
A roldana na Casa das Servas de Nossa Senhora de Fátima, em Santarém. Foto © Direitos Reservados
O que pode fazer uma roldana de cisterna numa casa de freiras? “Uma cisterna tem muito a ver com o querer dar água viva. E todos estamos à procura de algo mais profundo, precisamos de água fresca” para as nossas vidas. Ao criar o Luiza Andaluz Centro de Conhecimento (LACC) em três casas da congregação em Lisboa e Santarém, as Servas de Nossa Senhora de Fátima querem concretizar um “projecto que sempre teve a ver com o desejo de possibilitar que as nossas casas possam ajudar a dessedentar, a sossegar” as vidas e os ritmos contemporâneos.
Já em 2017 a congregação pensava em alguma iniciativa que assinalasse o centenário da sua fundação, em 1923, por Luiza Andaluz. Mafalda Leitão, que integra o governo geral da congregação, explica como a ideia foi nascendo, sustentada em três pés: na Casa de São Mamede (Lisboa), na Casa Madre Luiza Andaluz e no Convento das Capuchas (Santarém), surgem três centros de espiritualidade, dinamização e educação. A cada casa a sua especificidade, consoante as três inspirações da fundadora: na Casa Madre será mais acentuada a dimensão da espiritualidade e da reflexão, na de Lisboa a sua dimensão mais empreendedora e dinamizadora e no antigo Convento das Capuchas a sua dimensão de educadora atenta à educação integral.
Mafalda Leitão recorda: depois da implantação da República, as religiosas ou eram expulsas ou tinham de ter alguma actividade social. Na cerca do Convento das Capuchas, as freiras abriram uma sala de aula para crianças mais pobres. “A primeira missão de Luiza Andaluz foi ajudar as irmãs a organizar a escola.” Por isso o núcleo do LACC neste antigo convento assume a “dimensão educadora, transformadora social, de educação integral” de Luiza Andaluz, que “marca profundamente” a congregação. Aliás, a própria fundadora deu logo esse traço ao antigo convento quando o comprou em hasta pública, em 1925: para ali levou crianças que tinham sofrido a pneumónica de 1918 ou por causa dela tinham ficado órfãs. Hoje, o convento é um lar de infância.
O LACC “quer ser um espaço contemporâneo e de vanguarda onde pessoas inquietas e buscadoras da verdade encontram o rosto de Deus e o expressam em novas linguagens”, resumem as Servas.
Voltemos à roldana da cisterna construída no centro do pátio da Casa Madre Andaluz. É uma “típica cisterna de Santarém, emblemática” do que era o abastecimento de água e das próprias cisternas que fizeram a história do povoamento de Santarém, explica a irmã Mafalda. A religiosa sabe também do que fala: formada na área do ensino da Física e Química, Mafalda Leitão doutorou-se depois em Ciências da Educação, nas questões do desenvolvimento sustentável em torno da água.
A roldana é uma das peças que já se podem ver na página digital do LACC. “Quando imaginámos o projecto, pensámos em dar a conhecer, em cada mês, uma peça do espólio ligado a Luiza ou às casas em que ela viveu e que vamos abrir.” Essa é uma forma de contar uma história, de falar da espiritualidade e do carisma da fundadora e da congregação, bem como de propor um apelo à renovação vocacional e à actualização da missão. Fazendo-o com uma linguagem renovada, as religiosas pretendem, desse modo, “estar atentas aos sinais dos tempos e dar uma resposta evangélica” na linha do seu carisma.
A história de uma guitarra

A Casa de S. Mamede é uma das que acolherá um Centro de Conhecimento. Foto © Direitos Reservados
Podemos encontrar, por exemplo, também a história de uma guitarra, cuja importância na música portuguesa se destaca. O instrumento em questão foi adquirido a Santos Beirão, em Lisboa, entre 1923 e 1975, para ser tocado no Colégio Andaluz em Santarém, lê-se na descrição. Este colégio, fundado por Luiza Andaluz na sequência do abrigo dado às crianças atingidas pela pneumónica, “adoptou, desde cedo, uma educação moderna, uma pedagogia que teve como base o conceito de ‘educação integral’, cujo horizonte é a formação da pessoa no seu todo, como construtora de uma sociedade em benefício de todos” e onde o ensino de música era “primordial”. E justifica-se com os estudos actuais que confirmam a importância do ensino de música em crianças para o seu “desenvolvimento intelectual, motor, sensorial e até linguístico”. Por isso o colégio fez um grande investimento em instrumentos musicais e criou uma banda da escola. A guitarra é um dos instrumentos musicais guardados pela congregação.
“Ao pensar no centenário, perguntámo-nos sobre o que poderíamos fazer? O projecto do Centro de Conhecimento é uma dessas respostas: queremos ser uma água diferente, porque não podemos estar na pastoral e na vida do mundo da mesma forma que estávamos em 1923.”
O LACC será concretizado de múltiplas formas: site, exposições, conferências, locais para parar e fazer silêncio, encontros de reflexão e espiritualidade, iniciativas à volta de uma peça ou de um livro, histórias de vida… “Queremos ser mulheres inquietas, buscadoras para dar resposta ao evangelho, porque a linguagem tradicional já não é muito perceptível para as pessoas de hoje e temos de saber comunicar com os nossos contemporâneos.”
Recorrendo de novo às imagens da água, Mafalda Leitão diz que é importante que a água chegue a todos, mas a cada pessoa consoante a sua sede e as suas necessidades.
A congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima reúne cerca de uma centena de irmãs em Portugal e mais meia centena em diferentes comunidades em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Bélgica, Luxemburgo e ainda no Brasil, de onde sairão em breve, tendo em conta a escassez de vocações – que o LACC também pretende contrariar.
A inauguração deste primeiro núcleo do Centro de Conhecimento em Santarém ocorre precisamente no dia em que Luiza Andaluz recebeu de Roma a aprovação do nome da congregação, em 1939. Os outros dois núcleos abrirão em 23 de Setembro, em Lisboa, assinalando os 100 anos da data em que Luiza Andaluz sentiu, no Carmelo de Echavacoiz (Pamplona), onde estava, que Deus a chamava para a vida religiosa. Em Janeiro do próximo ano, abre a Casa das Capuchas, assinalando a data em que as primeiras crianças foram acolhidas no antigo convento. Já no próximo sábado, 23 de Abril, também em Santarém, será apresentado o livro electrónico Entre Memórias, Histórias e Reflexões, que apresenta entrevistas a várias religiosas da congregação.
Entre os projectos do centenário e do LACC está também, em colaboração com a editora Lucerna, a edição de todos os escritos de Luiza Andaluz. Três dos volumes estão já publicados, os outros três – correspondência geral, cartas à sua irmã Eugénia e discursos e comunicações – serão editados até 2023.
A Casa Madre Luiza Andaluz, sede da congregação, corresponde ao antigo palacete dos Viscondes de Andaluz, o edifício onde Luiza nasceu em 12 de Fevereiro de 1877. A fundação da congregação seria oficializada em 15 de Outubro de 1923.









