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A teologia das pedras

| 15/08/2019

A teologia das pedras

by | 15 Ago 19 | Entre Margens, Newsletter diária - título, Últimas

A tentação de lançar pedras sobre os outros é sempre maior do que a de nos colocarmos em frente a um espelho. Mas, cada vez que lançamos uma pedra contra alguém, no fundo estamos a magoar-nos a nós mesmos.

 

Um dos episódios mais impressionantes do Evangelho de João (capítulo 8) é a cena do Templo de Jerusalém onde um grupo de homens surge de rompante arrastando à força uma pobre mulher.

Desde logo a tradição chama à criatura “mulher adúltera” de forma abusiva. O texto de S. João não permite tal classificação. Apenas conhecemos o testemunho dos seus acusadores. A mulher nem sequer foi ouvida enquanto arguida, talvez porque Jesus não tinha vocação de magistrado, nem a casa de Deus deve ser um local de condenação, mas de amor, aceitação e inclusão:“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:17).

Mas é estranho que o homem que terá sido encontrado com ela não surja na estória. A lei de Moisés – que escribas e fariseus tanto prezavam – determinava que “Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.” (Levítico 20:10). A verdade é que o homem nunca aparece, talvez porque a sociedade patriarcal é o que é.

Ninguém conhece a biografia da personagem feminina. Seria uma sedutora ou teria sido seduzida? Era adúltera convicta ou terá apenas caído por uma vez em momento de fraqueza? Terá sido seduzida por alguém a quem os acusadores pagaram? Seria vítima de falso testemunho, numa sociedade em que uma mulher sozinha nem sequer podia requerer justiça junto dum juiz?

O primeiro erro destes religiosos foi pretender perturbar o ensino que Jesus de Nazaré ministrava ao povo que o procurou, sobretudo em pleno templo de Jerusalém, o centro de adoração do judaísmo, território sagrado demais para este dito profeta, indigno e blasfemo, como eles pensavam. O seu segundo erro foi utilizar uma mulher indefesa apenas como pretexto para tentar encurralar o homem que propunha uma mensagem de amor, em clara contra-corrente cultural e religiosa, confrontando-o com a dureza da lei mosaica. O seu terceiro erro foi a insistência (“E, como insistissem…”).

A teologia do amor confunde sempre os “teólogos” das pedras. Só que aquelas pedras de facto não eram destinadas à mulher mas ao próprio Jesus. Se a quisessem lapidar teriam feito isso antes de entrar no Templo ou depois de a levarem perante a autoridade religiosa que determinaria a pena. A sua decepção não foi poupar a pobre mulher, foi antes não conseguir que os seus argumentos triunfassem de modo a apedrejar aquele homem que desafiava o sistema religioso estabelecido, claramente corrupto e hipócrita. O que eles queriam mesmo era apedrejar aquele nazareno que ousava desafiar o sistema estabelecido: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (1:46).

A resposta do mestre Jesus foi eloquente. Limitou-se a colocar um espelho à sua frente, virado para os acusadores que o interpelavam, onde eles não gostaram nada de ver a sua imagem moral e ética reflectida: “Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela” (7). Conta o episódio que eles, confrontados com a sua consciência:“saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos”. Ou seja, os mais vividos e experientes foram os primeiros a desistir do seu intento.

O que vemos ainda hoje é a mesma inflexibilidade, a mesma pulsão condenatória, a mesma procura de bodes expiatórios por parte dos sistemas religiosos. Normalmente os fariseus dos nossos dias tendem a bajular o poder e a discriminar as minorias e os mais fracos, que não se podem defender, tal como aquela mulher. De uma forma ou de outra alguns líderes políticos procuram hoje o apoio das religiões para imporem a sua agenda populista, que exclui mais do que inclui. Não é novidade. Hitler começou por fazê-lo. Putin fá-lo ainda hoje, tal como Trump, Bolsonaro, Salvini ou Maduro, cada um à sua maneira.

Os “teólogos” das pedras fazem por ignorar que a pedra que têm na mão, pronta a atirar aos outros, é igual à pedra que têm no lugar do coração: “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” (Ezequiel 11:19).

E um coração de pedra não bate, por si nem pelos outros. Limita-se a existir.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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