
Anne-Marie Pelletier. Foto do site pessoal
“A estrutura eclesiástica na qual vivemos há séculos não traz promessas da vida eterna. De qualquer maneira, não era a estrutura eclesiástica da Igreja primitiva”.
Quem o afirma é a teóloga francesa e prémio Ratzinger de teologia Anne-Marie Pelletier, em entrevista ao jornal francês La Vie. Nela comenta o recentíssimo relatório sobre os abusos sexuais de crianças em França, defendendo uma “revolução” no modo de pôr o catolicismo em prática.
“Uma revolução certamente – salienta a teóloga – ainda que a Revolução Francesa não possa ser o modelo para a Igreja neste caso! O que chamamos tecnicamente ‘eclesiologia’, ou seja, a teologia da Igreja, que rege a sua organização, deve ser questionado nas suas raízes. A mudança é inevitável e não há dúvida de que essa perspetiva encontrará forte resistência; mas a conjuntura já não nos deixa escolha”.
Explicando o seu ponto de vista Anne-Marie Pelletier diz estar convencida de que se torna necessário, neste momento de profunda mudança, “recuperar um ponto de apoio na história da Igreja. Não para restaurar essa parte carcomida do passado em colapso, mas para diagnosticar o que está a acontecer connosco e a crise pela qual estamos a passar”.
E acrescenta: “Falamos muito hoje em dia sobre problemas sistémicos: é muito justo. O mal não vem simplesmente de indivíduos isolados. Diz respeito a toda uma ordem eclesial que deve ser desmantelada. Mas essa ordem é ela mesma o produto de uma longa história, durante a qual se formaram preconceitos, prevaleceram interpretações tendenciosas das Escrituras, onde práticas que são simplesmente fruto da história se tornaram lei”.
Reprimir a sexualidade em vez de a pensar
Como exemplos desse rasto histórico, a teóloga, que acaba de publicar o livro “L’Église et le féminin. Revisiter l’Histoire pour servir l’Évangile”, refere a manutenção das “mulheres afastadas do altar”, a defesa de “um celibato eclesiástico indissociável do sacerdócio”, o “zelo cioso pelo recinto masculino do sacerdócio ministerial”, a reivindicação de um poder clerical sobre os corpos das mulheres”, e “tantas outras normas do mundo católico” enraizadas num “passado sobre o qual é preciso debruçar-se”.
A jornalista que entrevista Pelletier interroga-a sobre o tema da sexualidade e o modo como ele foi sendo lidado na história da Igreja Católica. Cita, nomeadamente, uma frase de “Léglise et e féminin” em que ela alude a “carne mal pensada ou a carne impensada”.
A autora nota que a sexualidade constitui “uma dimensão importante da condição humana que nos torna seres encarnados”. Desde os inícios do cristianismo, diz ela, “a carne está na origem do mistério da encarnação e da obra da salvação”, mas também convive com uma “a experiência da fragilidade”. “Alguns rapidamente escolherão colocá-la em julgamento, desqualificá-la como algo que deve ser vencido na vida cristã, em benefício do espírito”, observa.
Recorda a “exaltação da virgindade feminina de Maria” e a emergência do “ideal de uma vida que ignora a sexualidade” que acabará por passar a associado ao sacerdócio ministerial e ao celibato. “Essa tradição, portanto, reprimiu a sexualidade em vez de pensar sobre ela. Por isso mesmo, ela tomou o lugar privilegiado da fantasia”, defende a teóloga. Contudo, observa, “como sabemos, a característica do reprimido é voltar. E esse retorno está a causar estragos, em igual proporção à censura que foi feita sobre ele. Isso é evidente na história que vem à tona nas notícias sobre a Igreja”.
Sínodo: é a vez de os leigos falarem, especialmente as mulheres
Interrogada sobre o Sínodo há dias aberto pelo Papa Francisco e o que dele poderá sair, Anne-Marie Pelletier respondeu deste modo:
“Que os leigos finalmente falem, e especialmente as mulheres, essa é a grande questão hoje na Igreja. (…) É a sua vez de falar!, diz o Papa. Devemos medir o alcance deste convite. De repente, o apelo à sinodalidade leva-nos de volta à realidade da Igreja como esse corpo de Cristo evocado por São Paulo. Realidade orgânica, onde somos todos, igualados pelo batismo, uns para os outros. Onde as responsabilidades confiadas a alguns ou a algumas devem ser reconhecidas como um serviço à vida e à santidade do corpo. Este, parece-me, é o grande antídoto para os males que oprimem a Igreja”.
Tradução do Instituto Humanitas da Unisinos, aqui resumida e adaptada ao português de Portugal.
Uma conferência de Anne-Marie Pelletier, intitulada “A crise do cristianismo hoje. Uma abordagem na perspetiva das mulheres”, foi feita no no último dia 13, na Unisinos pode ser seguida neste vídeo do YouTube, dobrado em português.










