O evangelista Mateus fala-nos da parábola do semeador:
“1 Tendo Jesus saído de casa, naquele dia, estava assentado junto ao mar;
2 E ajuntou-se muita gente a ele, de sorte que, entrando num barco, se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia. 3 E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear. 4 E, quando semeava, uma parte da semente caiu junto ao caminho, e vieram as aves, e comeram-na; 5 E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; 6 Mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. 7 E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na. 8 E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta. 9 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” (13:1-9)
As diferentes situações da semente, decorrentes do ato da sementeira, falam-nos simbolicamente dos diversos tipos de cristãos que existem. Vejamos alguns:
Papagaio de papel: tem que se segurar a linha senão perde-se, voa conforme o vento. Gosta muito de andar no ar à procura de novidades. Crente de internet, sem comunidade de fé, nem pastoreio. Não tem raízes.
Canoa: precisa ser remado senão não sai do lugar; é muito passivo. Anda às voltas sobre si próprio. Vê as necessidades da comunidade, mas não se oferece para ajudar em nada.
Piano: é capaz de dar uma música linda, mas só quando alguém lhe põe as mãos em cima; precisa de muita presença e atenção. Sente-se quase sempre esquecido ou menosprezado.
Navio sem leme: anda sempre à deriva; nunca sabe para onde ir nem que rumo irá tomar. Faz lembrar a canção de Chico Buarque que começa assim: “Andava à toa na vida”…
Balão cheio de ar: pronto a estoirar; é só emoção. Muito frequente nos meios pentecostais do Brasil, é o chamado crente retété.
Vagão de comboio: acomodado; sem alegria; precisa sempre de ser puxado por uma locomotiva; imóvel, sem vontade nem energia própria. Para ele, estar presente nas celebrações é uma possibilidade e não um compromisso. A diferença para o cristão-canoa é que este até está nos carris, mas não anda.
Carrinho de mão: vai para onde o levam; falta de dinâmica; falta de convicção. Aceita tudo quanto lhe colocam dentro…
Letreiro de gás néon: sendo inconstante, é como se estivesse sempre a acender e apagar. Recorda-nos a exortação de S. Paulo: “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Efésios 4:14), ou do apóstolo Tiago: “O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tiago 1:8).
Torna-viagem: anda a viajar e só ao fim de muito tempo é que alcança consistência espiritual.
Fiel: testemunha firme no dia-a-dia.

A Parábola do Semeador. Ilustração (c. 1180) de Herrad de Landsberg no Hortus Deliciarum, Abadia de Hohenburg (Alsácia).
Mas voltemos à parábola do semeador e aos correspondentes antídotos para tais desvios. No caso da semente junto ao caminho, em que o maligno rouba a semente, o antídoto pode ser: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tiago 4:7).
No caso da semente nas pedras, a tal que não tem raiz e cede à perseguição, o antídoto a aplicar será: “Filhinhos, sois de Deus, e já os tendes vencido; porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (I João 4:4). Inspiremo-nos na Igreja Perseguida no mundo.
E no caso da semente entre espinhos, a que não germina devido aos cuidados ou preocupações desta vida (Pré+ocupação=tempo perdido), aplica-se o antídoto: “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6:33,34); “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (I Pedro 5:7).
Já no caso da semente caída em boa terra e que dá fruto não é necessário antídoto: “Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (João 15:7,8).
Que tipo de semente queremos ser?
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.
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