
Terminal de aeroporto: “Multidões com olhos de zombie cruzam-se esbaforidas, a fazer lembrar carreiros de formigas. Os ecrãs, pendurados por todo o lado, dão ordens à gente.”. Foto © Rudy and Peter Skitterians por Pixabay.
Os aeroportos são verdadeiras casas do terror.
Multidões com olhos de zombie cruzam-se esbaforidas, a fazer lembrar carreiros de formigas. Os ecrãs, pendurados por todo o lado, dão ordens à gente.
Quando estou nos aeroportos, no aborrecimento das longas horas de espera entre uma viagem e outra, gosto de imaginar corridas de malas de rodinhas. Raras vezes passa alguém de mochila e imagino logo que seríamos bons amigos, eu e quem leva a mochila. Depois ponho-me a imaginar a disposição da roupa dentro das malas. Qual será a diferença na arrumação das roupas da mala e da mochila?
O que é que viajar com mala de mão ou mochila diz sobre alguém? Muito mais do que se possa pensar – pelo menos, a mim diz.
Entretanto, lembro-me de que devo estar à beira de um ataque de ansiedade. Como é que alguém consegue estar confortável dentro de um edifício cheio de ecrãs mandões, corridas de malas de mão, chão espelhado no qual pisamos tudo o que as luzes artificiais refletem e uma multidão formigueira na pressa para qualquer coisa?
Uma vez, no gigantesco aeroporto de Madrid, durante uma dessas crises, o ecrã letreiro avisou-me que o meu voo estava cancelado. Dirigi-me para o balcão da Ibéria, três mulheres estúpidas – a Sophia chamá-las-ia de Pessoas Sensíveis, segundo o poema – informaram-me que, por motivos de ordem climatérica, os voos não poderiam sair.
Mas que raio, será que o céu está mau só para a Ibéria? É que as outras companhias estão todas a levantar voo, inclusive para o mesmo destino que o meu, o Brasil. – Pensei.
Disseram-me (num tom, obviamente, arrogante) que partiria no voo seguinte, dali a umas sete horas; o senão é que teria uma escala extra em São Paulo. Haja paciência.
E lá fiquei mais umas quantas horas a suar de ansiedade, a tentar distrair-me com corridas de carrinhos de mão e jogos de imaginação e suposições.
As sete angustiantes horas passaram. Pelo meio, verdade seja dita, ainda dei uma volta pelo meu bairro favorito de Madrid, A Chueca.
Outra vez no balcão, olhos nos olhos com aquela gente a quem a Sophia haveria de chamar Pessoas Sensíveis.
– Senhora, chamámo-la pelo microfone do aeroporto, a senhora não ouviu, o embarque está concluído. Mas, não se preocupe, iremos remetê-la para o próximo voo sem nenhum custo adicional.
Eu quis rir. Só o não fiz porque, ao meu lado, um senhor chorava. Um senhor que poderia ser meu avô. Estava sozinho e na mesma situação do que eu. Perdeu o voo – por culpa das pessoas sensíveis da companhia – e, com ele, algo importante, certamente.
O senhor chorava enquanto as mulheres riam umas para as outras atrás do balcão. A minha ansiedade ameaçava tornar-se em raiva. Remeteram o senhor para um voo que partiria dali a três dias. Ele dizia que não podia ficar três dias sozinho em Madrid, que não tinha condições emocionais e psicológicas para isso. Pensei que talvez pudesse estar doente.
Com uma falsa calma, pedi às mulheres para meterem o senhor no meu lugar no voo seguinte, aquele em que, supostamente, me haviam colocado.
Não foi uma conversa fácil, como acontece sempre que tentamos conversar com as pessoas sensíveis.
O senhor abalou no meu lugar, já não chorava.
Eu decidi voltar para casa sem mais desgaste. O dinheiro não compra saúde, dizia sempre o meu avô.
O que é que eu ia fazer ao Brasil? Uma surpresa na praia de Copacabana. Um ato romântico. Um pedido de casamento. Eu ia praticar um gesto bonito, pouco importante para o resto do mundo.
O que é que o senhor das lágrimas ia fazer ao Brasil? Não sei; posso imaginar o que bem me apetecer. Imagino que tenha ido salvar um casamento.
Não fiz a surpresa, mas acabámos por casar.
O romantismo, às vezes, tem de ceder ao humanismo. O amor só é feliz num mundo mais justo.
Foi há muito tempo, eu tinha 27 anos. Que idade terá o senhor das lágrimas agora? Estará vivo?
Nunca mais viajei de Ibéria. Enojam-me, as pessoas sensíveis; as que riem do choro de alguém.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024, tem como mote uma crónica publicada no 7MARGENS.








