A tradição e modernidade de Fátima, segundo o cardeal Tolentino

| 13 Mai 21

A Igreja Católica tem pela frente o “desafio de reflectir sobre o sentido da vida, sobre as suas prioridades, o que é essencial”, disse o cardeal Tolentino Mendonça, nos momentos iniciais da peregrinação do 13 de Maio, em Fátima. E deve aceitar, acrescentou, o seu próprio “trabalho de reconfiguração” sempre requerido “para cada comunidade poder ser uma resposta às necessidades”.

Procissão das velas, Fátima

Procissão das velas, em Fátima, nesta quarta-feira: “Que escutes no silêncio desta noite a fadiga e o esforço, a solidão e as lágrimas, o cansaço e as necessidades de todos”, pediu o cardeal Tolentino, dirigindo-se a Nossa Senhora. Foto © Arlindo Homem/Agência Ecclesia

 

Os santuários desempenham hoje um papel fundamental e Fátima, em concreto, “faz uma síntese do que é a religiosidade tradicional dos portugueses e do mundo católico”, com a característica de ser um “lugar de grande modernidade, disse o cardeal José Tolentino Mendonça na tarde deste dia 12, em Fátima, antes do início oficial da peregrinação aniversária de Maio, que preside.

Fátima, em concreto, e os santuários passaram para muitos a ser “também o lugar de um primeiro contacto com a fé cristã, com a experiência da peregrinação” e da procura de sentido, mesmo quando, em alguns casos, as pessoas se aproximam desses lugares “não sabendo bem o que procuram”, acrescentou o bibliotecário do Vaticano.

“Fátima oferece essa possibilidade de grande encontro – não tem portas, é um lugar onde todos podem entrar”. E a peregrinação, afirmou, revela “motivos muito diferentes” que as pessoas transportam nos seus corações, mas traduz a abertura a uma “experiência espiritual, a uma experiência de Deus, e Fátima oferece essa possibilidade de um encontro, porque é uma grande igreja, uma grande praça que não tem portas e todos podem entrar”.

O próprio cardeal quis repetir a experiência de chegar a Fátima a pé. Com algumas famílias amigas, na manhã deste dia 12, partiu da zona de Porto de Mós. “Também eu me pus a caminho a pé e foi assim que cheguei a Fátima. Quis sentir aquilo que sentiram todos os peregrinos.”

O responsável pela Biblioteca e Arquivo Apostólico do Vaticano afirmou ainda, na conferência de imprensa, que Fátima e os santuários devem permitir, neste tempo de pandemia, “pensar os instrumentos de reconstrução do mundo”. Esta crise começa por ser sanitária, acrescentou, “mas depois é uma crise poliédrica, que toca todos os aspectos da vida e é muito importante que não se torne numa crise da esperança”.

À noite, depois da procissão das velas, na homilia da celebração da palavra, o cardeal Tolentino afirmaria, dirigindo-se a Nossa Senhora: “Queremos hoje pedir, Senhora de Fátima, que ilumines a dor de todos, sem fronteiras nem distinções, que ilumines a dor de próximos e distantes, de crentes e não-crentes, como se fosse uma só. Que escutes no silêncio desta noite a fadiga e o esforço, a solidão e as lágrimas, o cansaço e as necessidades de todos. Que veles pela grande família humana ferida. E nos mobilizes a todos para o desafio urgente de consolar, de cuidar e de reconstruir.”

Na celebração nocturna, o cardeal Tolentino tinha diante de si um mar de velas que voltou a encher a noite de Fátima, depois de, no último ano, isso quase não ter acontecido. Depois de se referir às “outras crises” activadas pela pandemia, conforme se recorda noutro texto do 7MARGENS, e tomando de novo a ideia da esperança, afirmou: “Precisamos da esperança para olhar mais para diante, para ganhar confiança e repartir. Precisamos da esperança para transformar os obstáculos em caminhos e os caminhos em novas oportunidades. Precisamos da esperança para nos unirmos mais, para construirmos sociedades eticamente qualificadas, sociedades que concretizem a justiça social e a fraternidade entre todos os homens.”

 

A dimensão espiritual em tempo de reconstrução
Tolentino Mendonça, Fátima, Pandemia, 13 Maio 2021

Cardeal Tolentino nesta quarta, 12, em Fátima: “Sempre que foi preciso reconstruir o mundo e a vida, sempre que foi preciso recomeçar, a dimensão espiritual foi uma dimensão chave. Foto © Arlindo Homem/Agência Ecclesia.

 

Ainda nas suas declarações aos jornalistas, Tolentino Mendonça recordou outros períodos recentes em que a humanidade atravessou grandes dificuldades colectivas, como a pandemia da gripo espanhola, há 100 anos, ou a II Guerra Mundial. “Sempre que foi preciso reconstruir o mundo e a vida, sempre que foi preciso recomeçar, a dimensão espiritual foi uma dimensão chave”, afirmou.

Defendendo que essa dimensão deve estar também presente na necessidade de pensar na reconstrução espiritual da Europa”, o cardeal acrescentou que necessitamos todos “de consolação, precisamos ainda de muito cuidado: é preciso que toda esta dor nos seja útil e que possamos partir deste momento para sociedades e modelos de vida também individuais eticamente qualificados, mais humanos, mais fraternos e penso que também mais espirituais”.

A Igreja, enquanto conjunto das comunidades cristãs, não pode ficar de fora deste exercício de reconstrução e tem pela frente o “desafio de reflectir sobre o sentido da vida, sobre as suas prioridades, o que é essencial, o que nos faz felizes”; e também, acrescentou, o de fortalecer e aceitar o seu próprio “trabalho de reconfiguração” sempre requerido “para cada comunidade poder ser uma resposta às necessidades”.

É preciso que as comunidades cristãs tradicionais “se fortaleçam, cresçam e tenham um dinamismo espiritual” renovado, sugeriu o cardeal. A pandemia deve levar mesmo “a repensar, reconfigurar, porventura a encontrar novas linguagens, novos instrumentos ou uma nova adequação da realidade”. E resumiu: “É um tempo de desafio também para a Igreja: a dificuldade que o mundo sente é também vivida no interior da igreja e das [suas] comunidades. Mas, ao mesmo tempo, é uma hora de grande esperança.”

Para o cardeal, como diria na homilia da noite, é importante saber construir um património de perguntas. “Estes meses foram difíceis, mas não foram vãos: ao nosso coração ocorreram, por exemplo, tantas perguntas”, afirmou. “E perguntas não banais, que se podem tornar um trampolim de futuro. Perguntas sobre o sentido da vida, sobre o que é afinal o mais importante a salvaguardar, sobre mudanças de rumo a introduzir nas nossas vidas e nas nossas sociedades. A turbulência da pandemia também nos desinstalou e nos ajudou a identificar o essencial com mais clareza. (…) que todo este sofrimento nos torne melhores: mais espirituais, mais humanos e mais fraternos.”

Neste plano, o cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, insistiu, na conferência de imprensa do final da tarde, acerca das vacinas: “A imunização extensiva deveria considerar-se um bem comum universal e, por isso, a distribuição das vacinas não pode obedecer a outro critério que não seja o de saúde pública. Não é aceitável, nem compreensível que se transforme numa arma geopolítica.” Por isso, sublinhou, “todos devem ter acesso à vacina em Portugal, na Europa e no mundo”.

 

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