto”, figuras representativas de uma revolucionária “ética da compaixão”. Manuel Rodriguez Pena destaca as de Sócrates, na Grécia, e as dos estoicos, em Roma. Noutros âmbitos culturais, destaca as figuras de Confúcio e Buda, representantes, com Jesus Cristo, da “Era Axial” (uma revolução ocorrida entre 800 a.c. e 200 a.c.), de que fala o filósofo alemão Karl Jaspers, e das designadas “religiões éticas” (em que o espiritual e o divino se associam necessariamente ao bem moral). Desse modo se foi contrapondo o bem moral face ao poder e à força, a valorização da debilidade e da vulnerabilidade face à brutalidade agressora, a humildade face à vontade do poder, a misericórdia face à crueldade, a paz face à violência, o perdão face à vingança.

Ao contrário do que muitas vezes se afirma, na limitação da violência têm papel decisivo as religiões, afirma Manuel Rodriguez Pena citando a autoridade do antropólogo, historiador e filósofo francês René Girard.

O papel determinante para a afirmação histórica da ética da compaixão («a revelação ética mais importante da história humana») pertence ao cristianismo.

Já o Antigo Testamento o foi preparando. O Génesis afirma a sacralidade da vida de cada pessoa humana, enquanto imagem divina. Os profetas bíblicos testemunham a defesa intransigente da justiça e direitos dos pobres e vulneráveis perante os abusos do poder.

Com Jesus Cristo, o alcance do amor de doação (ágape), incondicional e desinteressado, atinge o seu ápice com o amor ao inimigo («a ideia ética mais extraordinária da história humana»), que representa o que há de mais contrário à lógica da vontade amoral de afirmação do poder.

A potência transformadora do cristianismo teve efeitos imediatos na forma como se passou a encarar a vida humana e no que se refere aos sacrifícios humanos, ao aborto, ao infanticídio e abandono de crianças (sobretudo as deficientes), à eutanásia de doentes e idosos, às lutas mortíferas de gladiadores, à escravatura sexual. Noutros âmbitos, como os da limitação da guerra e da abolição total da escravatura, a influência não foi imediata, mas não deixou de se verificar, como uma semente que foi germinando lentamente.

Manuel Rodriguez Pena denuncia as consequências trágicas daquelas reabilitações da Antiguidade clássica que se verificaram na história da Europa sem o “filtro” do cristianismo e em oposição a este. Destaca as figuras de Maquiavel (a conceção da política e do poder desligados da moral) e, sobretudo, de Nietzsche (a crítica do cristianismo como “moral de escravos”, fruto do ressentimento dos fracos e falhados, e a exaltação do poder e da força, “para além do bem e do mal”). Essas consequências traduziram-se em fenómenos como o Terror jacobino (e o genocídio da Vendeia) e, sobretudo, no nazismo (expressão suprema da afirmação amoral do poder dos fortes sobre os fracos, com o renascer da mentalidade eugénica que tem raízes históricas em Esparta). De Hitler são referidas múltiplas afirmações de conversas privadas que exprimem profunda oposição à ética cristã.

Eis, então, as razões por que considero que a tese de Manuel Rodriguez Pena exposta nestes livros nos ajuda a compreender o valor do legado histórico cristão da cultura europeia e ocidental, o seu verdadeiro sentido (muito mais do que uma afirmação identitária como qualquer outra) e a sua atualidade face a fenómenos contemporâneos que claramente o contrariam

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

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