Uma base para a fuga de jovens

A Sexta-Feira Santa dos desertores da Guerra Colonial

| 26 Mai 2022

Fotos de 1970 e reconstituição (2022) do grupo que acompanhou os dois desertores até à fronteira (da esq. para a dir.): Helena Teotónio Pereira, José Alberto Franco, Arminda Neves, Raul Pinheiro Henriques, José Carlos Pinheiro Henriques, Luísa Teotónio Pereira, Joel Pinto, Fernando Venâncio e Miguel Teotónio Pereira. Foto: Direitos reservados (1970).

Foto de 1970 do grupo que acompanhou os dois desertores até à fronteira (da esq. para a dir.): Helena Teotónio Pereira, José Alberto Franco, Arminda Neves, Raul Pinheiro Henriques, José Carlos Pinheiro Henriques, Luísa Teotónio Pereira, Joel Pinto, Fernando Venâncio e Miguel Teotónio Pereira. Foto: Direitos reservados.

 

Uma casa que o arquitecto Nuno Teotónio Pereira comprou em Marvão foi a base para as fugas de jovens ao serviço militar e à Guerra Colonial. Para Fernando Venâncio e Joel Pinto, a Sexta-Feira Santa de 1970 foi o primeiro dia da liberdade.

Foto de reconstituição (2022) do grupo que acompanhou os dois desertores até à fronteira (da esq. para a dir.): Helena Teotónio Pereira, José Alberto Franco, Arminda Neves, Raul Pinheiro Henriques, José Carlos Pinheiro Henriques, Luísa Teotónio Pereira, Joel Pinto, Fernando Venâncio e Miguel Teotónio Pereira. Foto © António Marujo.

Foto de reconstituição (em 2022) do grupo que acompanhou os dois desertores até à fronteira, na mesma ordem da foto original de 1970 (em cima). Foto © António Marujo.

 

Esta história começa em Lisboa, mas faz ponto de fuga numa casa que um arquitecto conhecido comprara em Marvão; coloca um cabo da GNR a telefonar (e a pagar a chamada) para Lisboa dizendo que a “encomenda” já estava na aldeia; escutará um cavalo a relinchar entre penedos e arbustos, com os camponeses em redor a fazer vista grossa; inclui homens do “contrabando”, mas que não serão os responsáveis por passar os dois milicianos para o lado de lá da fronteira. Passará ainda por um novo susto com a Guardia Civil a mandar parar e a falar em denúncia; escutará a sinfonia “do Novo Mundo”, de Dvorak, a tocar simbolicamente no rádio de um táxi; e inspirará, finalmente, um ar de liberdade a 2.500 metros de altitude, nos Pirenéus, já em terras de França.

Sexta-Feira Santa, 27 de Março, seria o dia escolhido para concretizar a fuga do país – naquele ano de 1970, Portugal entrara no nono ano de guerra em Angola (na Guiné-Bissau o conflito rebentara em 1963 e em Moçambique em 1964).

Dois jovens, acabados de ser mobilizados para a Guiné, tinham decidido desertar: Joel Pinto, então com 24 anos, era um jovem pastor da Igreja Presbiteriana desde Outubro de 1969, e terminara o estágio pastoral já no serviço militar que entretanto estava a cumprir; Fernando Venâncio, que tinha 25 anos, era frade carmelita e preparava-se para ser ordenado padre, mas quis fazer um ano sabático antes de dar esse passo – uma decisão que outros dois colegas partilharam. “O seminário foi um plano B fabuloso para muitos rapazes que não tinham possibilidade de estudar; mas eu queria mesmo ser padre”, diz o agora linguista, autor de Assim Nasce uma Língua.

Já não era a primeira vez – nem seria a última – que a casa comprada em 1965 pelo arquitecto Nuno Teotónio Pereira e a mulher, Natália Duarte Silva, junto a Marvão (distrito de Portalegre), servia de base para a fuga de pessoas como Joel e Fernando. Nuno (1922-2016) e Natália (1931-1971) dinamizavam grupos e dinâmicas clandestinas de oposição ao regime, várias delas em nome da fé católica que professavam. Publicações como o “Boletim Anti-Colonial” ou o “Direito à Informação”, ou a rede dos Terceiros Sábados, que reunia católicos de diversas proveniências para combinar iniciativas conjuntas e estratégias de luta eram alguns dos muitos empenhamentos do casal.

No caso das fugas a partir de Marvão, a estratégia era simples: um grupo ia passar um fim-de-semana naquele recanto da Serra de São Mamede e fazia uma incursão à aldeia de La Fontañera, para passear e comprar chocolates e caramelos – apesar de ilegal, isso era comum e as autoridades fechavam os olhos.

Ao regressar ao povoado português de Galegos, já não vinham todos: dos dez turistas passeantes naquela Sexta-Feira Santa, regressaram oito; Joel e Fernando ficariam escondidos entre penedos, rosmaninho, sobreiros, giestas e oliveiras. Ao final da tarde, adentraram-se em território espanhol, ao encontro da boleia que os aguardava e os levaria longe – Cáceres, primeiro, e depois Madrid, os Pirenéus quase infinitos e, mais além, França…

Do esconderijo provisório, via-se Marvão, o seu castelo e muito mundo em redor – e a liberdade contra a guerra era um apelo desse horizonte largo. Faltava ainda uma dúzia de anos para que José Saramago por ali passasse e registasse, na sua Viagem a Portugal: “De Marvão vê-se tudo. (…) É verdade. De Marvão vê-se a terra quase toda (…) Compreende-se que neste lugar, do alto da torre de menagem do Castelo de Marvão, o viajante murmure respeitosamente ‘Que grande é o mundo’.”

A contemplação da grandeza do mundo só chegaria, para Fernando e Joel, nos Pirenéus, já com os dois pés em França. Por enquanto, ali, na linha de fronteira, as horas eram de apreensão. Na serrania, os dois companheiros de aventura (tinham-se conhecido manhã cedo, nesse mesmo dia, em Lisboa), só pensavam em ficar bem escondidos. E quando entre pedras, arbustos e arvoredo, apareceu um cavalo que, sentindo gente, não parou de relinchar, a apreensão fez-se peso grande e duradouro.

“Ficámos preocupados, mas depois percebemos que era habitual para os camponeses” espanhóis de La Fontañera, que vinham espreitar a espaços. Felizmente, não ligavam, conta Joel Pinto.

O antigo refractário conta a história nos mesmos penedos por ele calcorreados, precisamente 52 anos depois, desta vez um domingo, durante uma reconstituição da fuga. A família de Teotónio Pereira, os então desertores e outros amigos decidiram organizar esta jornada como forma de reconstituir o acontecimento.

Ao mesmo tempo, no ano em que se assinala o centenário do nascimento do arquitecto, a reconstituição da fuga foi também uma forma de recordar o empenhamento cívico e político do casal Nuno e Natália e o seu papel na ajuda a tantos jovens que, nessa altura, contestavam a ditadura ou se recusavam a fazer a guerra.

A jornada faz-se entre Galegos, no Alto Alentejo português, e La Fontañera, na província espanhola de Cáceres. Nem Joel nem Fernando se lembram de muito mais para lá da angústia das primeiras e infindáveis duas horas da aventura. “Duas horitas, e a gente vem apanhá-los”, tinham garantido, como descreve Venâncio. Procedimento banal, mas ele não o sabia, admite. “Cento e vinte minutos podem levar eternidades a passar. Nem por teima, era aquilo uma Sexta-feira Santa, à exacta hora em que também o Outro aguentara horas, e em piores condições”, acrescenta, fazendo para os reconstituidores da fuga a sua memória dos factos.

No fundo, ambos só queriam que ninguém os visse e que o cavalo fosse trotar para outras bandas. Eles próprios não se enxergavam um ao outro, estrategicamente colocados em lugares diferentes, não fosse algum deles ser descoberto.

A fotografia que registou o acontecimento também não ajuda a muitas mais memórias. Confirma apenas que eram dez no caminho até La Fontañera, quando ainda estavam todos. Foi o próprio Teotónio Pereira a fazê-la, atestam os outros participantes – é ele o único que não aparece. Luísa, Helena e Miguel, os filhos de Nuno e Natália, que estiveram nesse dia, asseguram também que houve outras, várias fugas, a partir da casa de Marvão, e com a mesma estratégia. Mas ninguém, pelo menos neste grupo, se recorda de outros nomes nem quando aconteceram esses episódios.

 

Reconstituição da fuga de dois desertores: um dos locais de esconderijo dos "contrabandistas". Foto © António Marujo

Reconstituição da fuga de dois desertores: nestes penedos se escondiam os “contrabandistas”. Foto © António Marujo

Os chocolates e caramelos que se iam buscar a Espanha eram apenas alguns dos produtos que entravam na lista do pequeno contrabando. Mas os habitantes de Galegos e La Fontañera compravam e vendiam também café, produtos agrícolas, louças…

“Falar de contrabando é imoral, porque para nós aquela era uma forma de sobreviver”, observa António Garraio, 58 anos. E foi assim até à abertura de fronteiras dentro da agora União Europeia. Muitas vezes foi ele levar café e algumas louças a La Fontañera; na volta trazia calçado ou alguns produtos alimentares e agrícolas de época que escasseavam e cujo preço compensava: alhos, bananas, nozes, por exemplo.

Na zona de Marvão, havia duas ou três empresas de torrefacção artesanal de café. “Os espanhóis não tinham, nós levávamos”, sendo que havia produtos que, obviamente, podiam passar legalmente. “Para nós, não existia a linha de fronteira”, afirma. Mais: o caminho não era asfaltado e, do lado de lá, nem sequer havia qualquer acesso por estrada de La Fontañera para o resto de Espanha.

“Esta é a forma que temos de viver”, acrescenta Garraio, apoiado num cajado, junto da placa toponímica que indica a entrada da aldeia espanhola. E dá um exemplo familiar de como os habitantes da raia estão próximos uns dos outros: a primeira casa do lado português, a menos de dez metros da linha de fronteira, era do seu avô e foi onde nasceram o seu pai e os quatro tios. Hoje, está ligada à rede de água espanhola. O avô, que ali morava, dedicava-se também “ao ‘comércio internacional’: tinha uma salsicharia e vendia várias coisas aos espanhóis”.

Desse pequeno contrabando e de outros problemas maiores – para o quadro legal da época – tinha de dar conta Joaquim Diogo Simão, cabo-chefe e comandante do posto da GNR durante 27 anos (1969-96), em Galegos. O antigo responsável da Guarda, hoje aposentado, conta que uma das suas obrigações era ligar para Lisboa quando Teotónio Pereira chegava à sua casa de Marvão a dar conta da ocorrência.

Havia um problema: era o próprio que tinha de pagar a chamada, numa altura em que um telefonema era cobrado – caro – ao segundo. Por isso, combinou com os interlocutores que usaria um código curto: “Já chegou a encomenda.”

Um dia, Joaquim Simão estava em casa de Jeremias da Conceição Dias, sargento-ajudante do Exército aposentado, vizinho do posto e crítico da ditadura do Estado Novo. Um homem que “fazia bem a toda a gente” e dava comida a “qualquer pessoa” se necessário fosse. Teotónio Pereira, que ia muito à casa de Jeremias, ia a entrar quando viu o comandante da GNR. Fez menção de dar meia-volta, mas o amigo chamou-o. “Sente-se aí, não há problema”, garantiu o dono da tasca, que era também correspondente local de todos os jornais nacionais. A conversa começou, oposicionista e guarda ganharam confiança mútua e Joaquim Simão acabou por lhe confessar: “O senhor dá-me trabalho cada vez que cá vem.” Confessou-lhe o que o outro capitão da GNR o obrigava a fazer. “Eu não o fazia de boa vontade porque ainda por cima tinha de pagar o telefonema.”

A partir daí, era o próprio Nuno Teotónio que chegava à aldeia e o procurava. “Já pode transmitir que já chegou a encomenda”, dizia, divertindo-se os dois e cumprindo Joaquim a tarefa. “Nuno Teotónio Pereira era uma pessoa muito boa, muito séria”, afirma agora o antigo comandante de posto. “Era desconfiado do que via à sua volta, por ser contra o regime, mas era uma pessoa muito justa. E cimentámos uma grande amizade um com o outro”, acrescenta.

 

Reconstituição da fuga de dois desertores: Joel e Fernando encontraram-se com José Alberto Franco (na foto, com Joel atrás), que os iria conduzir até Cáceres. Foto © António Marujo

Reconstituição da fuga de dois desertores: Joel e Fernando encontraram-se com José Alberto Franco (em primeiro plano, na foto, com Joel à esqª), que os iria conduzir até Cáceres. Foto © António Marujo

 

O dia tinha começado cedo, pelas sete da manhã no Lumiar, em Lisboa, onde Joel e Fernando se encontraram, partindo para Marvão, já na companhia de José Alberto Franco e de outras pessoas. A manhã foi de viagem até à casa de Nuno e Natália em Marvão, onde o grupo disfarçado de excursionista almoçou. À tarde, o passeio à aldeia espanhola concretizou a fuga.

Ao final da tarde, quando se sentiram em relativa segurança, Joel e Fernando encontraram-se de novo com José Alberto Franco, que iria conduzir, até Cáceres, a Renault 4L de Nuno Teotónio Pereira.

“O Joel Pinto era meu amigo e queria desertar. Procurou-me e eu falei com o Nuno Teotónio. Ficou combinado que o faríamos por altura da Páscoa”, conta agora o operacional da fuga à revista E.

José Alberto tinha estado na equipa nacional da Juventude Estudantil Católica até ao ano anterior, envolvera-se na equipa dos “Cadernos GEDOC”, ligada ao então padre Felicidade Alves e, antes, nos grupos que distribuíam o “Direito à Informação”, dinamizado por Teotónio. Este último envolvimento valeu-lhe 15 dias na prisão. “Como era dirigente nacional da JEC, isso causou comoção entre militantes e acabou por ser um pretexto para a agitação de consciência de muitos militantes”. De tal modo que, perante as pressões da Junta Central da Acção Católica e de outros responsáveis católicos, o tempo de prisão acabou por ser abreviado.

Joel Pinto, pelo seu lado, conhecia mal Nuno Teotónio. Decidiu falar com Melo Antunes que, após o 25 de Abril de 1974, viria a ser membro do Conselho da Revolução, explicando-lhe o conflito pessoal que sentia. “Muito atento e compreensivo, nunca me disse o que eu deveria fazer. Essa não era a sua opção, mas compreendia que a deserção o fosse para mim. Para mim, era mesmo incomportável ficar” – Joel já fizera dois anos de serviço militar, mas não queria participar na Guerra Colonial, contra a qual já tinha distribuído panfletos em várias iniciativas nas quais estivera também, entre outros, com José Alberto Franco.

Fora isso, afirma Joel, quer ele quer Fernando não tinham grande actividade política. Mas, depois do Concílio Vaticano II, entre 1965-67, Joel integrara um grupo ecuménico que reunia católicos e alguns protestantes em casa de Teresa Martins de Carvalho. Nessa dinâmica, ligada também aos movimentos da Acção Católica e da Juventude Universitária Católica, participaram também Helena Roseta e Teresa Gaivão, importante activista moçambicana que viria a ser mulher de Jacinto Veloso, o primeiro aviador da Frelimo. E havia ainda contactos com outros estudantes de Teologia – católicos do Seminário dos Olivais, em Lisboa, e protestantes, do Seminário Evangélico Teologia, em Carcavelos (Cascais).

“Falava-se de teologia e espiritualidade, mas também de política”, conta Joel Pinto, dizendo que foi aí que se iniciou a sua consciencialização política.

Na viagem para Madrid eram cinco: além dos dois desertores, estavam José Alberto e a sua então namorada, Arminda Neves, e Raul Pinheiro Henriques, que também estava envolvido nos grupos católicos de oposição ao regime.

“Às tantas apareceu uma brigada da Guardia Civil atrás de nós.” Mais angústia, o que será que querem? Ao fim de um bocado, mandam parar. “Disseram que iam fazer uma denúncia, ficámos com o coração na boca.” Afinal, “denuncia” era a palavra para multa, em espanhol: iam três pessoas no banco da frente (nessa altura um banco corrido), o que era ilegal à luz do Código da Estrada espanhol. Multa, afinal, abençoada.

À chegada a Cáceres, decidem separar-se: Raul leva o carro de Teotónio Pereira de volta para Marvão, enquanto os outros seguem para Madrid, depois de arranjar um “coche de alquiler”. Temiam que em Espanha as coisas corressem mal, se não houvesse mais apoio. E quase se confirmavam esses receios: por volta da uma ou duas da manhã, chegam a Madrid, onde Joel tinha um contacto de alguém da Igreja Evangélica Espanhola mas, quando tocam à porta, a pessoa escusa-se: não seria seguro dar-lhes abrigo. Joel saberia mais tarde que teria havido uma pessoa da Igreja presa e torturada pela polícia política espanhola.

E agora? Valeu que José Alberto tinha estado, em Fevereiro e com Teotónio Pereira, num encontro em Madrid dos Cuadernos para el Diálogo, uma publicação dos católicos antifranquistas. Representavam, desse modo, os católicos portugueses que integravam as redes de resistência à ditadura do Estado Novo. No encontro tinham participado alguns padres operários que viviam numa casa abarracada do bairro de Vallecas, na periferia de Madrid.

Procurada a barraca dos padres, um deles, de nome Carlos, que trabalhava como taxista, disponibiliza-se imediatamente para pegar no táxi e seguir viagem, partindo “antes da aurora, rumo a Barcelona”. Na Catalunha, outra comunidade de padres os acolheria, quando ali chegaram ao fim da tarde de sábado.

Não havia um quilómetro de auto-estrada, recordou Fernando Venâncio há dois anos na sua página no Facebook, quando escreveu uma pequena publicação a assinalar o meio século sobre a fuga – data em que o 27 de Março voltou a ser Sexta-Feira Santa, por coincidência. É nessa viagem no táxi do padre Carlos que Joel se lembra de ouvir a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak, que lhe devolveria algum do “ânimo” que até aí faltara.

Uma semana dura a etapa catalã da aventura. “Já nos sentíamos com muita confiança”, conta Joel Pinto, mesmo se ainda avisados para não facilitarem e assumindo alguma inquietação. Saíram de dia para passear algumas vezes e, ao fim de uma semana, vestiram equipamento de alpinista: outro padre, que nascera nos Pirenéus e conhecia a cordilheira como a palma da mão, conduziu-os até lá.

Foi a 2.500 metros de altitude, com neve e sol, perante o “deslumbramento da paisagem, do desfiladeiro, de um riacho” que Fernando Venâncio teve, pela primeira vez, a sensação de que estava livre. “Senti um relaxamento, uma descontração imensa”, conta.

Atravessados os montes a pé, desceram à primeira aldeia francesa, La Preste. Outro carro e outro padre os leva até Montpellier, onde se alojam num convento de frades dominicanos. Joel Pinto só na cidade mediterrânica se sentiria a começar a respirar. Lembra-se, nessa etapa, do companheiro a tocar à guitarra “canções que reflectiam uma grande saudade, que tinham o sentido de nos recordar que tínhamos saído sem poder voltar…”

Reconstituição da fuga de dois desertores: Fernando Venâncio contando a história da fuga. Foto © António Marujo

Reconstituição da fuga de dois desertores: Fernando Venâncio contando a história da fuga. Foto © António Marujo

 

Em Montpellier ambos se separam: Joel passaria por Paris, mas acabaria na Suíça – onde a mulher se lhe juntaria um mês depois – a fazer estudos de Teologia. Já Fernando sentia-se atraído pelo Norte: ao terceiro dia, deram-lhe “uma bucha, um bilhete de comboio e um endereço de convento dos mesmos pregadores [padres dominicanos] em Paris”. Decidiu prosseguir ainda mais para Norte e guarda hoje, ainda, “ciosamente, o bilhete” do comboio que o levou de Paris até Amesterdão. “Por lá ficaria 47 anos, mas isso não o sabia” ainda, naquela altura.

Chegaria à capital dos Países Baixos com o mesmo dinheiro com que saíra de Lisboa: cinco mil escudos, 25 euros em valor actual, mas naquela altura uma soma já razoável: “Uma fortuna, num escudo ainda forte, que um casal católico progressista do Lumiar”, em Lisboa, lhe emprestara. “Ao fim de três meses de salários nórdicos” a trabalhar em limpezas e num escritório de um hotel Hilton devolveu o valor do empréstimo.

Em Portugal, Fernando também se envolvera no estudo da Teologia com personalidades como os dominicanos Bento Domingues ou Mateus Peres, nomes destacados nas dinâmicas de resistência católica à ditadura. Foi parar à rede de católicos que gravitava à volta do padre Mário Teixeira, então pároco do Lumiar, embora já não se recorde de que forma lá chegou.

Nascido em Mértola, Fernando Venâncio foi viver para Lisboa com dois anos. Depois de Braga, passaria pelas casas carmelitas de Felgueiras, Fátima e, de novo, Lisboa, para o estudo da Teologia. Em Amesterdão, ao fim de pouco tempo teve “saudades da universidade” e decidiu dedicar-se a um curso de Literatura Francesa.

Formado em 1976, começou a escrever uma gramática de português para holandeses, que está já na 20.ª edição. Escreveria também um curso de português para a televisão do país. Aposentado desde 2010, o seu regresso à Mértola natal deu-se quase naturalmente após a morte dos pais.

Mais a sul, Joel só ficaria tranquilo quando chegou à Suíça. Mas o descanso fez-se de novo com sentimentos mistos: “Um amigo levou-me a ver os Alpes. De repente, tive uma sensação de tristeza, de angústia profunda, a pensar nos meus colegas, que estavam no mato na Guiné, e eu ali a ver esquiadores…”

A angústia de Joel tinha razão de ser: Luísa Teotónio Pereira conta que muitas pessoas viviam um grande dilema de consciência em relação à guerra: “O meu pai e várias outras pessoas achavam que devia ser a pessoa a decidir o que fazer, saindo do país ou cumprindo o serviço militar.” Havia quem achasse que se devia aceitar a incorporação militar e, tanto quanto possível, trabalhar clandestinamente para boicotar a guerra por dentro. Outros preferiam desertar, por não concordarem sequer com a possibilidade de fazer a guerra ou pegar em armas. Mas este debate pessoal e, por vezes, em pequeno grupo, era o foco de uma luta interior por vezes intensa.

No “site” que a família criou para assinalar os 100 anos do nascimento de Teotónio Pereira (https://nunoteotoniopereira.pt), Álvaro Correia Vilas, que se envolvera em trabalho clandestino na Faculdade de Direito de Coimbra, acabaria mobilizado para Angola. Teve cinco dias para se preparar, mas tinha as duas opções: “desertar, estando a minha fuga já toda delineada, com contactos, meios de transporte, etc.; ou ir para Angola, fazer ‘trabalho político’ na tropa, influenciando os militares contra a guerra e contra o regime político português e organizando atitudes de protesto, existindo um contacto lá para tentar, no início, apoiar-me”, conta.

“Posto perante estas duas alternativas que me foram colocadas pelo Nuno [Teotónio Pereira], com total franqueza, foi-me dada completa liberdade quanto à decisão a tomar, dizendo-me o Nuno: ‘Faças o que fizeres, cá estamos nós e toda a organização para te apoiarmos, sempre. Mas a decisão, meu amigo, é só tua. Nisto não há ordens. Mas pensa sempre nos outros’.”

Se essa era a atitude na maioria dos casos, como sublinha Luísa, houve, entretanto, uma história diferente: Jorge Conceição, então também ligado aos grupos católicos de oposição ao regime, refere, num testemunho publicado também no “site”, como no seu caso, ao contrário do que era habitual, “o Nuno” o “fez mudar radicalmente” na decisão de desertar: havia muitas deserções e eram preciso trabalho clandestino interno, argumentou o arquitecto. Jorge Conceição cedeu.

Reconstituição da fuga de dois desertores: em 27 de março deste ano, o grupo fez uma caminhada de reconstituição da fuga. Foto © António Marujo

Reconstituição da fuga de dois desertores: em 27 de março deste ano, o grupo fez a caminhada de memória dessa fuga. Foto © António Marujo

 

No caso de Joel Pinto, a opção pela fuga era consciente e maturada: “Sentia que a guerra estava em vias de se resolver. Mas eu recusava a guerra. Impressionava-me muito a objecção de consciência dos membros das Testemunhas de Jeová, mesmo se não estava de acordo com eles em muitas coisas. Achava que era uma posição extremamente corajosa numa situação em que quem o assumia ia parar à prisão.”

Joel chegara a pedir para ser incorporado numa função compatível com o seu estatuto eclesiástico. “Fiz formação de oficial miliciano como enfermeiro, mas continuava a ter problemas interiores latentes e era muito difícil aceitar ir para África.” Ainda para mais, na sua companhia foi-lhes pedido que levassem armas, mesmo como enfermeiros. “Isso eu recusava por princípio.” Daí à decisão de desertar foi um passo curto.

O destino final, a Suíça, não estava escolhido à partida. “Nenhum de nós, o Fernando e eu, sabia para onde íamos.” À saída de Portugal, Joel levava a morada da Cimade em Paris, uma organização laica de apoio a refugiados, mas nascida por impulso da Igreja Reformada Francesa, e que tinha já tido um papel importante na fuga de alguns africanos que haviam estudado no Seminário Evangélico de Carcavelos e viriam a ser, depois, dirigentes da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) ou do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

Por um acaso, cruzou-se, em Paris, com Teresa Gaivão, que o desencorajou de ficar em França. O país vivia o rescaldo da guerra na Argélia e os desertores eram malvistos. À noite falou com a sua mulher e no dia seguinte um pastor protestante suíço de passagem por Lisboa ligou-lhe a propor que fosse para o seu país. A Polícia Judiciária suíça mostrar-se-ia “compreensiva” com o pedido de asilo político. Ao fim de 15 dias Joel tinha a situação regularizada e ano e meio depois estava colocado numa paróquia da Igreja Reformada, em Fleurier (cantão de Neuchatel).

“Foi lá que o 25 de Abril me apanhou”, quatro anos após a fuga. Pouco depois da revolução, Joel regressou a Lisboa para regularizar a vida militar. “Portugal foi exemplar nisso. Os Estados Unidos e a Alemanha não perdoaram a desertores e refractários, enquanto Portugal os reconheceu em poucos meses.”

Em 1975, Joel ainda voltou para Portugal e permaneceu sete anos no país. Mas em 1982 regressaria à Suíça, convidado para trabalhar no Centro Ecuménico de Catequese de Neuchatel, criado pela Igreja Reformada e pela Igreja Católica.

Também Fernando voltou a Portugal no Natal de 1974, “banalmente de avião”. Inicialmente, pensara numa ideia “louca”, mas “simpática, bonita até”: quando voltasse ao país, haveria de o fazer “pelo mesmo exacto caminho, haveria de repisar estrada a estrada, batendo, casa por casa, à porta” de quem o acolhera. “Quando um dia regressasse. Se regressasse.” Porque, ao contrário de Joel, ele pensava que “a situação nacional estava com modos de durar”. Afinal, o plano ficou gorado: “Não guardara moradas nem de Paris, nem de Montpellier, nem de Barcelona, nem de Madrid. Não tivera esse cuidado”, apesar dos “lindos planos” que concebera. Não tinha, assim, “meio de agradecer àquela santa gente”. Mas o mais certo, admite também, “era todos eles, como santos verdadeiros, já nem dele se lembrarem”.

Aliás, Venâncio experimentaria isso com o próprio Teotónio Pereira: nesse seu primeiro regresso a Lisboa, encontraria o arquitecto num comício do MES (Movimento de Esquerda Socialista), que Nuno Teotónio ajudou a fundar após o 25 de Abril, e para onde tinham confluído várias correntes de esquerda não comunista, incluindo católicos. Abordou Nuno Teotónio e agradeceu-lhe, “como quem agradece a um santo”. “O arquitecto, simpático, sorriu, mas não se recordava dele. Um santo, nem mais.”

Fernando e Joel mantiveram contactos ao longo destes anos e visitaram-se mutuamente na Holanda e na Suíça. Nem um nem outro se arrependem do salto que, apesar do relinchar do cavalo, deram naquele 27 de Março de 1970. “O meu estado de espírito era a alegria de me libertar da situação, embora me doesse interiormente quando pensava nos colegas” mobilizados, observa Joel Pinto.

“Para a Igreja Presbiteriana também foi um sinal importante, uma forma de mostrar que era possível ter aquela opção.” Mesmo se não quis envolver a Igreja, nem a família, e por isso deixou cartas a dizer que se tratava de um gesto individual.

Fernando foi sentindo esbater-se a ideia da ordenação lentamente. Depois de saiu do Carmelo, em Junho de 1969, para fazer a pausa de um ano, foi chamado, em Outubro, para fazer a recruta em Mafra. “Se não tivesse ido para a tropa, provavelmente teria sido ordenado padre.” Em 1970, um dos que saíra com ele fugiu para os Países Baixos e mandou-lhe notícias animadoras. “Fiz muito bem ter tomado aquela decisão. Pela negativa, porque não fui para um lugar perigosíssimo. Pela positiva, porque acabei por ter oportunidades que em Portugal não teria, abriu-me horizontes.”

Por vezes, ainda se pergunta quem terá ido em seu lugar e se terá voltado vivo ou não. Mas nunca vacilou. E tem presente o que pensou quando fez o juramento de bandeira: “Estava consciente de que aquela era a minha bandeira e que ia fugir do país. Despedi-me da bandeira, que era grande e muito alta.”

“Outros contra o regime assumiram ser incorporados e essa diferença de decisões nunca me incomodou”, diz Joel Pinto, 52 anos depois. E, recordando que duas dezenas de oficiais, meses depois, tomariam idêntica atitude, e que isso teve efeitos políticos, não tem dúvidas sobre o dia 27 de Março de 1970: “A nossa deserção foi um gesto político.”

Maria Natália morreria em Abril de 1971, com 40 anos, por causa de uma insuficiência cardíaca diagnosticada anos antes – e o esforço físico que implicava terá sido a razão de não ir com o grupo até à fronteira. Em Agosto de 1960, num poema que dedicou ao marido, e publicado no livro “Cada Pessoa Traz em Si Uma Vida”, falava de Dom Quixote: “Que do homem, a maior loucura/ é desafiar a sensatez/ do mundo inteiro./ Ter sua razão, íntima e pura/ erguida com a altivez do que tem por certo e verdadeiro. (…) Porque nada/ pode deter o homem/ que se lança numa aventura/ sua e só por si imaginada.”

 

Reconstituição da fuga de dois desertores: António Garraio e Joaquim Diogo Simão, o “contrabandista” e o comandante do posto da GNR. Foto © António Marujo

Reconstituição da fuga de dois desertores: António Garraio e Joaquim Diogo Simão, o “contrabandista” e o comandante do posto da GNR, junto da entrada em Espanha no dia 27 de Março deste ano. Foto © António Marujo


(Este texto foi inicialmente publicado no Expresso/Revista E, na edição de 6 de Maio de 2022)

 

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