Nunca afastes de algum pobre o teu olhar - V

A solicitude pelos pobres

| 11 Nov 2023

silhueta de homem com mao estendida pedindo ajuda foto lalesh aldarwish pexels

“Em suma, dar e receber é uma arte e, na perspetiva cristã, esta arte tem um nome, chama-se ‘partilha fraterna’.” Foto: Silhueta de homem com mão estendida pedindo ajuda. © Lalesh Aldarwish / pexels

 

S. Paulo VI, na Mensagem da Quaresma de 1978, afirmou: «Já se disse alguma vez que existe uma arte de dar e uma arte de receber; os cristãos não têm senão um termo para uma e outra: a compartilha fraterna.»[1]. Em suma, dar e receber é uma arte e, na perspetiva cristã, esta arte tem um nome, chama-se “partilha fraterna”.

Cristãos ou não, nem todos, têm esta arte. Uns motivados por emoções momentâneas, outros por vários tipos de desconfiança, ainda outros por sentirem a sua realização pessoal, preferem dar, pessoalmente, a quem precisa de receber.  Porém, também, há quem dê, sem ter a consciência de que quem recebe é uma pessoa com igual dignidade, independentemente, da situação socioeconómica ou de exclusão social em que se encontra. Há evidências de cada uma destas posições que passo a exemplificar. e.  E algumas delas não são, decerto, novidade.

Perante uma vaga de incêndios florestais, alguém deslocar-se, quase 500 quilómetros, para entregar no quartel dos bombeiros de uma das localidades afetadas, paletes de água e sacos e fruta, que enchiam o porta bagagens e os lugares disponíveis do seu automóvel de 5 lugares, é exemplo desta preferência de dar “pessoalmente”. Contudo a soma dos encargos com combustível, portagens (se foi essa a opção de deslocação), o tempo gasto e a compra dos produtos, se tudo isso fosse somado e a verba entregue à respetiva Cooperação de Bombeiros possibilitaria a compra de muitos mais produtos e alguns mais necessários naquela circunstância. Água e fruta existiam na localidade, porque os serviços de comércio não fecharam. Quem, assim, procede só pode reagir por emoção ou por querer dar, pessoalmente. Mas, deu menos e não contribuiu para o regular funcionamento da microeconomia da zona, com problemas sociais em curso.

Sem negar que possa acontecer que pessoas individuais ou instituições, não tenham utilizado corretamente o que se lhes deu, para as finalidades primárias, posso assegurar que a maioria das dádivas são utilizadas para os fins destinados. Sei que as pessoas preferem dar os produtos em vez de dinheiro, pois julgam que a segurança da dádiva é maior. É uma análise subjetiva. Se pensarmos que alguns bens comprados diretamente aos produtores, podem ficar mais baratos, a partilha cresce. Mandar para países em vias de desenvolvimento produtos de construção civil, de saúde, alimentares, vestuários…que existam nesses países, ou noutros geograficamente próximos das fronteiras dos países de destino, pode não só ser injustificável, como até prejudicial, por não contribuírem para a autonomia das instituições locais e crescimento económico desses países.

Não se pode esconder que também existe gente que dá o que não gostaria de receber. No que diz respeito a peças de vestuário, só faz sentido dar aquelas que estejam em boas condições, e que são recolhidas nos contentores próprios para o efeito, nos quais se pode colocar roupa digna, pois há quem faça a devida triagem e a entregue às instituições e estas às pessoas necessitadas e que dela precisem. Também, as pessoas e instituições de dadores de bens perecíveis, salvo se houver destinatários imediatos, não podem, em cima dos prazos de validade, doá-los, sob pena de a entrega a pessoas em situação de pobreza ser feita em quantidades desproporcionadas, o que não é nada pedagógico para a gestão familiar.

Esta análise das formas de dar, não põem em causa a arte da generalidade da população portuguesa em sabê-lo fazer bem, e muitas são as provas disso, no quotidiano da vida de cada um/a ou em situações em que generosidade acontece de forma planeada e com organização de maneira a torná-la muito mais eficaz e eficiente. O Papa Francisco, na sua Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, faz recomendações muito claras, a este respeito ao afirmar: [Que a nossa solicitude pelos pobres seja sempre marcada pelo realismo evangélico. A partilha deve corresponder às necessidades concretas do outro, e não ao meu supérfluo de que me quero libertar. Também aqui é preciso discernimento, sob a guia do Espírito Santo, para distinguir as verdadeiras exigências dos irmãos, do que constitui as nossas aspirações. Aquilo de que seguramente têm urgente necessidade é da nossa humanidade, do nosso coração aberto ao amor. Não esqueçamos: «Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 198). A fé ensina-nos que todo o pobre é filho de Deus e que, nele ou nela, está presente Cristo: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).]  Neste trecho se podem encontrar as grandes exigências que se colocam no ato de dar. Quanto maior dignidade houver neste ato, mais responsabilidade existirá na utilização do que se recebe. Aqui está a arte de saber receber.

Nas suas últimas Mensagens para o Dia Mundial dos Pobres, Francisco costuma terminar evocando o exemplo de um cristão ou cristã elevado aos altares. A propósito dos 150 anos do seu nascimento escolheu Teresa do Menino Jesus, e dela realçou uma afirmação que passo a citar: [«Compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas, em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que se lhes vir praticar; mas compreendi, sobretudo, que a caridade não deve ficar encerrada no fundo do coração: “Ninguém, disse Jesus, acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas coloca-a sobre o candelabro para alumiar todos os que estão em casa”. Creio que essa luz representa a caridade, que deve iluminar e alegrar, não só os que são mais queridos, mas todos aqueles que estão na casa, sem excetuar ninguém» (Manuscrito C, 12rº: História de uma alma, Avessadas 2005, 255-256).]. Santa Teresa parece contrariar o pedido evangélico de que quando se der esmola, não saiba a mão esquerda o que faz a direita (cfr. MT 6, 3), mas sem dar testemunho credível da fé que professamos, sem a finalidade de proselitismo, dificilmente outros poderão seguir o nosso exemplo e ter uma solicitude verdadeira e adequada pelos pobres. Por outro lado, será uma forma da Igreja conhecer melhor se a caridade que pratica é mesmo a arte de dar e de se ver se quem recebe tem a arte de receber, na medida em que sente que a sua dignidade é respeitada e a libertação das amarras da pobreza é um objetivo primordial.

[1] In https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/messages/lent/documents/hf_p-vi_mes_19780207_lent-1978.pdf 

 

Eugénio Fonseca

 

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