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Capa White Too long. Robert Jones

A supremacia branca no cristianismo dos EUA

| 31/10/2020

Capa White Too long. Robert Jones

Capa do livro White Too Long, de Robert Jones.

Duas igrejas com o mesmo nome, Primeira Igreja Baptista, com os seus templos em espaços contíguos no mesmo bairro, na mesma cidade de Macon, estado da Georgia, nos EUA. Uma de cristãos brancos, outra de negros. Separadas pela raça, mas unidas por um outro cordão umbilical, de posse e de dominação. A igreja dos brancos, fundada em 1826, era a dos proprietários de plantações, e os negros eram os seus escravos. No princípio participavam juntos no culto, sentando-se os donos nos bancos da frente e os negros nos da parte de trás. Mas quando estes se tornaram muito numerosos foi decidido, em 1845, construir um segundo templo como espaço de culto para eles. A nova congregação continuou na dependência da primeira, com um pastor branco designado por ela e sob o governo dos seus diáconos, até depois da guerra civil, que durou de 1861 a 1865.

As duas congregações viveram praticamente de costas voltadas durante mais de um século, desde o final dessa guerra e passando por todo o período de reafirmação da supremacia branca, da segregação imposta, dos linchamentos, e mais tarde, nos anos 60 do século passado, da luta pelos direitos cívicos. Só muito recentemente, a partir de 2014, o pastor Scott Dickison, da primeira, e o pastor James Goolsby, da segunda, passaram a encontrar-se, procurando uma aproximação entre as duas comunidades. Entre outras coisas, começaram por aderir juntas à New Baptist Covenant (Nova Aliança Baptista), o movimento fundado pelo ex-Presidente Jimmy Carter para sarar as feridas do racismo e promover a reconciliação e o esforço comum de baptistas negros e brancos em defesa da justiça social.

Várias iniciativas conjuntas foram sendo tomadas, como o culto do domingo de Pentecostes de 2015, com os membros das duas congregações a partilharem juntamente o pão e o vinho da comunhão. Pequenos passos iam sendo dados, entre a esperança e as dúvidas de muitos dos crentes, marcados pela persistência dos preconceitos e da violência que chega até aos nossos dias. Cerca de três semanas depois desse culto, um jovem supremacista branco, Dylan Roof, entrou armado na Igreja Emanuel AME – African Methodist Episcopal (Metodista Episcopal Africana) em Charleston, onde decorria um estudo bíblico, e matou a tiro nove dos participantes, incluindo o pastor Clementa Pinckney.

O choque foi maior quando o historiador Doug Thompson, director do Centro de Estudos Sulistas da Universidade local, e membro desta Primeira Igreja Baptista, descobriu, nos documentos das transcções financeiras de meados do séc. XIX, que a mesma chegou a vender alguns dos seus activos (escravos) para resolver problemas de tesouraria. Segundo a sua investigação, até o novo templo inaugurado em 1855 terá sido financiado com a venda de duas dezenas de escravos que pertenciam a uma das mais destacadas famílias fundadoras.

A história é contada por Robert Jones no seu livro mais recente, White too long – The legacy of white supremacy in American Christianity (Brancos por tempo demais – a herança da supremacia branca no Cristianismo americano).

Ele mesmo nascido e criado nas igrejas da Southern Baptist Convention – a Convenção Baptista do Sul, considerada até hoje a maior denominação protestante nos Estados Unidos –, o autor, que fez a sua formação teológica no Southwestern Baptist Theological Seminary, no Texas, e depois na Emory University, em Atlanta, fundou e dirige o instituto de pesquisas Public Religion Research Institute, cuja investigação apresenta neste livro, e que fundamenta a reflexão que faz desde o início, sobre “a violência brutal que os cristãos brancos desencadearam para resistir à emancipação dos negros a seguir à guerra civil”:

“A afirmação, teologicamente apoiada, da superioridade, tanto da ‘raça branca’ como do cristianismo protestante, sustentaram um século de terrorismo sancionado pela religião, por meio de linchamentos ritualizados e outras formas de violência pública e intimidação. (…) As igrejas cristãs brancas não foram apenas complacentes e não foram apenas cúmplices; em vez disso, como poder dominante na América, têm sido responsáveis pela construção e manutenção de um projecto de proteger a supremacia branca e resistir à igualdade dos negros. Este projecto enforma toda a história da América.”

Robert Jones faz esta crítica a todas as igrejas brancas estabelecidas na América do Norte, apontando depois as semelhanças e as diferenças entre as suas famílias confessionais. Os grandes grupos humanos identificados são denominados como os white evangelical Protestants (brancos protestantes evangélicos), dominantes sobretudo no Sul; os white mainline Protestants (brancos protestantes das igrejas “históricas”), dominantes nos estados do Midwest e do Nordeste, bem como em algumas regiões do Sul; e os white Catholics (brancos católicos), dominantes no Nordeste.

O livro descreve comportamentos e casos concretos de racismo e defesa da supremacia branca em todos estes grupos, fundamentando a exposição nos estudos e relatórios publicados pelo Public Religion Research Institute. O mais recente de todos, de 19 de Outubro, que aqui citamos de uma síntese noticiosa do National Catholic Reporter, dá conta dos temas mais preocupantes para os eleitores dos EUA neste momento, identificando, além dos grupos acima citados, os negros protestantes, os hispânicos católicos e protestantes e outros cristãos ou de outras religiões.

Sobre as tendências de voto nas próximas presidenciais, importa ler também a mais recente sondagem do Pew Research Center, que identifica os cristãos brancos como maioritariamente apoiantes de Trump, e os negros, sobretudo os protestantes, como apoiantes de Joe Biden.

 

Silas de Oliveira é jornalista

 

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