A Rússia de Kathie Guroff

| 12 Abr 2022

Foto © Luis Castanheira Pinto | 2022

Foto © Luis Castanheira Pinto, 2022

 

A nossa vizinha de frente tem 83 anos. Porte composto, em harmonia com a idade. Cabelo grisalho. Recolhido no seu papel secundário perante os olhos azuis intensos. Vivos. Muito vivos. Movimentos firmes e escorreitos. Iludem as dores dos muitos invernos passados. Viúva, em atividade constante. O iWatch no pulso esquerdo a ditar uma agenda impensável. Um escritório em casa, em dinâmica desarmonia. O tempo passado entre a família e a paixão pelo golfe. O carro que sai e regressa a cada momento. Os passeios com o cão. A conversa espontânea, fácil, simpática, acolhedora, no passeio em frente à casa. Sempre cordial. Sempre acolhedora. Sempre. Desde o início.

A nossa vizinha da frente fez-se próxima quando chegámos. Cumprimentou-nos. Ofereceu ajuda. Deu-nos pistas de navegação básica. Trouxe um bolo. Gestos simples. Clichés que valem o mundo quando aterramos num país novo. Mais tarde, convidou-nos a sua casa. O espanto e o deslumbre preencheram então o que faltava da relação.

A nossa vizinha da frente chama-se Kathie Guroff. O apelido vem do marido, de origem russa. E ucraniana. Amor de uma vida. A casa da Kathie é um museu. Forrado de iconografias. Arte a transbordar. Cada peça revela um momento. Intimamente especial. Parece-nos. Não saberemos nunca. Podemos apenas intuir. O brilho no olhar. A comoção contida na elegância do diálogo. A vibração subtil na voz. Leve. Não calma, mas leve. Suave. Expressiva e hipnotizante. Ficaríamos eternidades a escutar a Kathie. A ouvi-la dizer da sua vida. Da sua relação com a Rússia. E com a Ucrânia. Sempre de mãos dadas com o seu companheiro de jornada. Agora ausente. Mas sempre presente. 

Não saberei dizer como é a Russia de Kathie Guroff. Só ela o saberá. Dela sairão as palavras que escolhe partilhar sobre a sua Rússia. Haverá sempre mais. Muito mais. Não dito. E, depois, há aquilo que quero acreditar que é a Rússia que nos descreve. A narrativa que construo à volta das suas frases. O que imagino estar contido nelas. Sem saber.

Mais do que compreender o que é a Rússia de Kathie Guroff, creio ir percebendo aquilo que não é. A Rússia de Kathie Guroff – tal como a Ucrânia de Kathie Guroff – não é feita de bons e maus. Nem de regimes. Nem de estratégias. Nem de geopolítica. Nem tampouco de ideias-feitas, estereotipadas, sobre uma cultura. Uma única cultura. Muito menos se compadece com notícias de jornal. Ou reportagens de guerra. Ou correntes de opinião. De agora.

A Rússia de Kathie Guroff tem mais tempos. Mais gente. Mais cores. Mais matizes. Chega-nos feita de relatos vividos. Experienciados. Sentidos. Concretos. Únicos. E simultaneamente intemporais. Estórias de pessoas singulares. Irrepetíveis. Como o somos todos e cada um de nós. A bailarina do ballet russo. O director de orquestra de S. Petersburgo. O oligarca colecionador de arte antiga ucraniana. A tia-avó na sua casa junto ao Kremlin. Longe das diatribes do Kremlin. A primeira visita da família. Os novos que não se conformam. Os antigos que nunca se conformaram. E o marido. Sempre o marido.

Na Rússia de Kathie Guroff – assim como na Ucrânia de Kathie Guroff – cabe muita ternura. E saudade. E agora raiva também. Os dentes que sentimos ranger ao falar da barbárie. Da cegueira da violência. Das bestas que matam os seus queridos. Cabe um sentimento de empatia. E de impotência. Cabe um fio de amor. E de revolta.

Na Rússia de Kathie Guroff cabe toda a humanidade. No seu todo. Tal como ela é. Plena de contrastes impossíveis. Em cada imagem. Em cada movimento. Em cada pessoa. Em cada lágrima que se solta. No rasgo de dor, como no abraço apertado. Bem apertado. Como se encerrasse em si mesmo aquele abraço outro. De um Deus que aconchega terna e incondicionalmente esta desgraçada humanidade que nos atormenta compreender. 

Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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