Quando a Igreja se reúne em Sínodo sobre a sinodalidade, pode parecer que está a olhar para o seu umbigo. Já muito foi escrito sobre o presente sínodo, desde as notícias que o 7Margens tem publicado até às múltiplas reflexões e referências sobre o mesmo. E, no entanto, podemos estar pouco focados sobre o essencial que está em questão. Talvez a reintegração de padres que entretanto optaram pelo casamento ou a ordenação de leigos casados ou mesmo o acesso das mulheres ao sacerdócio ministerial ou ainda uma nova atitude sobre a homossexualidade e afins sejam tidos como o que está em questão. Outros podem ter uma visão menos concreta e assumir que está em jogo a desclericalização da Igreja, seja isso o que for. Mas, afinal, o que é o Sínodo? Ou melhor, o que é a sinodalidade?
A questão é tão importante que merece, por parte do Papa Francisco, um sínodo específico sobre esta interrogação, sinal evidente de que o assunto não está maduro o suficiente na própria Igreja.
Nada melhor que o livro Uma Igreja Transformada pelo Povo, de Hervé Legrand e Michel Candessus (de 2020, ed. Paulinas, 2023) para iniciar ou dar continuidade a uma reflexão sobre o tema, essencial para se perceber o processo por que a Igreja está a passar e a procurar aprofundar. (Ver 7MARGENS)
Antes de mais, uma pergunta: o sínodo é uma inovação recente, em concreto uma criação de Paulo VI, na sequência do Concílio Vaticano II, certo? Errado! O Sínodo – à letra: caminhar juntos – é uma velha tradição, que vem desde os tempos mais primitivos da Igreja. Mais que o sínodo, a sinodalidade é – ou foi – entendida como o modo de ser Igreja.
O atual modo de ser da Igreja é recente, vem do Concílio Vaticano I (séc. XIX), que levou ao limite o Concílio de Trento (séc. XVI) que cristalizou um movimento que vem do séc. XIII. Isto significa que a Tradição, muitas vezes defendida como “eterna e imutável”, é recente e, no máximo, diz respeito a uma parte do segundo milénio. No essencial, a Igreja tem vindo a conceber-se como o clero com todo o poder “sobre” a Igreja, estando os leigos no papel de submissos ao poder clerical (papa, bispos e padres). No fundo, é isto o clericalismo de que nos últimos tempos tanto se tem ouvido falar. Esta foi a visão que de modo explícito o Vaticano II reformulou ao afirmar a Igreja como o Povo de Deus (Lumen Gentium) de que todos os cristãos fazem parte “pelo batismo”.
Até ao séc. XIII, a palavra dos papas e o direito instituído afirmava que «aquilo que diz respeito a todos deve ser discutido e aprovado por todos», pelo que os leigos eram sujeitos de direito na Igreja. Se continuarmos a procurar a teologia e o direito desses primeiros tempos, vemos como a noção que hoje temos do sacerdócio resulta daquele processo de inversão que vem do séc. XIII até ao Vaticano II. Podemos, por isso, acrescentar que muitos dos problemas ditos essenciais da Igreja nos nossos dias são sobretudo consequências derivadas de um processo que, podemos dizer, retirou à Igreja a vitalidade de que se alimentava como organização social.
O livro aqui em apreço leva-nos ao encontro de uma Igreja como Povo que “caminha junto”, daqui a sinodalidade, partilhando o sacerdócio de Cristo, no qual a função ministerial sempre teve um lugar decisivo, mas não necessariamente o atual. Além das informações bem documentadas, o livro apresenta sugestões ou propostas de um novo – ou antes, velho – modo de ser Igreja, alimentadas pelo estudo das fontes primitivas e medievais.
Não é preciso muito para se concluir que o processo em curso é profundo e difícil, afinal defronta-se com a cristalização de muitos séculos. E o próprio livro reconhece a complexidade do que está em jogo: «a fidelidade à Tradição, por mais desejável que seja, exigirá tempo e muito esforço» (p. 146). Mas, a perspetiva do livro, tal como de muitos com ele, é a de que «a Igreja não pode fazer ouvir a sua mensagem sem se transformar” (p. 148).
Não será fácil para muitos crentes, habituados àquilo que a Igreja vem sendo e ao que sobre ela tem sido interiorizado, defrontar-se com a informação e a teologia que desta análise se extrai, mas a verdade é que o medo, no caso o medo de olhar para o “lugar” de onde vimos, não vai resolver nenhum dos problemas com que a Igreja hoje se defronta e, em consequência, não vai permitir que a Igreja tenha uma palavra decisiva que contribua para ajudar a resolver os problemas do mundo. Dizem os autores, é claro. Mas não há como ler, estudar e discutir este pequeno livro para ter opinião pessoal no assunto. E para se perceber que o atual Sínodo vai discutir sobretudo se a Igreja quer manter-se assente no centralismo e no poder do clero sobre a Igreja ou viver como o Povo de Deus que caminha juntos, isto é, na sinodalidade. Os outros problemas, aqueles que parece estarem em cima da mesa do Sínodo, são derivados desta questão central.
Uma Igreja Transformada pelo Povo, Hervé Legrand e Michel Candessus, 2020
Ed. Paulinas, 2023, 160 págs.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com










