A tábua do abade e a distância social

| 19 Jul 20

Fr. Bartolomeu dos Mártires

Contaram-me numa vila transmontana que, indo certo dia o arcebispo de Braga visitar a paróquia, quis inspeccionar a casa do senhor abade, onde este vivia com jovem mulher a quem chamava criada. O prelado – cujo nome desconheço, mas dava ares do arguto e bom São Frei Bertolameu dos Mártires – andou por todos os compartimentos do tugúrio sacerdotal. No fim, sentou-se à lareira com aquele bom pastor, guardador de ovelhas e cabritos bravos nas geladas serranias da Padrela, bem no centro do triângulo desenhado entre Murça, Chaves e Vila Pouca de Aguiar. Sentados os dois no escano, o epíscopo atirou, sem delongas:

– Senhor abade, reparei que na sua casa só existe um leito e nada mais. Sei que aqui habita com certa mulher, a quem chama sua criada… Não acredito que vossa excelência seja infiel ao voto de castidade… Mas parece-me que dormem os dois na mesma cama.
O sacerdote engasgou-se, mas não teve coragem para mentir.

– Tem razão, excelência reverendíssima! Dormimos na mesma cama. Não há outro remédio… O pé de altar é curto nesta terra pobre, a côngrua miserável. Não há dinheiro para mandar fazer um catre e uma enxerga decente. Eu não seria bom cristão se deixasse a boa mulher dormir sobre palha centeia, no palheiro, sendo picada por percevejos e pulgas gordas como toiras… Mas olhe, senhor arcebispo, nós dormimos com uma tábua de carvalho pelo meio… e é bem grossa…

O arcebispo bracarense (diz a história contada em Carrazedo) sorriu com os lábios e com os seus olhos meio estrábicos que infundiam não pouco respeito. Cortou a conversa ao abade:

– Muito bem. Excelente ideia. Mas tenho uma dúvida. Como sabe, há tentações carnais que nos incitam ao comércio menos casto… Que fazem o senhor e a sua criada quando tal acontece, quando chegam tais tentações? Reparei que a rapariga é galharda moça… Vermelhusca e bem alimentada…

O abade de Montenegro, dotado de verbo fácil e ligeiro, não fez demorar a resposta…

– Ora, excelência, que haveríamos de fazer…? Tiramos a tábua…

Esta história (protagonizada talvez pelo humaníssimo e santo Frei Bertolameu (que morreu em 16 de Julho de 1590), canonizado em 2019 pelo Papa Francisco, e me foi contada à sombra de um negrilho pelos meus vizinhos do Bairro do Prado em 1995 (ano em que me iniciei como docente), veio-me à lembrança ao meditar sobre as sucessivas decisões das nossas autoridades de saúde. Por um lado, mandam-nos pôr tábuas grossas entre nós que promovam o higiénico distanciamento e a saúde pública. Por outro, sempre que necessário, fecham os olhos e fazem com que as tábuas desapareçam, sobretudo se são incómodas para quem deveras manda… ou para interesses superiores. Que gente!… Parvo povo o nosso. Aprendamos, todavia, com o inteligentíssimo e grande santo português. Ao ver em Trento os cardeais esgadanhando-se por reformar a seu jeito a Igreja, sem grande reverência pela doutrina de Cristo, lhes atirou à cara: “Vossas eminências é que precisam duma eminentíssima reforma!”

 

Ruy Ventura é escritor e investigador

 

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