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A suite de Pontormo

| 17/06/2024

Pintura: Deposição da cruz de Jacopo Pontormo. Igreja de Santa Felicità, Florence. Wikimedia Commons

Por aqueles dias já se adivinhava o calor estival. Saídos da estação de caminho-de-ferro, comprámos uns óculos escuros ao vendedor ambulante mais próximo, e lá fomos em direcção a Santa Maria del Fiore.  Depois, passado o campanário de Giotto, seguiríamos para sul, com passagem obrigatória pelo hotel. A tarde consumia-se, e queríamos chegar a Santa Felicitá antes do pôr-do-sol.

No quarto que reserváramos não caberia uma cama extra. Decepcionados, voltámos à recepção, onde ousámos uma entrada ‘culta’ em matéria: «E agora? Vínhamos pelo Pontormo de Santa Felicitá, o dia acaba-se, fecham a igreja, desgraça, …!!!», tudo no registo meio risonho que a situação recomendava. Noutro tempo e/ou lugar, talvez fôssemos acolhidos com um meio sorriso indiferente, mas o simples nomear do genial maneirista despertou, mais do que interesse, um súbito movimento de solidariedade para com os forasteiros transitoriamente sem albergue e, ademais, ignorantes da movida (há um termo italiano?) cultural de Florença. «Pontormo? Ora, acaba de abrir uma grande exposição, precisamente dedicada a Jacopo Pontormo e a Rosso Fiorentino, no Palazzo Strozzi! Querem o prospecto?».

Sim, claro que queríamos, e também um quarto! E também transpor o rio quanto antes! A Deposizione estava à nossa espera, por muito gratos que antecipássemos a lição que nos aguardava no Palácio: Pontormo e Rosso Fiorentino – Divergenti vie della “maniera”.

Pouco depois, chegados a uma igreja de fachada modesta, quase escondida, na margem esquerda do Arno, foi-nos permitido contemplar, por uma primeira vez, uma das mais comoventes obras-primas do excêntrico, enigmático pintor.

A Deposizione, é uma descida da cruz que o não é, no dizer de Daniel Arasse[1]: nem Cruz nem escada. E o mesmo Arasse acrescenta que o tema do quadro é, sim (apenas?), a despedida da Virgem juntamente com «uma citação do Cristo morto de Miguel-Ângelo na sua Pietá da Basílica de S. Pedro.» O mesmo para a exuberância das cores, a lembrar, em sentido diametralmente oposto, uma certa personagem d’ A Cidade das Flores, para quem faltava cor na obra dos pintores de Florença.  Estas de Pontormo seriam, diz ainda o historiador de arte, precisamente as da Capela Sistina, tal como hoje as podemos contemplar, depois da restauração concluída no final do séc. XX.

Mas além das cores, da ausência do instrumento de tortura e morte, e mesmo a despeito da inevitável presença do corpo morto de Cristo, o que surpreende, encanta, é o movimento ascensional – e fusiforme, dizem os manuais! – das personagens, sem qualquer preocupação de verosimilhança (onde se apoiam?), numa superação das leis da física e dos rigores formais da perspectiva. O maneirismo, ainda Arasse, realiza-se como deslocação intencional «do quê ao como», como «uma arte da arte da Renascença». No caso, uma intensa reflexão em cores vivas, vibrantes, sobre um momento central da vida e morte de Jesus, momento de agonia e separação antes e para além de qualquer esperança, reflexão, enfim, sobre a fé (quê) e a representação (como). A maneira.

A este propósito, vale a pena lembrar que Laurent Binet, o celebrado autor de romances como A sétima função da linguagem ou, antes, HHhH, publicou em 2023 um romance epistolar-‘policial’ dedicado a Pontormo. Em Perspective(s)[2], assim se chama a obra, Pontormo é assassinado e trata-se de apurar quem terá cometido o crime. O romance recria, em apontamentos relativamente sumários, o ambiente político-religioso da Florença do séc. XVI, tomando-o como pano de fundo para controvérsias estéticas, nomeadamente as que nos reconduzem aos motivos e impulso criativo de personalidades centrais da pintura do Renascimento. Vasari ocupa um lugar destacado nesta história, pois é incumbido de dirigir a investigação. E sabemos, pela entrada que dedica a Pontormo em Vidas dos artistas, um pouco da intriga, que nos irá reconduzir à obra derradeira do artista, os frescos da basílica de San Lorenzo, em condições que o cronista relata:

«Pontormo trabalhou onze anos na capela de San Lorenzo sem permitir a ninguém, nem sequer aos seus amigos, lá entrar ou dar uma vista de olhos. Alguns jovens que desenhavam na sacristia de Miguel-Ângelo, subiram ao telhado da igreja, levantaram telhas e fizeram um buraco, através do qual viram tudo o que ele tinha feito. Jacopo apercebeu-se disso (…) [mas] limitou-se a calafetar-se mais hermeticamente.»[3]

Do mesmo passo, Vasari enumera os temas e motivos dos frescos que este grande solitário pintou, os quais se assemelham naturalmente, também em profusão, aos adoptados pelo mestre na Capela Sistina. Mas, comentário que nos reconduz ao início desta divagação, acrescenta, entre outras, a seguinte observação crítica: «Também lhe censuro não ter respeitado ordem, regra e medida; não ter variado nem as suas cabeças nem a cor, e não ter tido em nenhuma conta a perspectiva.»[4]

E é aqui que o romance se revela precioso para os não iniciados. É que o autor de Perspective(s), fiel ao clima social e político da época, que nos devolve nas epístolas trocadas, apreendeu sobretudo, com notável acuidade (e sentido de humor!), os conflitos a que nos reconduzem quer o secretismo de Pontormo, quer o comentário de Vasari, talentoso e imoderado intriguista, sobre a qualidade da obra e, por essa via, sobre os diferentes caminhos do Renascimento italiano.

Independentemente das circunstâncias da morte do pintor, e aqui podemos suspender o conhecimento histórico para seguir o caminho da ficção, Perspective(s) é uma excelente introdução a Pontormo e ao seu magnífico uso da cor em obras como a que suscitou uma apressada travessia do Arno, há um bom par de anos.

Falta apenas dizer que, daquela tarde em diante – por Pontormo! –, dormimos na maior e melhor suite do hotel.

 

[1] As citações de Daniel Arasse são extraídas de Histoires de peintures, Gallimard, Folio/Essais, 2004, pp. 192 e segs.
[2] Ed. Grasset et Fasquelle, Agosto de 2023.
[3] Giorgio Vasari, Vies des Artistes, 2, Grasset, Les Cahiers Rouges, 2012, p. 204.
[4] Ibidem, p. 205.

 

João Santos é professor.

 

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