7MARGENS/Antena 1

A solidão é uma epidemia e cada vez mais jovens sofrem dela também

| 4 Jul 2024

Sandra Chaves Costa e António Pedro Monteiro: a solidão “pode acontecer mesmo quando estamos rodeados de pessoas”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

“A solidão é uma epidemia”, é “transversal a todas as idades” e há cada vez mais jovens a pedir apoio a centros como os do GEscuta (Gabinete de Escuta), de Lisboa, fundado em 2016. A revelação é de Sandra Chaves Costa na última edição do programa 7MARGENS, da Antena 1.

Se é verdade que o problema atinge sobretudo as pessoas acima dos 75 anos, ela tem-se alargado a outras faixas etárias. “É um fenómeno que é complexo, é paradoxal, porque pode acontecer inclusivamente quando estamos rodeados de pessoas, por exemplo no seio de uma família”, afirma a responsável do GEscuta, que conta com 12 pessoas em regime de voluntariado, a acompanhar quem sente necessidade de ser escutado.

O GEscuta fez 330 atendimentos durante o ano de 2023, nos gabinetes em funcionamento na Igreja de São Mamede, no Centro Social Paroquial de Oeiras e no centro comercial Colombo, todos na área de Lisboa. (Pode ser contactado, além da página digital, pelo telefone 964 400675 ou pelo endereço geral@gabinetedeescuta.pt)

Sandra Chaves Costa é licenciada em Engenharia Química (Biotecnologia), com uma pós-graduação em Gestão, mas há oito anos mudou de vida para criar o GEscuta, com mais algumas pessoas. Fez um mestrado em “Couselling” pela Universidade Ramon Llull de Barcelona, formações adicionais em áreas como “pessoas com resistência à mudança”, “reconstrução de autoestima” e “Pastoral da Saúde”.

“Crises existenciais, perda de sentido de vida, desesperança, revolta para com um Deus que não evitou a doença ou o sofrimento, o luto, a ansiedade” são algumas das razões que levam as pessoas a procurar o GEscuta, diz Sandra Chaves Costa (e questões como a solidão, o trauma ou as relações entre pais e filhos são também abordados no livro Não  Pássaros Aqui, do brasileiro Victor Vidal, vencedor do Prémio Leya 2023). Nos atendimentos, a percentagem de mulheres que procuram ajuda continua a ser dominante (cerca de 80 %), enquanto a de jovens atendidos passou de 2% em 2019 para 21% no ano passado – e em 2024 é provável que subam ainda mais.

O GEscuta pretende ser um espaço de acolhimento e, quando necessário, as pessoas são aconselhadas a procurar ajuda especializada. Mas, embora sejam realidades diferentes, as tendências referidas estão em linha com números que têm sido divulgados no âmbito da saúde mental: no ano lectivo 22-23, cerca de 45% de uma amostra de 13 mil adolescentes no país apresentou sintomas de depressão; e as universidades esgotaram já as verbas para apoios à saúde mental dos estudantes.

 

“Territórios reprimidos”

Sandra Chaves Costa e António Pedro Monteiro: “Se não há um esforço de ir ao encontro de outros que pensam de maneira diferente, a verdade é que andamos numa espécie de bolha.” Foto © António Marujo/7MARGENS

O padre António Pedro Monteiro, assistente espiritual no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, e também participante na conversa, fala igualmente de como se acompanham as pessoas, neste caso em contexto de sofrimento físico ou de antecipação da morte. Membro da congregação do Sagrado Coração de Jesus, ou Dehonianos, desde 2010, António Pedro Monteiro acompanha ainda pessoas e grupos em contextos periféricos. “Se não há um esforço de ir ao encontro de outros que pensam de maneira diferente, a verdade é que andamos numa espécie de bolha”, diz, referindo-se à intervenção da Igreja Católica. Foi a partir do seu trabalho no hospital e também no podcast Aquele que Habita os Céus Sorri, que é igualmente republicado semanalmente no 7MARGENS, que começaram a aparecer pessoas “vindas de territórios reprimidos, onde a Igreja, por via de desconhecimento, de ignorância ou da doutrina desajustada, não permite que as pessoas sejam”, diz.

O responsável da capelania católica do Hospital de Santa Marta considera ainda, a propósito da solidão que se manifesta também entre o clero católico, que há uma “necessidade enorme de revisão de métodos e paradigmas”. Cita, a propósito, o livro A Casta dos Castos, Zigurate, Marco Marzano,

que “põe a nu a falência de paradigmas desajustados” entre o clero católico, cuja formação “prepara para uma vida que não existe”.

Nas sugestões finais do programa, Sandra Chaves Costa propõe o artigo de Manuel Pinto no 7MARGENS “O sínodo agora é em Roma que aqui já acabou”, “uma clara provocação a quem acompanhou de perto o processo sinodal”, tendo em conta a situação de arrefecimento que se verifica no debate sobre o Sínodo católico em Portugal. Na mesma linha, a coordenadora do GEscuta propõe a leitura do livro Desmasculinizar a Igreja? (Paulinas Editora), das teólogas Lucia Vantini e Linda Pocher, e do teólogo Luca Castiglioni, do qual o 7MARGENS publicou um excerto.

Uma obra, cujo prefácio é do Papa Francisco, que reflecte sobre o modo de “concretizar a participação das mulheres na vida da Igreja, que é sem dúvida uma das questões maiores do processo sinodal que estamos a viver”, diz a entrevistada.

António Pedro Monteiro sugere a leitura da notícia sobre “As queixas do Grupo Vita, a resposta da Comissão Independente, e os dados destruídos”. Um texto que, diz, “convoca a questão da transparência, da empatia” na Igreja. “Parece que tudo é opaco, ainda não percebi um pedido de desculpas às vítimas” de abuso sexual por parte da hierarquia católica, refere o padre dehoniano.

Como sugestão cultural, António Pedro Monteiro propõe idas ao teatro, a propósito do 41º Festival de Almada, que decorre entre esta quinta-feira, 4 de Julho, e o próximo dia 18, com duas dezenas de espectáculos teatrais e várias actividades complementares. Entre eles, destacam-se Mil e Uma Noites Irmã Palestina e Mãe Coragem.

O programa pode ser ouvido na íntegra na RTP Play:  https://www.rtp.pt/play/p12257/e779663/7-margens

 

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