A tradição do Madeiro nas Beiras

| 21 Dez 19

Madeiro do Natal em Penamacor. Foto © CMP

 

Com o aproximar da festa do Natal, uma grande parte das populações das aldeias e vilas da raia, de Trás-os-Montes às Beiras, envolve-se numa milenar festa comunitária, tendo como centro uma fogueira, colocada às portas das igrejas, para ser acesa antes da Missa do Galo, à meia-noite do dia 24 de dezembro. Quando falamos de “fogueira” ou de “madeiro” de Natal estamos a referir-nos à mesma realidade.

Ainda hoje, muitos se interrogam acerca das origens desta milenar tradição que remonta a ancestrais cultos pagãos, ligados aos solstícios, nas comunidades rurais.

Tanto quanto hoje sabemos, acerca da origem das fogueiras-madeiros de Natal que existem nestas regiões do país, elas não se encontram estritamente ligadas ao dia do Nascimento de Jesus, o qual é desconhecido, mas a uma festa pagã, em honra do natale solis invictus, introduzida em todo o império romano pelo imperador Aureliano, no ano de 274. Esta festa solar teria como principal finalidade assinalar culto o solstício do inverno, numa altura em que a luz do sol renascia, vencendo a escuridão das noites frias e escuras.

Com esta cerimónia religiosa, o imperador procurava atingir, pelo menos, dois objetivos: por um lado, centralizar os vários cultos politeístas no culto ao deus-sol sírio; por outro, conseguir a união do império, já com sinais de crise e à beira de ficar estrangulado, devido às contínuas levas que chegavam, de povos germano-bárbaros.

Para tentar imunizar os cristãos da força atrativa desta festa pagã, como não se sabia ao certo quando Cristo tinha nascido, a igreja de Roma, no dia da referida festa, celebrada em 25 de dezembro, decidiu colocar neste mesmo dia o nascimento do Salvador como sendo a “luz do mundo” (João 8,12) dado que, para os primeiros cristãos, o “Sol invencível” não era o deus pagão, mas a pessoa de Jesus que veio ao mundo, segundo João, como “a luz verdadeira que ilumina todo o homem”.

Deste modo, tentou-se batizar esta festa pagã, à semelhança de outras tradições de Roma ou de povos pagãos que, ao longo dos séculos, se foram integrando, pacificamente ou não, na tradição cristã. Como sabemos, a partir de festas pagãs pré-existentes ao cristianismo, ao longo dos tempos, foram surgindo novas interpretações das mesmas, embora permanecendo, em geral, o essencial. À medida que se alteram as conjunturas económicas, sócio- políticas e religiosas, a tendência, como se pode verificar, é irem-se produzindo mudanças, mais ou menos profundas, na vida dos povos.

Mesmo hoje em dia, devido a tão numerosas influências mundiais, a festa do Natal tem sofrido nas últimas décadas, profundas alterações, oriundas das mais diversas proveniências culturas. Por um lado, a pressão da globalização, com a tendência a nivelar os comportamentos e as culturas, propondo, ardilosamente, alternativos estilos de vida e de consumo. Por outro, ao vivermos mergulhados numa civilização consumista-capitalista, vamos sendo abafados por inúmeras propostas de consumo, promovidas até à exaustão pelas aguerridas e gulosas multinacionais.

Quanto à secular tradição do Madeiro nesta zona do interior, tudo leva a crer que a sua origem se integra num longo e profundo processo da romanização que atingiu todo o império romano, onde nós nos incluíamos e do qual ainda hoje guardamos numerosos testemunhos documentais do seu rico património.

Relativamente ao futuro, como tem vindo a acontecer com outras seculares tradições populares, em vez da atual festa comunitária do Madeiro de Natal, do povo e para o povo, esta poderá vir a tornar-se numa singularidade folclórica ou exótica, só para turista ver e fotografar. Deste modo, só lhe restará ir-se tornando mais um cartaz de promoção do turismo religioso local. Sendo muito pouco, não seria de desprezar, dado que estas terras beirãs se encontram já numa fase galopante de desertificação humana.

Como, nesta faixa do interior do país, já é difícil encontrarem-se pessoas com capacidade de colaborar no Madeiro de Natal, restará muito provavelmente aos poderes autárquicos, terem de vir a assumir, como já acontece em alguns casos, a manutenção de algumas seculares tradições locais, já em perigo.

Como nota final, gostaríamos de deixar uma pergunta-desafio: não seria a altura de se elaborar um projeto intermunicipal, para se colocar à consideração da UNESCO, para que a secular tradição do Madeiro seja classificada como Património Imaterial da Humanidade?

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

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