A tecnologia feita por amor santifica

| 20 Jul 21

Apolo 8. Terra vista do espaço

“Anders, Lovell e, por fim, Borman, leram do espaço o relato bíblico da criação para milhões de pessoas que os ouviam na Terra.” Foto © Bill Anders, tripulação da missão Apollo 8

 

Superar a situação de pandemia que vivemos depende muito da tecnologia. Existe muita engenharia na construção de máscaras dos mais diversos tipos, na ventilação dos espaços para garantir a diluição da concentração de aerossóis, e podemo-nos questionar se existe algum valor espiritual nas coisas tecnológicas. São subtis os traços da vida espiritual no desenvolvimento tecnológico, mas existem. Basta pensar na viagem do ser humano à Lua.

Era véspera de Natal e três pessoas não podiam estar junto das suas famílias por se encontrarem dentro do módulo lunar da missão Apollo 8 [21/12/1968 – 27/12/1968]. Frank Borman, Jim Lovell e Bill Anders foram os primeiros humanos a ver a Lua de perto e a tirar a emblemática foto do nosso planeta azul. Depois de Bill Anders descrever os cenários inéditos que observavam na Lua, estes astronautas gostariam de dar aos ouvintes da Terra uma mensagem por ocasião do Natal. Anders pegou na última página do plano de voo e como nenhum deles era poeta, começaram: “No princípio, Deus criou o céu e a terra…” Anders, Lovell e, por fim, Borman, leram do espaço o relato bíblico da criação para milhões de pessoas que os ouviam na Terra. Podiam ter escolhido outro texto qualquer, mas a mensagem pronunciada por estes astronautas traduzia, de certo modo, a experiência inédita que estavam a viver, fruto de um desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história da humanidade. Mas talvez o melhor exemplo que liga a tecnologia com a vida espiritual seja Jesus.

Como carpinteiro, poderíamos dizer que Jesus era um engenheiro do seu tempo. Tudo o que fazia com as suas mãos era um acto co-criador com Deus-Pai. Por isso, apesar de ser mais evidente ver pessoas das ciências naturais a falar de Deus, pela descoberta que fazem da Sua presença no estudo da natureza, como físicos ou biólogos, como Jesus, também os engenheiros podem falar de Deus através daquilo que inventam. Pois, a vida espiritual daquilo que co-criamos nos nossos trabalhos de engenharia são a diferença entre salvar ou matar milhões. No início do filme Rasgo de Génio sobre Robert Kearns que inventou a intermitência nos pára-brisas dos nossos carros, o personagem coloca um dilema ético: “quem desenhou a válvula artificial da aorta para o coração? Um engenheiro. E quem desenhou as câmaras de gás de Auschwitz? Também um engenheiro. Um deles foi responsável por ajudar a salvar dezenas de milhares de vidas, e o outro ajudou a matar milhões.”

Na minha tese de doutoramento em engenharia, a parte dos agradecimentos era o único espaço onde me sentia à vontade de ir mais a fundo naquilo que tinha experimentado naqueles anos, com horas sem fim enfiado no laboratório a medir. Escrevi: “a um dado momento dei-me conta da importância de não questionar ‘o que podemos fazer com a nossa tecnologia’, mas antes ‘o que nos tornamos com a nossa tecnologia’. De algum modo, assim como o espelho na história da Branca de Neve mostrava aquilo que cada pessoa era na realidade, se pensarmos na tecnologia como esse espelho, mais do que essa revelar quem é o ser humano, a tecnologia revela quem o ser humano pode ser.”

Nos passados dias 8 a 11 de julho ocorreu em Itália o Festival pelo Espaço e um dos relatores era o padre Tanzella-Nitti, astrónomo e teólogo que dizia algo revelante para a relação entre tecnologia e vida espiritual: “várias e evocativas páginas da [Constituição pastoral do Concílio Vaticano II] Gaudium et spes explicam-nos como a atividade humana, incluindo a ciência e a tecnologia, participam no movimento [em que Cristo reordena a criação desordenada], transforma o mundo e santifica-o. É na construção da cidade dos homens que se caminha em direcção à cidade de Deus: a tecnologia tem um valor espiritual por si mesma, não apenas por ser uma atividade humana. Não é uma mera ferramenta, neutra, a ser usada para o bem ou para o mal, como um martelo. É a maneira como o homem, em Cristo, prolonga a obra do Criador, contribuindo para a realização do desígnio providencial de Deus na história (cf. Papa João Paulo II, encíclica Laborem Exercens n. 25).”

Não é sempre evidente o modo como uma tecnologia contribui para o aprofundamento da vida espiritual. Por exemplo, a crise climática que vivemos é um fruto da tecnologia criada pelo ser humano, pelo que pode ser difícil entender como pode ter um valor espiritual. Mas as mãos da pessoa humana trabalham o que vive no seu coração. E estou certo que toda a tecnologia feita por amor santifica.

Quando penso nas mãos calejadas de Jesus a garantir a segurança dos pés de uma mesa, alisando o tampo para que não houvesse uma farpa que pudesse magoar, penso que essa mesa poderia bem ser a que fez para a pessoa que os acolheu na última ceia e que se tornou altar diante do qual todos se inclinam por nela reconheceram a Mesa do Senhor. Espero que os engenheiros saibam cada vez mais e melhor traduzir a tecnologia que desenvolvem em vida espiritual que nos inspira a amar mais e melhor este mundo que transformamos.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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