No dia de Natal de há 60 anos

A surpresa e o tremor quando João XXIII convocou o Vaticano II

| 24 Dez 2021

João XXIII, que ficou conhecido como “o Papa bom”, acreditava que a ideia de um concílio lhe tinha chegado por inspiração divina. Foto: Direitos reservados.

 

No dia de Natal de 1961 – faz agora 60 anos – o Papa João XXIII formalizava e difundia a convocatória do segundo Concílio Ecuménico Vaticano, com o objetivo de “dar à Igreja a possibilidade de contribuir mais eficazmente para a solução dos problemas da modernidade”.

A notícia, propriamente dita, tinha eclodido cerca de três anos antes, menos de cem dias depois de o cardeal Angelo Giuseppe Roncalli ter sido eleito Papa, adotando o nome de João XXIII. Foi, de facto, num pequeno consistório, realizado na Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, no final da Semana da Unidade dos Cristãos e celebração da conversão de S. Paulo que, perante um grupo de cardeais boquiabertos, ele surpreendeu a Igreja e o mundo com o anúncio da decisão que havia tomado de convocar um concílio.

Ficou aí claro que não se tratava de mera divagação papal de um recém-chegado, mas de algo mais. O choque foi grande, também porque o novo Papa tinha já 77 anos e muitos o viam como de “transição”, depois do longo pontificado de Pio XII. Não faltou, por isso, quem na Cúria tivesse alimentado a convicção de que, com o tempo que demoraria a pôr de pé e em funcionamento uma máquina tão complexa e, mais ainda, a concretizar o desejo do Papa, a ideia acabaria por não se concretizar. De resto, foi dado a saber a Roncalli que tanto Pio XI como Pio XII iniciaram diligências com o mesmo objetivo, mantidas secretas, tendo acabado por desistir.

João XXIII era “bom” (como de resto assim ficou conhecido), mas não era ingénuo. Filho de camponeses, homem de ação em várias missões que lhe foram confiadas, incluindo uma visão da Igreja e do mundo que lhe proporcionou uma longa experiência diplomática na Bulgária, Turquia e Grécia, e, com o fim da Segunda Guerra, como núncio apostólico em Paris, não era fácil de demover dos seus propósitos. Tanto mais que acreditava que a ideia de um concílio lhe tinha chegado por inspiração divina e que era uma necessidade da Igreja.

Mas não se julgue que foi fácil a João XXIII pôr o processo em andamento, mesmo que apostando na sua conhecida “pedagogia da gradualidade”. Uma “comissão ante-preparatória” foi posta em funcionamento logo em 17 de maio de 1959, dominada naturalmente pela Cúria. Começou a preparar um questionário que definia à partida uma orientação e uma agenda que os bispos deveriam seguir. Em 30 de junho seguinte, numa nova reunião dessa comissão, com a presença de João XXIII, foi dado a saber que o Papa pretendia outra coisa. Estava, então, já a ser expedida, com o seu consentimento, uma carta para os episcopados do mundo inteiro que não deixava margens para dúvidas.

Concílio Vaticano II. Bispos

Bispos no Concílio Vaticano II. Foto: Direitos reservados

Lembrando a decisão papal quanto ao Concílio, sublinhava o presidente da comissão ante-preparatória:

“O augusto Pontífice, em primeiro lugar, deseja conhecer opiniões ou pareceres e reunir conselhos e votos dos bispos e prelados que são chamados por direito a participar no Concílio Ecuménico…; de facto, Sua Santidade atribui a maior importância aos pareceres, conselhos e votos dos futuros padres conciliares: isto será muito útil na preparação dos tópicos para o concílio. Por conseguinte, peço encarecidamente a Vossa Excelência que envie a esta comissão pontifícia, com absoluta liberdade e sinceridade, as opiniões, conselhos e votos que a solicitude pastoral e o zelo pelas almas possam sugerir, em ordem às matérias e argumentos que poderão ser discutidos no próximo Concílio.”

Explicitava, depois, pontos mais precisos: que os assuntos poderiam versar pontos de doutrina, disciplina do clero e do povo cristão, as muitas atividades em que a Igreja está hoje envolvida, “e tudo o mais” que cada bispo considere “oportuno apresentar e desenvolver”.

De diferentes partes do mundo foram chegando nos meses finais de 1959 e na primeira metade do ano seguinte mais de duas mil respostas, que deram para encher oito volumes nas Atas e Documentos do Concílio. O trabalho de leitura, classificação e análise de tal quantidade de contributos ocupou, não sem dificuldades, os meses seguintes.

Quando João XXIII entendeu estarem reunidas as condições, escolheu, então, o Natal de 1961 para convocar oficialmente esse acontecimento maior da Igreja Católica, o mais importante de todo o século XX.

Ao mesmo tempo que anunciava a convocatória aos cardeais, “certamente tremendo um pouco de emoção, mas ao mesmo tempo com humilde resolução de intenção”, João XXIII fazia publicar a Exortação Apostólica Humanae Salutis, em que traçava o horizonte, razão de ser, objetivos e procedimentos relacionados com o Concílio, determinando que fosse inaugurado em 1962 e que decorresse na Basílica de S. Pedro.

Quando a presente caminhada sinodal convocada pelo Papa Francisco se reivindica de continuidade e aplicação do Concílio Vaticano II, especialmente no que respeita à constituição Lumen Gentium, torna-se ainda mais relevante, para as gerações sinodais, conhecerem melhor o desafio que foi a experiência conciliar, para quem nele participou diretamente e, indiretamente, para toda a Igreja.

 

Fontes consultadas:

Alberigo, G. (dir.)(1995). Storia del Concilio Vatican II. Vol. I (L’annuncio e la preparazione). Società Editrice Il Mulino.

Carbone, V. (2000). Vatican Council II: Light for the Church and for the Modern World.

Fisher, D. (2012), ‘Curial horror greeted John XXIII’s announcement of ecumenical council’ in National Catholic Reporter.

O’Malley, J.W. (2008). What Happened at Vatican II. The Belknap Press of Haveard University Press.

 

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