Fórum do KAICIID para o Diálogo Político

A Santa Sé, Arábia Saudita, Espanha e Áustria juntam-se. E daí podem sair ideias para a inclusão

| 14 Nov 2022

Kaiciid, Castelldefels.

As bandeiras dos quatro estados fundadores do Kaiciid, no fórum da semana passada em Castelldefels. Foto © Christyan Martos.

 

No palco, vêem-se as bandeiras de quatro estados: Arábia Saudita e Vaticano, Espanha e Áustria. No auditório, estão mais de 120 pessoas de 30 países europeus, entre líderes de sete religiões diferentes, membros de organizações de apoio a migrantes ou refugiados, responsáveis de instituições de solidariedade de diferentes âmbitos, técnicos sociais ligados a autarquias… Convocados por uma organização inter-governamental, debateram durante dois dias em Castelldefels (Barcelona) o modo de reforçar as parcerias para o diálogo na perspectiva da inclusão social nas cidades.

Inclusão. Não absorção nem “guetização” multicultural como tem acontecido tantas vezes, avisa Antoni Matabosch, professor emérito de teologia e ex-director do Instituto de Ciências Religiosas, de Barcelona. “Mais de 60% de refugiados vivem em áreas urbanas”, recorda Zuhair Alharty, secretário-geral do KAICIID. São professores, médicos, engenheiros, que muitas vezes são vistos como os “outros”, pela “cultura, religião ou hábitos” que professam ou têm e que, por vezes, podem ser tentados pela guerra ou pelo terrorismo. “Os deslocados não são um problema muçulmano ou hindu, não são um problema latino-americano ou africano”, mas de todas as sociedades, diz Alharty. Por isso, os participantes deste 4º Fórum Europeu de Diálogo Político “escolheram a melhor parte – a do diálogo”.

As bandeiras no palco são as dos quatro fundadores (a Santa Sé é membro fundador-observador) do KAICIID, o Centro Internacional Rei Abdullah para o Diálogo Inter-Cultural e Inter-Religioso. Abreviadamente, Centro KAICIID para o Diálogo. Criada em 2011, na sequência de um encontro em 2007 entre o então rei saudita e o Papa Bento XVI, a que se seguiram cimeiras inter-religiosas de líderes e especialistas, a organização tem desde o último Verão, a sua sede em Lisboa.

A Arábia Saudita, criticada pela falta de liberdade religiosa, comprometida com o diálogo inter-religioso? E a Santa Sé, tantas vezes olhada de soslaio pela secundarização que o catolicismo faz do papel da mulher ou das minorias LGBT, por exemplo? Ou a Espanha e a Áustria numa organização que dois Estados em que a religião é fundamental? Os responsáveis do KAICIID enfatizam a autonomia da organização e apresentam como o seu cartão de identidade as acções que têm promovido: desde os anteriores fóruns europeus (o último dos quais decorreu em Lisboa há um ano) ou os seminários de formação de líderes em ordem ao diálogo intercultural e inter-religioso, como aquele que decorreu também em Lisboa no final de Fevereiro.

No encontro das últimas quarta e quinta-feira, 9 e 10 de Novembro,  em Espanha, os participantes debateram dois temas principais: as parcerias com múltiplos intervenientes para apoiar a inclusão de refugiados e migrantes em cidades europeias; e as iniciativas culturais e mediáticas para contrariar o discurso do ódio. A reunião de Barcelona, disse ainda o secretário-geral adjunto do KAICIID, o embaixador português António de Almeida-Ribeiro, “é a prova de que existe determinação em construir sociedades pacíficas construídas sobre a bondade e a inclusão, em vez de ódio e discriminação”.

 

As duas tentações: laicité e multiculturalismo

Kaiciid, Castelldefels

Míriam Díez Bosch (de vermelho) e Antoni Matabosch (1º à dir.) no Fórum do Kaiciid, em Castelldefels (Barcelona, Espanha). Foto © Christyan Martos

 

Míriam Díez Bosch, professora universitária que integra o Observatório Blanquerna de Média, Religião e Cultura, de Barcelona (instituição parceira na organização do fórum) recordou que inclusão social não é apenas “gerir a diversidade, nem apenas reconhecer”. Lembrando que políticas como a inclusão digital podem ser factores de exclusão para os mais velhos, acrescentou que a inclusão “é dar um lugar ao outro e não apenas tolerar”.

O também catalão Antoni Matabosch, do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona, recordou os 40 milhões de refugiados e migrantes dos últimos anos, provenientes de regiões como a África, a América Latina, Ásia, Médio Oriente e, nos últimos meses, também da Ucrânia.

Matabosch criticou “duas tentações: o modelo da absorção, de que o exemplo típico é a laicité francesa”, mas que também se verifica na Rússia, com a coincidência entre Governo e Igreja Ortodoxa; e o da “sociedade multicultural”, em que várias “comunidades separadas” têm “o mínimo de contacto” e provocam, em consequência, a “marginalização de alguns grupos”.

“A sociedade intercultural é o caminho”, propôs, com a “inclusão real de migrantes” e com a escola como a melhor ferramenta para a inclusão”. E esta é também o melhor caminho para prevenir o ódio.

Para o professor emérito de teologia, os discursos de ódio não acontecem entre religiões, mas derivam de “certas formas sociais e políticas que encaram a religião como um subproduto”, diz, em declarações ao 7MARGENS.

Kishan Manocha, responsável pelo departamento para Instituições Democráticas e Direitos Humanos, da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, referiu-se, no entanto, ao actual “momento de crise” que se vive no continente como “um momento de grande oportunidade”, que pode permitir fortalecer a possibilidade de “viver juntos, com diversidade”.

Combater o discurso de ódio e promover uma sociedade inclusiva começa no nível da vizinhança e pela necessidade de abrir caminhos concretos, afirmou. E implica, por exemplo, que em futuros fóruns como este que o KAICIID promoveu, se incentive a participação de um maior número de jovens. “Isso irá agitar-nos mais.”

 

O desprestígio da política

Yahya Pallavicini, Kaiciid, Castelldefels

Yahya Pallavicini: um projecto reunindo muçulmanos, judeus e cristãos em Milão para prevenir a aprendizagem do radicalismo nas prisões. Foto © 7Margens.

 

Os dois dias de debate em Castelldefels não podiam ignorar um pano de fundo: nos últimos 20 ou 30 anos, centenas de instituições europeias, organizações não-governamentais, instituições ou grupos de base religiosa, etc., têm promovido iniciativas de formação, educação, abertura à tolerância e respeito pela diversidade. Mas, apesar disso, cresce o discurso do ódio, mesmo a nível político, com cada vez mais partidos, governos ou jornalistas a alimentar essas correntes. Como se resolve, então, esta quadratura de um círculo vicioso que só se tem aprofundado?

Antoni Matabosch concorda que a política está muito desprestigiada e que seria necessário encontrar crentes que, em nome da sua fé, se envolvessem na política. Recorda a propósito que, em Barcelona, já dois arcebispos – Ricardo Maria Carles e Lluís Martínez Sistach – organizaram encontros com cristãos de diferentes partidos: democratas-cristãos, socialistas, membros da Unidas Podemos ou da Esquerda Republicana.

A escola tem, aqui, um papel importantíssimo, diz ao 7MARGENS, enquanto “factor básico de integração: detrás das crianças virão os pais”. O país de acolhimento não deve perder a sua identidade, mas os imigrantes também devem contribuir com novas visões e contributos, resume. E insistindo na ideia da interculturalidade, anota alguns dados sobre Barcelona: há 50 anos, havia uma igreja ortodoxa feita por catalães e uma sinagoga; hoje, há 52 paróquias ortodoxas e cinco sinagogas; e um milhão de pessoas, numa população de 7,5 milhões na Catalunha, professam outras religiões que não a católica (500 mil são muçulmanos).

O imã Yahya Pallavicini, presidente da Comunidade Religiosa Islâmica Italiana, trouxe aos debates do Fórum um exemplo de como tenta em Milão, onde reside, criar iniciativas concretas e vencer o ódio. Com parceiros cristãos e judeus, criou um projecto destinado a prevenir o crescimento do radicalismo em prisões, que envolveu já 300 animadores e quase outros tantos detidos.

Com o título Not in My Name (“não em meu nome”), desenvolveu em Roma, Milão e Turim um outro projecto para combater a discriminação dupla das mulheres muçulmanas: por serem mulheres e por serem muçulmanas; e ainda um terceiro programa com um foco semelhante mas centrado no combate à violência doméstica por razões religiosas; ou, finalmente, um último destinado a combater a islamofobia, envolvendo mulheres cristãs, judias e muçulmanas a trabalhar com crianças nas escolas e envolvendo municípios de várias cidades.

De Portugal, o xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, levou a Castelldefels um exemplo de há alguns anos: num livro escolar identificava-se a jihad como um dos cinco pilares do islão; depois de uma conversa com a tutela, o livro passou a falar da hajj, a peregrinação. Hanne Kro Sørborg, responsável do município de Kristiansand (Noruega) para a Igualdade de Género, Inclusão e Diversidade, destacou o papel que os jovens têm tido na erradicação do discurso de ódio, que atingia por igual (14%) as minorias étnicas e a comunidade LGBT. E Schlomo Hofmeister, rabi-chefe de Viena, recordava que há 20 anos não se falava do islão nos média generalistas, para referir que o discurso de ódio é causado pela frustração com a própria vida e pelo medo.

O quadro não é famoso? Kishan Manocha não hesita em propor “o poder da imaginação”. Um dos mais poderosos resultados da imaginação humana é a capacidade do simbólico, que as religiões traduzem, exemplifica. Alguém cansado não será capaz de imaginar coisas novas. E afirma: “A paz e a justiça social alcançam-se pelo poder da vontade.”

 

O jornalista viajou a convite do KAICIID

 

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