A roseira que defende a vinha: ainda a eutanásia

| 23 Jan 2022

“O debate sobre a eutanásia é a marca do fungo que atacou a roseira perto da vinha: não se quer proteger ninguém, nem dignificar a pessoa, antes alcançar o que se pensa ser um avanço civilizacional.” Foto © site Agricultura e Mar

 

Há tempos, numa visita a uma adega nacional conhecida, em turismo, ouvi uma curiosa explicação da nossa guia que me relembrou imediatamente da vida de fé e das questões dos tempos modernos. Dizia-nos a guia que é hábito encontrar roseiras ao redor das vinhas como salvaguarda: quando os vitivinicultores encontravam algum tipo de doença nas roseiras, algum fungo, sabiam que era hora de proteger a vinha, de a tratar, porque a doença estava próxima.

Confesso que não ouvi muito mais da visita depois disso, ficando perdido por entre diversos pensamentos que me invadiram. Recordei-me daquela passagem do Evangelho em que Jesus diz: “Como se vê, sabeis interpretar o aspeto do céu; mas, quanto aos sinais dos tempos, não sois capazes de os interpretar! Esta geração má e adúltera exige um sinal. Mas sinal algum lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas” (Mt 16:3-4).

A dado momento, relembrei-me do Concílio Vaticano II e da forma como devemos preparar a missão eclesial: “é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático (Constituição Gaudium et Spes, 4).

É inegável que vivemos numa sociedade que evolui mais rapidamente do que pensa (se é que pensa), deixando-se muitas vezes levar por imediatismos e paixões de momento. É muito complicado anunciar o Evangelho a quem não quer ouvir e apenas quer coisas novas. Há uma ânsia de novidade que faz procurar o diferente, apenas por ser diferente, independente da sua bondade e dos caminhos que podem abrir. O Papa Francisco referiu-se a este aspeto na Laudato Si (que o ativismo panfletário reduziu a um texto sobre meras questões ambientais, em vez de compreender a proposta de uma ecologia integral que começa na própria dignidade humana) ao relembrar a expressão espanhola rapidación.

O debate sobre a eutanásia é a marca do fungo que atacou a roseira perto da vinha: não se quer proteger ninguém, nem dignificar a pessoa, antes alcançar o que se pensa ser um avanço civilizacional. A morte medicamente assistida (expressão triste, porquanto o que está em causa é a morte medicamente substituída ou infligida) é apenas o instrumento para alguns deixarem o seu nome na história. É por isso que o debate racional sobre a eutanásia é impossível: na maioria das vezes não se sai da exploração sentimental da dor alheia e da invocação de nomes concretos para chantagear os demais. Aliás, a pergunta repetida a propósito da eutanásia é sintoma dessa sobranceria ideológica: permitir aos outros que sofrem, que possam pôr fim ao seu sofrimento com dignidade. Dito assim, é quase impossível não dizer que sim… quem sou eu para obrigar alguém a sofrer.

Todavia, o problema está, exatamente, na questão de partida: o que está em causa não é o sofrimento do outro, até porque eu não sou ninguém para decidir sobre se o outro pode ou não querer morrer. A questão da eutanásia é, antes de mais, uma questão pessoal: eu quero, ao chegar a uma circunstância de doença incurável e irreversível, de sofrimento extremo, ter a hipótese de pedir a morte através de um processo médico? Eu quero correr o risco de a minha vontade ser mal interpretada, influenciada, dirigida, no sentido de vir a pedir a morte, em função do estado em que me encontrar? Não seria de esperar que, na atualidade, pudéssemos sonhar (para utilizar uma expressão muito querida nos dias de hoje) com as utopias das soluções difíceis, em buscar todas as opções humanas, espirituais, científicas, sociais e/ou económicas, para potenciar a defesa da vida, em todos os seus estados e conjunturas? Não estamos a instituir a ideia de que a vida só merece ser protegida quando útil ao coletivo, sendo indigna nos casos em que nos exige maior atenção e cuidado? Não preferiria esgotar todas as hipóteses de ter uma vida acompanhada humana e medicamente, antes, sequer, de pensar pedir a morte?

A posição da Igreja é conhecida e pública: “Assim, uma acção ou uma omissão que, de per si ou na intenção, cause a morte com o fim de suprimir o sofrimento, constitui um assassínio gravemente contrário à dignidade da pessoa humana e ao respeito do Deus vivo, seu Criador. O erro de juízo, em que se pode ter caído de boa fé, não muda a natureza do acto homicida, o qual deve sempre ser condenado e posto de parte (Catecismo da Igreja Católica, § 2277).

Sem prejuízo, considerando a reflexão antecedente, chegará hoje enunciar os princípios morais respeitantes à eutanásia e constantes do Catecismo? Que nos dizem os sinais dos tempos? Talvez seja altura de reconhecer a doença que afeta já as roseiras e começar a tratar da vinha, defendê-la e reforçá-la. Não bastará afirmar e debater! A Igreja enquanto realidade também humana, é chamada, assim me parece, a colocar-se à frente da defesa da vida em atos: mostrar ao mundo como o fim de vida natural pode ser digno e como as pessoas não precisam de ser abatidas como animais para pôr fim a situações incómodas.

Assim, podemos ou não investir mais na investigação científica e espiritual para melhorar as condições de vida das pessoas mais fragilizadas, dando-lhes todas as possibilidades de se sentirem membros da sociedade que os quer e os respeita? São conhecidos os exemplos de grupos, comunidades, iniciativas eclesiais que estão ao lado dos que mais sofrem? Estão estudados os impactos dessas metodologias de acompanhamento ao longo do processo de morte no próprio desejo de morrer dos seus destinatários? Podemos dizer, enquanto sociedade, que já fizemos tudo para dar todas as condições aos que mais sofrem no sentido de quererem viver até ao fim do seu tempo natural?

Sabemos que o Estado não investe nas soluções de acompanhamento das pessoas em fim de vida, mas a Igreja está a fazê-lo? Através das instituições académicas, científicas e caritativas pertencentes à Igreja? Defender a vida é uma caminhada, que não pode ter data marcada, que se fará mais com atos do que com palavras. Este debate é importante demais para ficar para depois: ao prepararmos as eleições próximas, devemos exigir aos partidos uma posição clara sobre a matéria e um debate público sério. Os portugueses têm que se pronunciar, expressamente, sobre o que querem em matéria de fim de vida: a economia não pode vir à frente da vida.

 

Carlos Moreira Antunes é catequista no Patriarcado de Lisboa e jurista.

 

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