A revolução da misericórdia e um novo ecumenismo (ensaio de Tomáš Halík)

| 30 Nov 2020

Há pessoas entre os evangélicos e os católicos ultra que se tornam numa espécie de robôs, sem razão nem consciência, logo que alguém carrega no botão “criminalizar o aborto” ou “fora com os homossexuais, os imigrantes e os estrangeiros”. Nessa altura despertam os seus reflexos pavlovianos e estão prontos a dançar ao som da música mesmo quando o flautista é o próprio diabo. Mas, ao contrário dessa lógica, é preciso recordar que a identidade do cristianismo não se radica no imobilismo, mas sim nos sinais do Espírito que trabalha na história, conduzindo os discípulos de Jesus ao âmago da Verdade, de um modo cada vez mais profundo. Propostas do padre Tomáš Halík, autor de Paciência Com Deus, num ensaio sobre a revolução da misericórdia proposta pelo Papa Francisco e o necessário “novo ecumenismo”. Cedido pelo autor, o 7MARGENS publica este texto em Portugal.

Tomáš Halík.

Tomáš Halík, em Dezembro de 2018, na entrevista ao 7MARGENS sobre o seu livro Diante de Ti os Meus Caminhos. Foto © Maria Wilton/Arquivo 7Margens.

 

Recentemente os maiores e mais influentes jornais do mundo inteiro publicaram nas suas primeiras páginas, uma inesperada e sensacional notícia emanada do Vaticano. A notícia era que a questão central da mensagem do Papa, para além do seu aspecto formal, teria escandalizado o mundo por ter falado dos homossexuais e do seu direito a amar, na mais humana das formas, como qualquer pessoa do século XXI que possua simultaneamente um coração aberto e a cabeça no seu lugar. Porém, na sua mensagem, o Papa não referiu o passado, ou seja, o incontestado facto de que séculos a fio os homossexuais foram alvo de maledicência, ódio e perseguições causando múltiplas tragédias humanas e não poucos suicídios. Foi precisamente o que aconteceu há relativamente pouco tempo numa zona rural da República Checa. Um jovem homossexual temendo a reacção da sua família perante o seu coming out não encontrou saída senão no suicídio.

Desta vez o Papa não se limitou à referida pseudo-progressista posição da Igreja, expressa em determinados documentos onde somos aconselhados a lidar empaticamente com as pessoas LGBT enquanto continuamos a oferecer-lhes, como única solução possível, uma vida de abstinência sexual. Já não há paciência para ler determinados documentos eclesiais que nos fazem lembrar o conto da rapariga esperta convidada a ir a uma festa no castelo “nem vestida nem nua”. Jamais esquecerei o olhar e o tom de voz de um intelectual católico e gay quando respondeu à minha afirmação de que talvez pudéssemos aceitar a sua união como sendo um mal menor – palavras essas que eu, de bona fide, considerei não só generosas como progressistas. “Padre”, replicou-me ele, “porque haveria eu de considerar como diabólica esta minha relação de amor, fidelidade e respeito mútuo, relação essa que dura há uma vida com o meu companheiro?”

Nas décadas seguintes pude verificar, para minha enorme surpresa, que a existência de uma grande percentagem de gays entre o clero católico não se limitava a simples rumores espalhados pelos inimigos da Igreja. Aliás, acabei por conhecer uns quantos casos muito diferentes entre si: aqueles que, levando uma vida casta, deixavam transparecer na sua atitude pastoral uma delicada e maternal compreensão e os outros que, em completa negação da sua orientação sexual, viviam uma vida dupla. Esta duplicidade levava-os a sentir e a exercer uma agressividade ultra-conservadora contra os homossexuais, atitude que mais não era que uma compensação inconsciente dos seus mais íntimos conflitos.

Graças à minha experiência como psicoterapeuta pude verificar que entre o grupo dos mais belicosos apoiantes do movimento contra o “tsunami da homossexualidade” se encontrava um padre a tentar negar a sua própria situação.

 

Reacções às declarações do Papa
cartaz do filme Francesco, de

Cartaz do filme Francesco, que estreou em Outubro, no qual o Papa comenta as uniões civis homossexuais.

 

O que o Papa disse neste filme não é vinculativo. O seu apoio às uniões civis (que não são o mesmo que um matrimónio) de pessoas LGBT é uma atitude benevolente que já vem de trás e que, em declarações anteriores, tinha ficado bem expressa. Fiquei, portanto, à espera de uma reacção às palavras do Papa por parte dos seus inimigos conservadores. Será que, segundo um grupo de cardeais conservadores, seriam necessárias novas “correcções filiais” ou mesmo dubia (dúvidas, objecções), tal como aconteceu anteriormente com alguns cardeais, quando o Papa Francisco diplomaticamente escreveu na sua encíclica Amoris Laetitia, que todos os divorciados e recasados não deveriam ser severamente excluídos da Eucaristia, nem de modo algum forçados a uma abstinência sexual perpétua sem se ter em conta o contexto de cada caso previamente avaliado, atenta e benevolamente, em simultâneo com a consciência do avaliador que deve ser igualmente tida em consideração?

Isto pressupõe que os opositores do Papa pretendem uma rígida adesão à letra da Lei que é exactamente a atitude à qual Jesus se opôs durante toda a sua vida e que expressou não apenas nos seus encontros com as elites religiosas do seu tempo, mas sobretudo quando alertou os seus discípulos para o perigo do “fermento dos fariseus”.

Quanto aos actuais “fariseus” penso que ainda estão a discutir o que deverão fazer. Uns quantos bispos disseram que o Papa teria simplesmente abusado da linguagem e que as suas palavras não tinham valor dogmático. “Tenham calma amigos! O que o Papa disse não tem relevância. Está tudo como sempre foi e assim continuará a estar.”

Esta afirmação está perfeitamente em sintonia com aquilo que um padre checo me disse logo após a eleição do Papa Francisco: “No Vaticano fui aconselhado a manter-me calmo e silencioso porque o Papa é velho, não vai durar muito e, portanto, tudo voltará a ser o que sempre foi.” De igual modo, durante o pontificado de João XXIII, os “escribas da Cúria” tinham recorrido à idade do Papa antes de este anunciar o Concílio que iria mudar para sempre a história da Igreja Católica.

Um dos principais representantes da Igreja Checa elaborou uma fantasiosa teoria política da conspiração sobre o que acima mencionámos, alegando que este “filme” teria sido dirigido por um homossexual com a finalidade de influenciar as então próximas eleições americanas.

 

Francisco e Trump dois mundos nos antípodas
Donald Trump. EUA. Racismo.

Trump, acompanhado da mulher, junto ao monumento ao Papa João Paulo II, em Washington, dia 2 de Junho de 2020: “Para cúmulo, o ainda Presidente dos EUA foi apresentado como o salvador dos valores cristãos.”  Foto: Direitos reservados

 

As teorias da conspiração acerca do “filme” do Papa Francisco ajustam-se às pessoas que aderem totalmente à amoralidade, às mentiras, à arrogância e ao cinismo do político [Trump] cuja vida inteira, acções e atitudes, claramente demonstram que o seu único deus é o dinheiro. Dinheiro esse que lhe permite adquirir bens luxuosíssimos assim como arranha céus altíssimos, esposas formosas que depois troca como se fossem camisas, e que acabou por alcançar o mais poderoso lugar político do planeta (embora a sua personalidade o incapacite para exercer qualquer cargo político). E, para cúmulo, foi apresentado como “o salvador dos valores cristãos”.

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Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel

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Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel novidade

Glyn Secker, secretário da Jewish Voice For Labor – uma organização que reúne judeus membros do Partido Trabalhista ­–, lançou um violento ataque aos “judeus que colocam Israel no centro da sua identidade” e classificou o sionismo como “uma obscenidade” ao discursar no dia 10 diante de Downing Street, durante um protesto contra os ataques de Israel na faixa de Gaza.

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Breves

 

Evento "importantíssimo" para o país

Governo assume despesas da JMJ que Moedas recusou

A ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, chegou a acordo com o presidente da Câmara de Lisboa sobre as Jornadas Mundiais da Juventude, comprometendo-se a – tal como exigia agora Carlos Moedas – assumir mais despesa do evento do que aquela que estava inicialmente prevista, noticiou o Expresso esta quarta-feira, 3.

Multiplicar o número de leitores do 7MARGENS

Em 15 dias, 90 novos assinantes

Durante o mês de julho o 7MARGENS registou 90 novos leitores-assinantes, em resultado do nosso apelo para que cada leitor trouxesse outro assinante. Deste modo, a Newsletter diária passou a ser enviada a 2.863 pessoas. Estamos ainda muto longe de duplicar o número de assinantes e chegar aos 5.000, pelo que mantemos o apelo feito a 18 de julho: que cada leitor consiga trazer outro.

Parceria com Global Tree

JMJ promove plantação de árvores

A Fundação Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e a Global Tree Initiative estabeleceram uma parceria com o objectivo de levar os participantes e responsáveis da organização da jornada a plantar árvores. A iniciativa pretende ser uma forma de assinalar o Dia Mundial da Conservação da Natureza, que se assinala nesta quinta-feira, 28 de julho.

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

Nos 77 anos do ataque atómico

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“Apelo a todos os membros” do Parlamento japonês, “bem como aos membros dos conselhos municipais e provinciais” para que se “encontrem com os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), ouçam como eles sofreram, aprendam a verdade sobre o bombardeio atómico e transmitam o que aprenderem ao mundo”, escreve, numa carta lida nas cerimónias dos 77 anos do ataque atómico sobre Nagasaki, por um dos seus sobreviventes, Takashi Miyata.

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

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Dezenas de pessoas estão desaparecidas depois de um barco ter naufragado no mar Egeu, na quarta-feira, ao largo da ilha grega de Cárpatos, divulgou a ACNUR. A embarcação afundou-se ao amanhecer, depois de da costa sul da vizinha Turquia, em direção a Itália. “Uma grande operação de busca e resgate está em curso.”

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