50 anos do Copic

A rua proibida de Vera Jardim que levou à Lei da Liberdade Religiosa

| 14 Jun 21

Uma rua proibida de onde nasce uma lei da liberdade religiosa; diferentes igrejas protestantes que celebram 50 anos de diálogo ecuménico e se unem agora a duas organizações ambientais e a outras confissões cristãs para promover a defesa da casa comum. E um Presidente da República e um antigo ministro a elogiarem estes percursos. O Conselho Português de Igrejas Cristãs assinalou 50 anos e fez a festa.

Vasos com perpétuas como sinal de compromisso para com a criação, distribuídos aos participantes: a cerimónia incluiu a assinatura do programa Eco-Igrejas. Foto © António Marujo

 

Pode uma rua proibida às crianças nas Caldas da Rainha estar na origem da Lei da Liberdade Religiosa, que daqui a dias completa 20 anos? José Vera Jardim, o ministro que, à época, lançou o processo de elaboração da nova lei, recordou o tempo em que, criança vivendo na cidade termal, brincava fora de casa como todos os da sua idade.

“Havia uma rua [sobre a qual] as pessoas nos diziam: os meninos não vão brincar para essa rua”, contou o actual presidente da Comissão da Liberdade Religiosa (CLR), neste último sábado, 12, no culto de acção de graças que assinalou os 50 anos do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic).

“Custou a perceber porquê e ainda hoje me custa imenso perceber porquê. Mas esta história que tenho contado a alguns amigos está na base da lei da liberdade religiosa”, acrescentou, na cerimónia que decorreu na Catedral de São Paulo, da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), em Lisboa.

“É que nessa rua havia uma pequena porta onde entravam ao fim da tarde umas dezenas de pessoas, que nós não conhecíamos, que não tinham aspecto de fazer mal a ninguém”, mas cujo convívio era desaconselhado pela própria família, explicou ainda.

“Os tempos eram muito diferentes do que são hoje. É que aí era uma igreja protestante e como tal era de afastar do nosso convívio”, contou ainda o responsável material da LLR. Foi ainda o agora presidente da CLR que, depois de sair do Governo, concluiu o processo de retomar o projecto e levá-lo a votação no Parlamento.

Uma história de contornos semelhantes tinha sido contada pouco antes pelo pastor, Paulo Medeiros Silva, presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana: em 1964, em Ponta Delgada, o pároco de São José entrou numa sala de aula de uma escola pública e deu ordem de expulsão imediata a um aluno então com 7 anos: “Ó protestante vai para a rua!”

“Esta criança era eu”, contou Paulo Medeiros que, muitos anos depois, já estudante de teologia, conversaria “cordialmente” com o mesmo padre católico. “De então até hoje muito nos apraz verificar a evolução e o caminho que se fez em termos ecuménicos”, comentou.

 

Ultrapassar feridas antigas

José Vera Jardim: “Fiquei impressionado pelo apelo a que sejam ultrapassadas feridas históricas antigas.” Foto © António Marujo

 

José Vera Jardim acrescentou, na sua intervenção, que saía da cerimónia “com muita esperança, com uma profunda alegria por ver que cada vez mais” a questão da unidade dos cristãos se vem colocando. “E mal seria que no período trágico que atravessa a humanidade não houvesse um movimento forte e convicto no sentido da unidade dos cristãos”, acrescentou.

Momentos depois, o Presidente da República dirigiria em primeiro lugar uma palavra especial a Vera Jardim, “pelo contributo dado há 20 anos, aquando da elaboração” da LLR “e pela forma devotada, isenta, empenhada, como tem construído e contribuído para construir a liberdade religiosa em Portugal”.

O antigo ministro diria ainda: “Ao ler e acompanhar a invocação do Espírito Santo que fez parte das nossas orações, fiquei verdadeiramente impressionado pelo apelo a que sejam ultrapassadas feridas históricas antigas”, neste momento “em que a humanidade precisa não de guerras, não de desentendimentos”, mas “de se unir para vencer as tragédias que estão presentes e porventura aquelas que hão-de vir”.

Nesta perspectiva, Vera Jardim saudou o documento que, momentos antes, tinha sido foi assinado pelos presidentes do Copic, o bispo da Igreja Lusitana (Anglicana), Jorge Pina Cabral; da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o bispo de Setúbal, José Ornelas; e da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), António Calaím.

O memorando, que pretende conduzir um processo de certificação de grupos, comunidades e instituições de diferentes igrejas cristãs, foi ainda subscrito pela rede Cuidar da Casa Comum e pela organização ambiental A Rocha, que conduzirá o processo de certificação.

A propósito, Vera Jardim comentou que o documento “chama a atenção não para a tragédia que temos hoje, mas para a tragédia porventura maior” que poderá levar à perda da humanidade, se não se arrepiar caminho.

 

Um sinal auspicioso

Presidente Marcelo: “Infelizmente, vivemos um tempo perigosamente egoísta.” Foto © António Marujo

 

Outras dimensões perigosas dos tempos que vivemos seriam também lembradas pelo Presidente da República, cuja intervenção praticamente encerrou a cerimónia. “Infelizmente vivemos um tempo de alguma intolerância, de alguma xenofobia, de algum distanciamento em relação aos outros, vivemos um tempo perigosamente egoísta”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

A pandemia afectou a vida de todos, mas tem sido também “uma provação e um desafio, também às igrejas cristãs”. E a fundação do Copic, cujas igrejas atravessaram outras provações – o Conselho foi criado na fase final da ditadura do Estado Novo, recordou Marcelo – foi um dos “poucos sinais auspiciosos” desse tempo de “pouco diálogo, pouca tolerância, pouca aceitação da diferença, pouco respeito pelo direito de tantos outros”.

Por isso, para o Presidente não há dúvidas de que a liberdade religiosa estabelecida depois de 1974 e, sobretudo, com a LLR de 2001, é “um princípio fundamental da Constituição” que rege Portugal. Mas o Copic foi “pioneiro num caminho que é recomeçado dia após dia”. Quer porque uniu as igrejas que o constituem – Lusitana, Metodista, Presbiteriana e Evangélica Alemã do Porto – mas também porque encetou processos de diálogo com a CEP (católica) e com a Aliança Evangélica e, ao mesmo tempo, abrindo-se também à sociedade.

Sobre a liberdade religiosa, o Presidente diria ao 7MARGENS, após a cerimónia, que “infelizmente, violações da liberdade religiosa vão ocorrendo por todo mundo, nalguns casos gravíssimas”. Insistindo na ideia que referira durante a sua intervenção, Rebelo de Sousa disse que o tratamento a que muitas minorias são sujeitas hoje “é preocupante, neste tempo em que há muita xenofobia, há muita discriminação, há muito o sentido de defesa securitário”. E acrescentou: “O que vem de diferente, o que vem de fora – na religião, no pensamento, nas ideias, às vezes nas etnias, muitas vezes nos comportamentos – é considerado inaceitável. E isso é que é um retrocesso civilizacional.”

Na intervenção na catedral, o Presidente afirmara ainda que “a liberdade de pouco vale se não for acompanhada de mais igualdade, de mais justiça, de menos pobreza, de menos exclusão, de menos marginalização”.

O culto contou com a participação, além de representantes das igrejas e entidades já referidas, do presidente da Conferência das Igrejas Europeias (CEC, da sigla em inglês), Christian Krieger. Na sua intervenção, Kieger referiu-se de forma elogiosa à presidência portuguesa da União Europeia, nomeadamente a propósito da Cimeira Social do Porto. E falou sobre o novo Pacto das Migrações, da União Europeia, bem como sobre o memorando assinado na cerimónia, como se pode ler em outro texto do 7MARGENS.

 

Libertar as mentes cativas

Duas árias de Bach e Haendel integraram o programa, interpretadas por Raquel Santos e acompanhadas pelo organista David Dehner. Foto © António Marujo

 

Paulo Medeiros, que comentou um texto bíblico, extraído da Carta aos Romanos, disse ser necessário o “desconfinamento de mentes cativas, para que façam o exercício libertador dos constrangimentos naturais que nos separam e nos ligam ao pequeno”.

O presidente da Igreja Presbiteriana acrescentou: “Quando nos fechamos no universo exíguo das nossas doutrinas e das nossas convicções pessoais, ou nas regras que construímos incansavelmente e onde uma certa ideia de separação por via da circunscrição do limite impõe restrições e fronteiras, apenas nos aproximamos da nossa natureza e obstruímos a criatividade do Espírito.”

Por isso, concluiu, o desafio é o da unidade que o ecumenismo consagra na “abertura, inclusão e diálogo”.

No início do culto de acção de graças, o presidente do Copic, o bispo lusitano, Pina Cabral, disse que estes 50 anos da estrutura ecuménica que reúne as quatro igrejas protestantes são celebrados sob o lema “Unidos no amor e na esperança”.

No caminhar ecuménico em Portugal, “o Copic tem sido um construtor de pontes e tradições diferentes”, afirmou o bispo, na consciência do “particular contexto” que se está a viver com a pandemia. Um tempo cuja “exigência aproximou as pessoas”, também “na ajuda solidária concreta aos irmãos mais necessitados”.

José Sifredo Teixeira, bispo da Igreja Metodista, afirmou a propósito, num comentário a outro texto bíblico, da Carta de Paulo aos Efésios, que se deve reconhecer “que, em tempo de pandemia, a Igreja Cristã na sua diversidade está a fazer um trabalho precioso junto de quem precisa, e sobre o qual pouco se tem dito: apoio espiritual, apoio solidário, são imensas as iniciativas que a Igreja ou através dela têm sido promovidas”, defendeu. “Se não fosse isso as notícias em tempo de pandemia teriam sio mais trágicas”, concluiu.

Na celebração, como gestos ecuménicos, o bispo católico José Ornelas e o presidente da Aliança Evangélica foram convidados a ler os textos bíblicos que foram proclamados. Depois da assinatura do programa Eco-Igrejas, foi distribuído a todos os presentes um vaso com uma perpétua, como sinal de compromisso com a criação. E, além dos hinos litúrgicos cantados, houve lugar ainda à interpretação, pela solista Raquel Santos, do Instituto Gregoriano de Lisboa, e do organista David Dehner, de uma ária da Paixão Segundo São João, de Bach, e de uma outra da oratória Judas Maccabeus, de Haendel.

A celebração pode ser vista na íntegra no vídeo a seguir:

 

Um inusitado toque de sinos, um minuto de silêncio, uma árvore plantada pelo Presidente

Memória e Esperança mobiliza gestos

Um inusitado toque de sinos, um minuto de silêncio, uma árvore plantada pelo Presidente novidade

Um voto no Parlamento, uma árvore a plantar pelo Presidente da República domingo à tarde no fecho da Jornada e um minuto de silêncio para ser cumprido também domingo, às 14h, por quem assim o entenda. Gestos da Jornada de Memória e Esperança que mobiliza neste fim-de-semana milhares de crianças, jovens e adultos por todo o país.

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