II. A arte de ler [gostosamente] a Escritura
A leitura da Sagrada Escritura é uma arte. Com toda a propriedade, pode falar-se de uma ars legendi, a arte de ler. Sem cair nos estereótipos da arte pela arte, a leitura bíblica tem características próprias. Desde logo, porque não se trata de ler literatura profana, mas a própria Palavra de Deus. De tal forma assim é que, como salienta Santo Ambrósio, «a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos». Para ouvi-Lo bem, é importante cuidar a qualidade da leitura. Nesse sentido, a Dei Verbum insiste na necessidade de que aqueles que se dedicam ao serviço da palavra «mantenham um contacto íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo aturado» (DV 24). E isto não é tarefa apenas para os ministros ordenados e quem se dedica à catequese, embora tenham, neste domínio, responsabilidades acrescidas, mas para todos os batizados: «Do mesmo modo, o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam “a sublime ciência de Jesus Cristo” com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”» (DV 25).
O repto lançado pelo II Concílio do Vaticano é feito com um advérbio, que aponta para uma excelência, quase a fazer-nos lembrar o padre António Vieira, que, no Sermão da Sexagésima, sublinhou a importância dos advérbios, mais do que uma acumulação de verbos e substantivos. Qual é o advérbio? Nem mais, «gostosamente». De facto, com grande prazer e boa vontade, é sugerida a todos os fiéis a leitura da Sagrada Escritura: «Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração, para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque “a Ele falamos, quando rezamos; a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos”» (DV 25).

Jovens celebrando a Liturgia das Horas, na capela Cheia de Graça, Braga: “Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração.” Fotografia © Nelson Garrido, cedida pelo autor.
Como sugere a Dei Verbum, pelas palavras acabadas de transcrever, há diferentes modos de ler a Sagrada Escritura. Em primeiro lugar, por uma razão especial, valoriza-se a sua leitura na Liturgia. Além deste modo, são referidos dois outros: a leitura espiritual e, de forma subentendida, a lectio divina. Há, todavia, modos de leitura, que se estão a espalhar rapidamente, sobretudo através das plataformas digitais. Conheceremos, por exemplo, as dinâmicas de leitura, a meditação e o estudo que se implementaram quer nos Grupos Bíblicos, quer nos Grupos Semeadores de Esperança; esta última iniciativa desenvolvida, na diocese de Braga, desde 2017. Neste momento, porém, gostaria de concentrar a nossa atenção em três desses modos: a leitura litúrgica, a lectio divina e a leitura espiritual.

Ambões do Evangelho e da Epístola na Catedral de Salerno. A dignidade dos ambões sugere a qualidade da leitura litúrgica na nave central, no meio da assembleia celebrante. Fotografia © Joaquim Félix
Leitura litúrgica
A partir do sentido teológico da Liturgia, a constituição Sacrosanctum Concilium refere que «Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas» (SC 7). Na lista das presenças sacramentais de Cristo, aparece a leitura litúrgica: «Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura» (SC 7). Como outrora, o povo de Deus é convocado à assembleia para, em primeiro lugar, escutar Deus e Cristo, seu filho. Só depois de escutar a sua Palavra, os fiéis poderão responder em clima de diálogo familiar. Eis porque uma das principais indicações da reforma litúrgica promovida pelo II Concílio do Vaticano foi providenciar que todas as celebrações dos sacramentos, tal como as dos principais sacramentais, dispusessem de uma liturgia da Palavra, mesmo que esta fosse constituída por breves passagens bíblicas, até mesmo por um versículo. E para que, na Liturgia, se pudesse ver mais claramente a união íntima que existe entre o rito e a palavra, sugeriu: «Seja mais abundante, variada e bem adaptada a leitura da Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas» (SC 34,1). No caso da Missa, esse desejo foi cumprido, em 1969, e, depois, na segunda edição, em 1981, com a publicação do Ordo Lectionum Missae.

Lecionários: quando lida numa ação litúrgica, a Palavra assume valor atual. Fotografia © Joaquim Félix.
O significado da leitura da Sagrada Escritura na Liturgia é extremamente importante. Antes de mais porque, quando lida numa ação litúrgica, a Palavra assume valor atual; valor que não consegue igualar-se em quaisquer outros modos de leitura. É por isso que, na liturgia da Palavra, se associam às leituras orações, sinais de reverência – incenso, ósculo, círios – e aclamações. Essa importância é evidenciada pela constituição Sacrosanctum Concilium: «É enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as ações e os sinais» (SC 24).
Tendo em conta o alto significado da leitura litúrgica, o serviço dos leitores, além de ser uma graça especial, comporta particulares exigências, seja ao nível da preparação seja quanto ao ato de ler e proclamar a Palavra. É um serviço à assembleia litúrgica que, através da Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, intitulada Spiritus Domini, com data de 11 de janeiro de 2011, pode ser realizado não só por homens, mas também por mulheres. Felizmente, existe alguma bibliografia que ajuda a conhecer melhor a dignidade da função do leitor, ao longo da história da Liturgia, e fornece conselhos e exercícios para que possa desempenhar bem o seu ministério.

Lecionário aberto sobre o ambão, na Chiesa di Nostra Signora della Misericordia (Baranzate). Fotografia © Joaquim Félix
Em termos práticos, O Livro do Leitor fornece, na V parte, esclarecimentos pertinentes para a formação do leitor. Embora sejam abundantes as indicações técnicas para a preparação dos leitores e das leituras, antes e no ato de ler a Palavra na assembleia litúrgica, e não faltem respostas breves para algumas perguntas, gostaria de salientar alguns aspetos, tendo em conta o exigente serviço da leitura. Sem se deixar contaminar por escrúpulos, respirando a alegria do humilde servo, o leitor tomará consciência de que, através das suas palavras, o Verbo se faz Palavra. Por ele, Cristo fala e faz da assembleia seu Corpo ressonante. Não é sua a Palavra que lê com competência literária e generosidade de anfitrião. Servindo a comunidade ouvinte, ao proclamar o Evangelho, ele interiorizará que as suas palavras se tornam eco das de Jesus: «Sou eu que estou a falar contigo» (João 4, 26). E, sem se deixar levar pela pressa, que é uma autêntica heresia, há de ser lento na leitura, no respeito pelo ritmo somático, o seu e o da assembleia, ou como quando passeia numa floresta ou nos passadiços à beira-mar ou ao longo dos rios. Poderá, assim, avivar a memória dos ouvintes, alimentando-os com a Palavra. Colocando-se diante dos outros, no serviço legente, oferece-se e submerge-se na Palavra que lê ou proclama.

Lecionário aberto e iluminado na capela Cheia de Graça, Braga. Fotografia © João Lopes Cardoso, cedida pelo autor.
Lectio divina
O incentivo da Dei Verbum para que todos os fiéis leiam a Sagrada Escritura é feito com um apelo: «Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração, para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem» (DV 25). A XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se realizou em Roma de 5 a 26 de outubro de 2008, teve como tema central «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja». Dela nasceu a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, assinada pelo Papa Bento XVI, no dia 30 de setembro de 2010, festa de São Jerónimo. Nela, o Papa Bento XVI explora a relação entre a leitura orante da Sagrada Escritura e a lectio divina: «O Sínodo insistiu repetidamente sobre a exigência de uma abordagem orante do texto sagrado como elemento fundamental da vida espiritual de todo o fiel, nos diversos ministérios e estados de vida, com particular referência à lectio divina» (VD 86). Além disso, acrescenta: «Nos documentos que prepararam e acompanharam o Sínodo, falou-se dos vários métodos para se abeirar, com fruto e na fé, das Sagradas Escrituras. Prestou-se, todavia, maior atenção à lectio divina, que «é verdadeiramente capaz não só de desvendar ao fiel o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina viva» (VD 87).
Nos nossos dias, constatamos que a prática da lectio divina se vai promovendo cada vez mais. É algo que sucede em termos individuais, mas também em grupos paroquiais e de outras instituições e movimentos eclesiais. Conheço pessoas que a fazem quotidianamente, com o Evangelho do dia. Há mosteiros que assim a instituíram às primeiras horas da manhã. Todavia, o mais normal é que a lectio divina seja feita em dinâmica de grupo, uma vez por semana ou por mês. Eu próprio estou habituado a fazê-la, uma vez por semana, com grupos de jovens, tomando por leitura o Evangelho do domingo seguinte. Também a faço sozinho, antes de escrever as homilias, a partir das leituras do dia.

Detalhe de Apóstolo na basílica de S. João de Latrão, Roma: a prática da lectio divina vai-se promovendo cada vez mais. Fotografia © Joaquim Félix.
Quando faço a lectio divina neste regime individual, recordo-me sempre das recomendações que Orígenes deu na Carta a Gregório, no sentido de cultivar a intimidade com Cristo, através da leitura e da oração: «Dedica-te à lectio das divinas Escrituras; aplica-te a isto com perseverança. Empenha-te na lectio com a intenção de crer e agradar a Deus. Se durante a lectio te encontras diante de uma porta fechada, bate e ser-te-á aberta por aquele guardião de que falou Jesus: “O guardião abrir-lha-á”. Aplicando-te assim à lectio divina, procura com lealdade e inabalável confiança em Deus o sentido das Escrituras divinas, que nelas amplamente se encerra. Mas não deves contentar-te com bater e procurar; para compreender as coisas de Deus, tens necessidade absoluta da oratio. Precisamente para nos exortar a ela é que o Salvador não se limitou a dizer: “procurai e encontrareis” e “batei e ser-vos-á aberto”, mas acrescentou: “pedi e recebereis”».
A prática da lectio divina em grupo é sem dúvida mais enriquecedora. Por um lado, evita-se o risco de se fazer uma aproximação à Palavra em perspetiva individualista e, por outro, tendo presente que Deus constrói a comunhão com a sua Palavra, o resultado torna-se mais eclesial, beneficiando da partilha de todos os participantes. Deste modo, tem-se melhor perceção de que a Palavra edifica a comunidade, constituindo-a como Igreja. Devido à generosa partilha de cada um, passamos a ver aspetos novos da Palavra que, sozinhos, jamais teríamos vislumbrado. Este é mais um sinal de que a Palavra é inesgotável. Em comunidade, passamos a saboreá-la melhor, nas riquezas partilhadas.
Estabelecendo paralelismos com a adoração eucarística, Bento XVI sublinha a necessidade da articulação das dimensões individual e comunitária da leitura da Palavra de Deus, na sua relação com a celebração da missa: «Em certo sentido, a leitura orante pessoal e comunitária deve ser vivida sempre em relação com a celebração eucarística. Assim como a adoração eucarística prepara, acompanha e prolonga a liturgia eucarística, assim também a leitura orante pessoal e comunitária prepara, acompanha e aprofunda o que a Igreja celebra com a proclamação da Palavra no âmbito litúrgico. Colocando em relação tão estreita lectio e liturgia, podem-se identificar melhor os critérios que devem guiar esta leitura no contexto da pastoral e da vida espiritual do Povo de Deus» (VD 86).

Sacrário na capela Cheia de Graça, Braga: estabelecendo paralelismos com a adoração eucarística, Bento XVI sublinha a necessidade da articulação das dimensões individual e comunitária da leitura da Palavra de Deus. Fotografia © Nelson Garrido, cedida pelo autor.
Ambas as formas da lectio divina têm sempre como horizonte, num itinerário que se faz passo a passo, o fruto da Palavra, da leitura até à mudança de vida dos orantes. Ecoando no silêncio, a leitura convoca à meditação profunda da Palavra escutada. E, uma vez ruminada, não de forma especulativa, mas com o palato do coração, o legente torna-se orante, gostosamente orante, ao saborear a Palavra. O objetivo não é permanecer num estado de absorto espasmo, mas fazer com que a oração se torne, pela contemplação, experiência sapiencial. Deste modo, a Palavra atinge e tange a vida do orante, passando à ação, na concordância harmoniosa da Palavra com as palavras e os gestos do discípulo legente.
É frequente encontrar a apresentação dos passos da lectio divina. Porque se encontram bem explanados numa síntese feita pelo Papa Bento XVI, na Verbum Domini, aqui os transcrevemos:
«Quero aqui lembrar, brevemente, os seus passos fundamentais: começa com a leitura (lectio) do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem este momento, corre-se o risco que o texto se torne somente um pretexto para nunca ultrapassar os nossos pensamentos. Segue-se depois a meditação (meditatio), durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui cada um, pessoalmente mas também como realidade comunitária, deve deixar-se sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras pronunciadas no passado, mas no presente. Sucessivamente chega-se ao momento da oração (oratio), que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, ação de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. Finalmente, a lectio divina conclui-se com a contemplação (contemplatio), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? São Paulo, na Carta aos Romanos, afirma: «Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito» (12, 2). De facto, a contemplação tende a criar em nós uma visão sapiencial da realidade segundo Deus e a formar em nós «o pensamento de Cristo» (1 Coríntios 2, 16). Aqui a Palavra de Deus aparece como critério de discernimento: ela é «viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração» (Hebreus 4, 12). Há que recordar ainda que a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à acção (actio), que impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade» (VD 87).

Ambão na Abbazia di San Liberatore a Maiella, Itália: a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à ação (actio). Fotografia © Joaquim Félix.
Leitura espiritual
Sendo a Liturgia o âmbito por excelência da Palavra de Deus, há, todavia, que dizer: a leitura litúrgica não cobre a amplitude da Sagrada Escritura. É muito generosa, sim, por se terem aberto os tesouros da Bíblia. De facto, o novo sistema de leituras, correspondente ao Ordo Lectionum Missae, publicado em segunda edição em 1981, cumpriu fielmente a indicação dos padres conciliares: «Prepare-se para os fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus: abram-se mais largamente os tesouros da Bíblia, de modo que, dentro de um período estabelecido, sejam lidas ao povo as partes mais importantes da Sagrada Escritura» (SC 51). Vontade esta que, no n. 35 da Sacrosanctum Concilium, já se encontrava sugerida, a propósito de tornar mais clara a relação entre o rito e a palavra: «Seja mais abundante, variada e bem adaptada a leitura da Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas» (SC 35,1).
Efetivamente, em toda a história da Liturgia, desde que temos notícias do costume de ler passagens da Escritura na Eucaristia, como o testemunho de S. Justino, na sua Apologia I, jamais houve um tão generoso sistema de leituras na Liturgia como aquele que está em prática. Só para termos uma noção, refira-se que, na Missa dominical, os quatro Evangelhos são lidos num ciclo de três anos, e, nas Missas feriais, num ciclo de um ano. Na liturgia romana, depois de séculos com um sistema binário, Epístola e Evangelho, passamos a um sistema de três leituras ao domingo, acrescentando-se uma do Antigo Testamento; no tempo pascal, porém, esta leitura é substituída por uma outra dos Atos dos Apóstolos. Nas Missas feriais, faz-se a alternância entre as leituras do Antigo e do Novo Testamento, segundo um ciclo de dois anos. Além disso, as solenidades passaram a dispor de três leituras bíblicas. Para as vigílias, que, por semelhança à da noite pascal, preveem mais leituras, a Sacrosanctum Concilium recomendou: «Promova-se a celebração da Palavra de Deus nas vigílias das festas mais solenes, em alguns dias do Advento e da Quaresma e nos domingos e dias de festa, especialmente onde não houver sacerdote» (SC 35,4). Além destes dados, refira-se que todos os livros litúrgicos contêm esquemas de celebração com propostas de leituras para a Liturgia da Palavra e, em apêndices, verdadeiros lecionários para que se possam fazer outras passagens bíblicas à escolha.
Saudando a abundância de leituras que contemplam quase toda a Sagrada Escritura, o que por si é excelente, há que ter, contudo, em atenção que as leis que regem a leitura da Bíblia na Liturgia supõem métodos diferentes de leitura. A par do método da leitura contínua dos livros bíblicos, existe também aquele da leitura semi-contínua, segundo o qual, obedecendo à sequência do livro litúrgico, nem todas as passagens são lidas. Mais: por vezes, no regime litúrgico, em alguns dos textos bíblicos foram retirados certos versículos; e, pelo contrário, noutros, foram acrescentados um incipit e um explicit acomodatícios. São, em ambos os casos, alterações voluntárias ao texto bíblico.

Lecionário aberto na capela Árvore da Vida, Braga: jamais houve um tão generoso sistema de leituras na Liturgia como aquele que está em prática Fotografia © Asbjørn Andersen, cedida pelo autor.
Como ultrapassar estas e outras ausências de textos bíblicos na liturgia? Pode recorrer-se à lectio divina. Sendo possível, sabemos, todavia, que é extremamente difícil, com este método de leitura, atender a todos os textos da Bíblia. Sem deixarem de ser espirituais a leitura litúrgica e a lectio divina, existe um modo outro, mais universal, de ler toda a Sagrada Escritura: a leitura espiritual. Essa é, aliás, uma das possibilidades sugeridas a todos os fiéis no capítulo VI da Dei Verbum (cf. DV 25).
Na leitura espiritual da Sagrada Escritura, cada leitor pode escolher o livro que desejar, lendo-o na íntegra sem suspender, como sucede na Liturgia, passagens ou versículos. E, conforme à tradição que nos chegou dos Padres da Igreja, poderá familiarizar-se com a Sagrada Escritura em diálogo com Deus. Ou, então, sobretudo através da leitura dos Evangelhos, encontrar-se com Jesus. Não faltam testemunhos de grandes Padres, como Santo Agostinho ou Santo Ambrósio, cuja leitura espiritual da Escritura os levou a escrever: «A tua oração é a tua palavra dirigida a Deus. Quando lês, é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus», e «Quando leio a divina Escritura, Deus torna a passear comigo no paraíso terrestre». De forma bela, para Santo Ambrósio a Escritura é semelhante a um jardim espiritual e, como sucedia no Éden, Deus volta a passear com o leitor, acompanhando-o, tal como fazia com Adão e Eva antes da queda.
Afortunadamente, não nos faltam traduções da Bíblia, cuidadas e a partir dos textos originais, como sugeria que se fizessem a Dei Verbum, no n. 22: «Visto que a palavra de Deus deve estar sempre acessível a todos, a Igreja procura com solicitude maternal que se façam traduções aptas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados». Algumas dessas traduções encontram-se bem fornecidas, em termos de explicações ou anotações, no aparato crítico, o que facilita e permite aprofundar a leitura dos textos bíblicos, tanto para os cristãos como para o uso dos não-cristãos. Neste momento, em Portugal, dá-se o caso de a Conferência Episcopal Portuguesa estar a promover uma nova tradução da Bíblia, iniciada em 2012, não apenas com mais de trinta tradutores principais, mas também com o contributo do povo de Deus, a partir dos textos originais, focada, ao mesmo tempo, na fidelidade literal e na clareza contemporânea. Além disso, contamos ainda com outro tipo de traduções, que, mesmo sem terem a aprovação eclesiástica, correspondem a altos padrões de qualidade ao nível da tradução e da ilustração das suas páginas. Referimo-nos, concretamente, à tradução protagonizada por Frederico Lourenço e àquela realizada por João Ferreira Annes d’Almeida, com apresentação e fixação do texto pelo cardeal José Tolentino de Mendonça, e mais de seiscentas ilustrações de Ilda David’ (Bíblia Ilustrada 2006).

Afortunadamente, não nos faltam traduções da Bíblia, cuidadas e a partir dos textos originais. Fotografia © Joaquim Félix.
Em entrevista à Agência Ecclesia, Frederico Lourenço disse em relação ao seu projeto de tradução da Bíblia: «Sabia, à partida, que ia ser uma viagem longa e que não iria chegar ao fim da viagem da mesma forma como parti para o início da viagem. Até brincava comigo próprio e dizia: bem, no final disto, ou chego ao fim completamente ateu ou chego ao fim tendo encontrado as razões para voltar à Igreja». Certo é que, como adiantou nessa entrevista, esse processo de tradução a partir do grego lhe abriu o caminho para regressar à prática na Igreja Católica.
Por sua vez, Ilda David’ chegou a confessar-me, em conversa privada, que fica muita admirada com a falta de literacia bíblica da maior parte dos cristãos, em relação a muitas das histórias da Bíblia que ilustrou. Por conseguinte, neste momento, aproveitemos estas ou outras excelentes traduções para fazer a leitura espiritual da Sagrada Escritura.
Se, após o Concílio de Trento, na Igreja Católica, as traduções da Bíblia foram desaconselhadas, e os leigos tinham de pedir permissão para ler os seus textos, atualmente, mercê dos desenvolvimentos protagonizados pelo Movimento Bíblico e por aquela que é um dos seus mais saborosos frutos, a Constituição Dei Verbum, do II Concílio Vaticano, criou-se uma nova sensibilidade em relação à Palavra de Deus, ao ponto de se afirmar: «Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual» (DV 21).

Lamparinas continuamente acesas junto do Tabernáculo e do Ambão, na capela da Imaculada, Braga. Fotografia © João Lopes Cardoso, cedida pelo autor.
Conclusão
Tendo partido da analogia explorada por S. Jerónimo, autor da Vulgata – que, com grande empenho, concluiu, por volta do ano 405, a tradução do grego e do hebraico para o latim –, segundo a qual o Corpo de Cristo está presente tanto no Corpo do Senhor como na Sagrada Escritura, apresentei várias formas de assegurar, a partir desta paridade, a igual reverência a ambas as formas de presença sacramental do Senhor. Tal como no seu tempo, não podemos continuar a ser incoerentes ao lamentar, por exemplo, a queda de uma partícula consagrada ao chão, sem que tenhamos semelhante atitude em relação às palavras, uma que seja, que se perdem por falta de atenção às leituras bíblicas. Para sermos consequentes, do ponto de vista teológico e nas expressões da piedade, tendo presente que a Exortação Apostólica Verbum Domini evidenciou a natureza sacramental da Palavra, procuremos desenvolver, por todos os meios, a veneração tanto ao Corpo quanto à Palavra do Senhor.
A arte de ler a Escritura, quer no ambiente mais natural, que é a Liturgia, quer através da lectio divina e da leitura espiritual, remete-nos para a necessidade de desenvolver muitas competências, que se poderão atingir não apenas em termos técnicos, mas também, e sobretudo, com a leitura assídua da Palavra de Deus. A par da arte da leitura, há que desenvolver igualmente uma arte da escuta, que vive do silêncio, do balbuciar e da ruminação da Palavra do Senhor. Sim, para a saborear «gostosamente» (DV 25). Seja na leitura seja na escuta, há competências de leitura e de estudo, bem como uma exímia performance, que, de forma sintética e magistral, se identificam numa passagem da Escritura, clássica na formação dos leitores. Refiro-me, em concreto, ao Livro de Neemias, quando Esdras faz a leitura da Lei (cf. Ne 8).

Lamparina em vidro de sopro, criada por Asbjørn Andersen e fabricada na Marinha Grande, sempre acesa junto do ambão da capela da Imaculada, Braga, com o Lecionário aberto no Evangelho do dia. Fotografia © João Lopes Cardoso, cedida pelo autor
Às artes da leitura e da escuta poderíamos associar outras: a da homilia e da pregação; a do estudo, dada a importância da Sagrada Escritura para a Teologia e para a investigação bíblica (DV 23); e, sem pretender nomeá-las a todas, a arte pastoral que sustenta a vida da Igreja. No concurso de todas as artes, procuremos acolher as Palavras do Senhor. Sim, com aquela atitude que levou Jeremias a exclamar: «Achando-se tuas palavras, logo as comi, e tua palavra me foi gozo e alegria a meu coração: porque de teu nome me chamo, ó Senhor, Deus dos exércitos» (Jeremias 15,16). Procuremos, dentro do possível, aprofundar a audição, como cantou o salmista: «Uma coisa Deus falou, duas vezes a ouvi» (Salmo 62, 12). Por isso, não endureçamos o coração como uma pedra, sempre que ouvirmos a voz do Senhor (cf. Hebreus 3,15). Sempre, insisto, e não apenas no «Domingo da Palavra de Deus», que se celebra no III Domingo do Tempo Comum, instituído pelo Papa Francisco, em 2019, através da Carta Apostólica sob forma de Motu Proprio Aperuit illis.
Porque sendo nós um povo que vive da escuta e do diálogo, nos recordaremos do que S. Paulo escreveu aos romanos: «Assim que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus» (Romanos 10,17).
Tudo isto melhor se conseguirá através de mais cultura bíblica e de «uma formação litúrgica séria e vital» (Papa Francisco). E assim se pode concluir, assumindo, com desejo ardente, as palavras da última frase da Dei Verbum: «Assim como a vida da Igreja cresce com a assídua frequência do mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual, se fizermos crescer a veneração pela palavra de Deus, que “permanece para sempre” (Is. 40,8; cfr. 1 Pedr. 1,23-25)» (DV 26).

Perspetiva do presbitério em «Ilha Central», na capela da Imaculada, Braga. Fotografia © João Lopes Cardoso, cedida pelo autor.
(A primeira parte deste ensaio pode ser lida aqui.)
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.
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