A Trindade como reflexo da proximidade de Deus
Há algumas semanas a Igreja Católica celebrou o domingo da Santíssima Trindade; precedeu-o o Domingo da Ascensão do Senhor e o Domingo de Pentecostes; pouco tempo depois celebrámos a solenidade do Corpo de Deus. Estas celebrações, conjugadas com o tempo pascal, dão-nos um retrato da essência divina. Muito provavelmente, na maior parte do tempo vivemos indiferentes à natureza trinitária de Deus. A explicação encontra-se na perplexidade e ausência de palavras que temos perante esse mistério. Ninguém poderá nunca explicar o que é a Santíssima Trindade: é um mistério da fé. Na súmula da sua tese de doutoramento, Alexandre Palma escolheu como título: “A Trindade é um mistério, mas podemos falar disso”. Eis o que propomos fazer.
François Varillon, sj, terá questionado, durante uma conferência, o que mudaria na nossa vida se Deus fosse uma só pessoa em vez de três. A pergunta é extremamente pertinente. Será que a nossa fé seria a mesma? A relação interior que cada um tem com Deus seria igual? Será que nos relacionamos com Deus como nas suas três pessoas? Estas e outras perguntas ficam a ecoar em nós perante esta pergunta provocadora.
A explicação mais simples acerca da Trindade, que nos é dada na catequese, é de que há uma só natureza divina composta por três pessoas distintas, com igual dignidade. Aquilo a que chamamos “Deus” é uma natureza, uma essência, a qual está presente em três pessoas visceralmente ligadas entre si, mas diferentes. Formando um único Deus. É uma lógica que ultrapassa qualquer das nossas medidas e compreensões. Como é que Deus é um só e ao mesmo tempo três? Não censuremos esta nossa perplexidade pois reflete uma vivência dialética da fé, com questionamento, que é aquilo que torna a fé viva.
O Pai é igual ao Filho, ambos são iguais ao Espírito Santo que procede dos dois. Podemos então pensar que Deus é o Pai, criou depois o Filho e por fim, o Espírito Santo nasceu de ambos. Contudo, se acreditamos num só Deus, composto por três pessoas, não há lugar a uma cronologia na existência de cada uma delas. Deus é o Pai, que nos criou, o Filho que encarnou e se fez homem, o Espírito Santo surge da relação do Pai com o Filho, foi-nos enviado e permanece connosco.
Na criação, Deus assume-se como um Pai que cuida e cria. Aproxima-se das suas criaturas quando assume a nossa carne e a nossa fragilidade na

“Espírito divino que guia os nossos passos.” Foto©Sofia Távora
Encarnação como homem e messias. Por fim, após a sua subida aos céus deixa-nos o Espírito Santo para permanecer junto de nós, orando por nós e inspirando os nossos passos. A narrativa da Trindade aparece como a de um Deus que deseja ardentemente estar junto das suas criaturas e assim assume-se como pai, irmão e espírito junto de nós. A criatividade e o carisma – dito em linguagem inaciana – das três pessoas divinas revela uma constante preocupação em nunca nos deixar órfãos. O Pai cria, o Filho salva o Espírito santifica. Toda a nossa vida fica coberta pela proximidade de Deus, que nos quer criar, salvar e santificar, isto é, levar à plenitude da vida. O que nos aparece como mistério inexorável e incompreensível revela afinal a incrível proximidade de Deus.
Pode parecer surpreendente que a proximidade de Deus use um meio que nos é tão estranho, mas a incompreensão e o mistério perante Deus são precisamente o que caracteriza a diferença entre Deus e humanidade. Nunca o nosso entendimento pode abarcar e apoderar-se do insondável que Deus é, que inventa múltiplas formas de estar junto a nós, mesmo quando não compreendemos. A pretensão de compreender tudo ou explicar tudo rebaixaria Deus à nossa medida e semelhança, tirar-nos-ia o maravilhamento do mistério, do espanto, da surpresa que se revela.
A existência de três pessoas divinas é, na verdade, essencial para acompanhar a plenitude da nossa existência. Sem um Pai criador, um irmão, Deus feito Homem e um Espírito divino vivo em nós, a nossa vida ficaria incompleta. De facto, precisamos de ser gerados com um afeto paternal, que nos deseja e dá vida. Mas também de um irmão, que sofreu as nossas dores, sentiu as nossas alegrias e desejou salvar-nos pela sua morte e ressurreição. E ainda, não menos importante, de um Espírito divino a guiar os nossos passos, ensinar-nos a linguagem pela qual rezamos e dialogamos com Deus. Se alguma destas pessoas não existir, a nossa vida deixa de estar plenamente abraçada por Deus. Deus são três pessoas e é isso que permite que o sintamos junto a nós. As três pessoas que compõem a natureza divina são diferentes, distintas, mas o amor partilhado gera uma fusão que harmoniza todos os seus gestos. Um Deus que ame não pode ser concebido como ser solitário, antes um ser em própria relação consigo mesmo. Isto é, Deus precisa da relação com o próprio Deus. O Pai precisa da relação com o Filho, o Espírito precisa da relação que tem com ambos e, por fim, todos necessitam da relação com os seus filhos muito amados.
A natureza trinitária de Deus reflete o seu amor e desejo de abraçar toda a nossa vida.
Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.
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