Batia-se o filho Afonso Henriques contra a mãe, Dona Teresa. Para além de feia a atitude do filho – somos descendentes da moral judaico-cristã – não havia meio de serenar esse comportamento agressivo e violento. Naquele tempo, um homem avisado, prendado senhor de altos valores, levou até dentro da fé e da devoção a Santa Maria, a crença no milagre que havia de travar essa malfeitoria de um filho contra a mãe. Esse homem já tinha dado provas públicas da sua integridade: Egas Moniz fez promessa a Santa Maria da Franqueira. Não era muito longe da Franqueira o campo de batalha de São Mamede, nas proximidades do castelo de Guimarães, onde, em 24 de junho de 1128, tudo ficou decidido…
Celebradas as pazes reais, ganhou-se uma ermida românica que, por 900 anos, se ergue no Monte da Franqueira, acoplada depois a outras arquiteturas históricas. É de uma beleza incalculável o horizonte que dali se avista: lá longe, a névoa do Atlântico deixa, por vezes, ver a Póvoa de Varzim e Fão; está-lhe aos pés a cidade medieval de Barcelos e, do lado contrário, num horizonte mais largo, o Sameiro e o Bom Jesus de Braga.
Sirvo-me do saber e investigação de António Afonso, doutorado em Estudos Culturais. É autor do recente livro Senhora da Franqueira, 900 Anos de História (1128-2028). É este investigador que afirma que não são lenda as diatribes do nosso primeiro rei com a mãe e que a ermida da Senhora da Franqueira tem todos os sinais de coisa histórica. Ali ao lado, a breves passos, está o castelo de Faria, que ocupou o meu imaginário na escola primária.
Uma Senhora franca… mas não francesa

“Terão sido povos mais do centro da Europa que para ali acorreram. Eram os francos. Não tardou que a Senhora cândida e franca, para os devotos sofredores, fosse chamada Senhora da Franqueira.” Foto: DR
Terão sido povos mais do centro da Europa que para ali acorreram. Eram os francos. Não tardou que a Senhora cândida e franca, para os devotos sofredores, fosse chamada Senhora da Franqueira. Não se perdia o cheiro acre dos montes que rodeavam esta capela que haverá de ser enlevo de dois Papas: Paulo V, em 1616, e Pio IX, em 1870.
Avançando pela história profunda, em 1429, um célebre eremita de nome Vicente recebe ordem episcopal para ser divulgador da devoção mariana pelo Minho e Douro Litoral. O rei Afonso V deu-lhe também o apoio necessário.
Estávamos já em 1415. Conquistada Ceuta, o nobre barcelense duque de Bragança e conde de Barcelos, que lutou no enclave (como são dramáticas essas dramáticas paragens dos nossos dias), houve por bem trazer umas colunas de jaspe, extraídas do palácio do Governador muçulmano de Ceuta, que serviriam de embelezamento da capela da Franqueira. Alguns nomes serviram a Senhora da Ermida de Pedra, como Senhora do Fastio, Senhora do Leite e Senhora das Neves.
Por virtude dos devotos de Barcelos, nasceu em 1558 a Confraria de Santa Maria da Franqueira, hoje designada Confraria de Nossa Senhora do Rosário do Monte da Franqueira. Como é natural, a Confraria nem sempre pisou os caminhos seguros, provocando pequenas quezílias com o poder eclesiástico.
No século XVII, faz-se a ampliação da ermida e, no século seguinte, em 1753, surge a fachada principal e uma torre sineira barroca. Em 1869, consuma-se a reorganização da Confraria. Em 1908, dá-se início às grandes peregrinações e, nessa ocasião, o bispo missionário de Remelhe, D. António Barroso, é dos primeiros devotos a presidir à peregrinação arciprestal que hoje se faz na segunda semana de agosto.
Em 2018, o santuário foi classificado como património de valorização cultural e está considerado Monumento de interesse Público.
Caminhamos, assim, a passos largos, para os 900 anos da Franqueira. Tantos quantos (quase) tem a nação portuguesa. Daí que por estes dias de agosto todos os caminhos vão dar ao Santuário da Franqueira, donde emerge um pedestal em encimado por uma das mais belas imagens de pedra da Virgem Maria.
No dia 9 de agosto de 2026, celebraram-se 550 anos da consagração internacional à Senhora da Franqueira. Na TSF pode ouvir-se uma reportagem mais completa sobre a história do santuário e da devoção.






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