A sustentável leveza do jugo de Jesus

| 13 Jul 20

(Contributos para uma teologia encarnacional)

“Vinde até mim, todos vós que estais esgotados e carregados, e eu dar-vos-ei descanso. Levantai o meu jugo para vós e aprendei comigo, pois sou gentil e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas. Pois o meu jugo é brando e o meu fardo é leve.” (Evangelho de Mateus 11:28-30)

 

Dei por mim a reler o grande clássico de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. Todo o livro é uma profunda reflexão acerca do significado da existência humana e da própria vida. O autor vai abordando ao longo do livro alguns temas, focando-se em conceitos muito complexos como o amor, a compaixão, o peso e a leveza, as opções que escolhemos, a fugacidade do tempo, a possibilidade de mudança e, essencialmente, essa angústia de podermos ser livres de escolher os nossos próprios caminhos, que quase sempre nos confrontam com as nossas fraquezas e finitudes.

É incontestável o facto de que cada um de nós experimenta, uns mais do que outros e de formas variadas, o peso da vida. E esse peso manifesta-se de múltiplas maneiras, seja a depressão e solidão, a tensão e a ansiedade, a angústia e medo, a dor e a hostilidade. Carregamos até, voluntariamente ou não, os pesos de outros. Também essa liberdade individual de podermos fazer o que queremos, pode expor-nos a essa sensação, como dirá muito bem Zygmunt Bauman, de leveza e de descompromisso, a relacionamentos voláteis e fluidos, a essa insustentável leveza do nosso ser, e também ela mesma um peso.

Estas crises existenciais da vida humana, estes vazios e pesos que corroem o nosso íntimo, deixam-nos por vezes exaustos, sem forças e sem rumo. Mas como enfrentar estes problemas nesta sociedade cada vez mais secularizada, alienada da religião, cujo centro se assume cada vez mais humanista e que relega Deus para um segundo plano? O que fazer perante essa liberdade quase insuportável que nos confronta com o vazio dos absolutos, da perda de segurança a que nos expõe esta cultura cada vez mais relativista e hedonista?

Também, e inquirindo acerca do papel da religião nos tempos que correm, verifica-se cada vez mais que as novas gerações, se não se encontram ainda totalmente alienadas de Deus, remetem-se cada vez mais para uma religião privada, relativizada, feita à medida de cada um. Ao Deus criador de todas as coisas, interventivo em toda a história do universo e na vida humana, sobrepõe-se agora o homem, que em toda a sua dimensão – física, moral e espiritual, se confronta igualmente com a sua insustentável liberdade e pesos da vida. Mas, se Deus não está já morto, como alguns filósofos o prediziam, estará ao menos domesticado.

Mas como falar de Jesus a esta sociedade, a esta nova geração arreligiosa e sobrecarregada com os seus pesos existenciais? Dietrich Bonhoeffer, na sua cela de prisão em 1944, já desabafava: “O que me ocupa incessantemente é esta questão: o que é o cristianismo, ou ainda, quem é de facto Cristo para nós hoje? Foi-se já o tempo em que se podia responder às pessoas por meio de palavras – sejam teológicas ou piedosas; passou também o tempo da interioridade e da consciência moral, ou seja, de uma maneira geral, o tempo da religião. Rumamos para uma época totalmente arreligiosa; as pessoas, sendo como são, simplesmente já não conseguem ser religiosas.

Numa das mais extraordinárias passagens registadas nos evangelhos, Jesus convida a todos os que se sentem esgotados e carregados, a levar o seu jugo e a aprender dele, que é gentil e humilde de coração e a encontrar descanso para a alma, porque o seu jugo é brando e o seu fardo é leve (Mateus 11:28-30). O jugo era a canga que juntava dois bois lado a lado para lavrar um campo. O que Jesus está aqui a dizer, é que ele próprio está ao lado de quem está cansado, ajudando a suportar as cargas e pesos. Este repto de Jesus, embora em contextos diferentes, nunca foi tão pertinente nestes tempos que correm. Sabe-se que inicialmente Jesus dirige o convite não só aos que se encontravam sobrecarregados com o peso dos mandamentos da Torá, da lei judaica, e com uma série de tradições que regulamentavam em excesso a sociedade e o comportamento das pessoas, mas também a um povo que se encontrava totalmente subjugado, social e economicamente, pelos romanos.

Como falar então de Jesus a esta geração cada vez mais alienada da religião? Como pode a Igreja estender o convite do Senhor aos que se encontram esgotados e carregados? A resposta estará obviamente na maneira como nós, os cristãos, enquanto Igreja, assumimos a vida e o próprio jugo de Jesus, de deixar que a nossa mente seja transformada pela sua mente, que o nosso coração passe a amar o nosso próximo como Jesus amou, que os nossos pés caminhem como Jesus caminhou ao encontro dos necessitados, que as nossas mãos toquem os enfermos como Jesus tocou, que os nossos olhos vejam o amor infinito e misericordioso do Pai pelos que estão sem rumo, tal como Jesus os via. Uma Igreja que se deixe transformar à imagem de Jesus, que seja ela mesma a carta do Cristo e que se dá a conhecer ao mundo (2ª Carta aos Coríntios 3:2), será uma Igreja que estará ao lado de todos os que tenham pesos na sua vida, ajudando-os a suportar as crises existenciais e solicitudes da vida, dando-lhes a conhecer a sustentável leveza do jugo de Jesus.

O peso e a insustentável leveza do ser, de que tanto fala Kundera e que espelha tão bem o peso existencial da vida e a angústia da liberdade humana, só poderão encontrar alívio numa Igreja de rosto humano, solidária, participativa nas dores do outro. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, o próprio Papa Francisco já nos diz que o início de ser cristão, de ser pertença da Igreja de Jesus, é marcado por esse encontro com a Pessoa de Jesus, o qual dá à vida um novo horizonte. E é a partir de Jesus, através do qual Deus assume um rosto humano, que a Igreja é convidada a sair de si mesma em direção aos outros, onde o rosto do Pai pode transparecer e dar alívio aos que estão sobrecarregados e cansados com os pesos da vida,

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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