A sociedade e os idosos

| 27 Fev 21

Mortes vivas

 

Foto Misericórdia de Bragança - covid-19; Idosos

“Os idosos que tanto trabalharam para nos criar e para desenvolver o país merecem mais e melhor.” Foto: Misericórdia de Bragança

 

Ao longo do último ano, tempo em que já dura a dolorosa pandemia que nos tem retido confinados, embora pelos piores motivos muito se tem falado dos que vivem em residências para idosos. Antes da covid-19, pelo que nos é dado agora saber, uma boa parte dos cidadãos e dos políticos parece que pouco ou nada sabiam do que se passava nestas instituições, quer nas clandestinas quer nas comparticipadas pelo Estado.

Esta realidade tão diversificada, geralmente escondida da sociedade, para muitos seria completamente ignorada. Menos ainda se sabia, como eram ali tratados os seus utentes a viver em residências com falta de espaço, de higiene, de cuidados de saúde e até à míngua de alimentação. Os idosos, ali “descartados” pelas suas famílias, lá permaneciam encerrados, muitas vezes entregues à sua imensa solidão, no mais puro desconforto afetivo, até que a morte os viesse chamar e os libertasse do seu sofrimento.

O povo, referindo-se a estes idosos, costuma usar a expressão “mortos vivos”. Hoje, com as televisões a revelar-nos quase diariamente, muitos casos de puro abandono ou até de maus tratos, salta-nos ao espírito a seguinte interrogação: como é possível acontecerem, no nosso país, situações tão desumanas?

Num dos canais de televisão, há dias, foi mostrada uma dolorosa situação de profunda desumanidade num dos lares do distrito da Guarda: dois membros do casal residiam no mesmo lar, mas em andares diferentes. Perante esta situação, o marido queixava-se à jornalista que vivia doente e prostrado na sua enorme tristeza, pelo facto de nem sequer poder ver a sua esposa. Esta realidade, em alguns lares de idosos, chega mesmo a atingir níveis de profunda insensibilidade. Felizmente, esta situação poderá não ser a norma geral.

O que importa agora, passada a pandemia, com melhor conhecimento dos problemas sociais, relativos aos idosos, é prestar redobrada atenção aos lares de idosos, uma vez que hoje já não podemos ignorar as suas gritantes deficiências. São problemas endémicos cujo acompanhamento a inspeção da Segurança Social, não pode olvidar.

As debilidades neste setor, expostas agora com tanta crueza, jamais as poderemos ignorar, como se não existissem. Não podemos ficar indiferentes a tanta incúria, praticada em algumas instituições, cujo fim não pode ser apenas o lucro fácil.

Os idosos que tanto trabalharam para nos criar e para desenvolver o país merecem mais e melhor. Como os números revelam, esta geração de idosos é muito numerosa e tende a crescer ainda mais. Segundo a Pordata, entre 2000 e 2019 existiam mais de 596.822 residentes em Portugal, com 65 ou mais anos. E, do total de agregados domésticos unipessoais, em 2019, era de 934,1, sendo 513,2 pessoas do mesmo escalão etário. Segundo notícia do Dinheiro Vivo, em 2019 havia 729 lares privados, com capacidade para cerca de 2200 idosos, representando um negócio de 330 milhões de euros.

Pelo que temos sabido ao longo de um ano de pandemia, em muitas residências para idosos o lucro egoísta tem-se sobreposto ao cuidar das suas necessidades.

Para lidarmos com esta nova realidade, temos que nos preparar para um novo paradigma de sociedade em que os mais velhos vão superar os mais novos. Os problemas daqui decorrentes têm a ver com o futuro da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O modo como uma sociedade trata a sua população mais idosa revela bem o grau do seu desenvolvimento civilizacional. O ser velho não devia ser igual a estar condenado a esperar pela sua morte, mas ser considerado e tratado como uma pessoa, com direito a viver os seus últimos dias com a maior dignidade possível.

Se bem pensarmos, nenhum de nós teria nascido e aprendido a viver, sem os que hoje são chamados os velhos. Os muçulmanos e os chineses, quando a este respeito se referem à civilização ocidental, consideram abjeta a forma como tratamos os nossos velhos, descartando-os quando podiam ainda permanecer nas suas casas, com o apoio social devido a cada situação.

Rematamos, chamando a atenção para a nossa problemática situação demográfica. Hoje, em Portugal nascem muito poucas crianças e, uma boa parte dos idosos acaba por morrer sozinho nos lares ou em suas casas, considerados como mortos vivos. Temos de virar a página.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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