O dossiê relacionado com o lugar das mulheres na Igreja Católica ficou aberto no Sínodo sobre a Sinodalidade e é em atitude e prática sinodal que um grupo de estudo específico continua a trabalhar, até ao final de junho próximo, estando aberto a contributos de pessoas, organismos e comunidades eclesiais. É, por isso, uma matéria que importa seguir com toda a atenção.
O já célebre parágrafo 60 do Documento Final reconhece que “as mulheres continuam a encontrar obstáculos para obter um reconhecimento mais pleno dos seus carismas, da sua vocação e do seu lugar nos vários sectores da vida da Igreja”. Por outro lado, aponta o convite da assembleia sinodal para que se dê “plena implementação de todas as oportunidades já previstas no direito vigente… particularmente nos lugares onde ainda não foram concretizadas”, acrescentando que “não se pode impedir o que vem do Espírito Santo”. Finalmente, depois de referir âmbitos em que as mulheres já ocupam funções de animação e liderança, chama a atenção para alguns terrenos em que é necessário agir, a saber:
- Dar um lugar apropriado a passagens relevantes da Escritura que “atestam o papel de primeiro plano de muitas mulheres na história da salvação”;
- Prestar maior atenção à linguagem enviesada e às imagens utilizadas na pregação, no ensino, na catequese e na redação dos documentos oficiais da Igreja (e das próprias orações como o Credo, onde homens e mulheres continuam a professar que Jesus “desceu dos céus…por nós, homens e para a nossa salvação”).
- Conceder mais espaço ao contributo de mulheres santas, teólogas e místicas.
- Prosseguir o discernimento sobre a questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal, que a Assembleia sinodal e o Papa decidiram manter em aberto.
Ao longo do processo sinodal, foram avançados outros caminhos para promover a participação e o protagonismo das mulheres, que são bem mais de metade do conjunto dos batizados: o papel ativo das mulheres nas estruturas de governo e, em geral nos órgãos da igreja (o que começa a acontecer cada vez mais); liderança de comunidades, na ausência de presbíteros ou diáconos; e a possibilidade de mulheres com formação adequada poderem fazer as homilias e pregar em celebrações de comunidades paroquiais.
Em alguns meios, são as iniciativas de movimentos feministas que têm mantido e promovido o debate e a sensibilização para mudanças profundas na vida eclesial, ainda que outros quase reduzam as iniciativas à questão dos ministérios ordenados. A verdade é que o processo sinodal pôs em evidência que o problema é bem mais largo e mais profundo.
O Papa, que se manifestou já a favor de um diaconado das mulheres que não passe pela ordenação e, muito menos, por uma porta que venha a abrir para o presbiterado, tem tido o cuidado de dar múltiplos e eloquentes sinais de desejar avanços consistentes na Igreja, nesta matéria: na abordagem do assunto em várias reuniões do conselho de cardeais, convidando mulheres católicas e também uma bispa anglicana; na reforma da Cúria e na colocação de mulheres em posições de liderança na Cúria; na composição da Assembleia do Sínodo. Também neste terreno, em que as paixões ainda se acendem e acantonam, Francisco tem-se assumido como um desencadeador de processos, nomeadamente no âmbito e a partir do próprio Sínodo.

Jo Bailey Wells, bispa anglicana, Giuliva Di Berardino e Linda Pocher com o Papa Francisco, após a reunião do Conselho dos Cardeais, em fevereiro de 2024. Foto © Instituto Filhas de Maria Auxiliadora
De facto, o Sínodo que ele lançou assenta num processo que passa por pôr os católicos a encontrarem-se, escutarem-se e partilharem o que pensam e sentem. Este processo sinodal foi um caminho iniciado com a consciência de que “em virtude do Batismo, homens e mulheres gozam de igual dignidade no povo de Deus”.
Este é um terreno sobre o qual foi importante escutar (e continuar a fazê-lo) as perceções e representações não apenas dos cristãos, mas dos concidadãos em geral e dos diferentes contextos socioculturais. E a perceção que hoje existe é, em boa medida, que a desigualdade decorrente do facto de se ser mulher é hoje vista e vivida não só como um anacronismo, mas como uma afronta à dignidade de todos os batizados e, em primeiro plano, das próprias mulheres. É interessante a reação de espanto, de incredulidade e de rejeição da parte de jovens que foram socializados em ambientes distantes do catolicismo ao aperceberem-se de que às mulheres estão vedados determinados percursos na vida da Igreja Católica, que são reservados só a homens (e, no caso do clero, obrigatoriamente celibatários).
Neste contexto, a Igreja Católica vai fazendo o seu caminho de discernimento, amadurecendo o que está em jogo e abrindo-se também a caminhos diferenciados, que não ponham em causa – antes enriqueçam – a unidade.
É interessante, neste sentido, que um cardeal nonagenário, como Walter Kasper, que fez a sua longa carreira de professor lecionando Dogmática e que não se pode dizer que esteja enfeudado nem aos ventos dos reformistas nem aos conservadores, tenha dado uma entrevista ao site da edição alemã da revista Communio, nos dias imediatos ao encerramento do Sínodo sobre a Sinodalidade, para responder a esta questão: “as mulheres podem tornar-se diáconas?”.
O ex-prefeito do Dicastério para o Ecumenismo diz que lutou interiormente com a resposta à pergunta por algum tempo, acabando por concluir pelo sim. Esse desenvolvimento “é teologicamente possível e pastoralmente significativo”, observou o purpurado. Mas acrescentou, de imediato, duas nuances importantes: tratar-se-ia de “diaconisas permanentes”, não havendo lugar à ordenação de diáconas como um estágio de transição para a ordenação presbiteral; além disso, “cada igreja local seria livre para decidir se faria ou não uso dessa possibilidade”.
Kasper pode estar a defender aquela que é, ao fim e ao cabo, a posição do Papa Francisco. Uma pequena concessão do poder clerical que, ainda assim, suscita medos e desconfianças bastantes para muito poucos hierarcas a defenderem publicamente. Até que ponto este tipo de posicionamento exprime uma continuidade da exclusão das mulheres na Igreja ou em que medida constitui um passo em frente na tomada de consciência da igualdade radical dos batizados – eis o que é preciso continuar a refletir e a aprofundar, sabendo que “o que vem do Espírito Santo não pode ser travado”
Uma coisa parece certa: em muitas igrejas locais, como em certo sentido, acontece em Portugal, o tema ainda luta por chegar a ser assunto de debate e as referências que lhe eram feitas na auscultação da primeira fase do processo sinodal não parece terem sido retomadas, em termos de enunciação de preocupações e objetivos da construção da sinodalidade.
(Foto de destaque: Vista da aula Paulo VI na sessão de abertura da segunda assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, 2 de outubro de 2024. © Vatican Media)
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