A União Europeia necessita de psicanálise

| 19 Mai 19

A Europa vista de noite (foto de satélite): Entre os continentes, a Europa será “aquele em que, apesar das diferenças entre os países – e são muitas e históricas –, se percebe uma identidade coletiva própria que aproxima os povos”.

 

A Europa vê-se hoje confrontada com problemas e desafios muito profundos que vão muito além da necessidade, também ela urgente, da reformulação das suas instituições, da democratização de processos e da transparência de procedimentos. Importa olhar para o «subconsciente» da União Europeia e tentar perceber a causa de tão grande tormento. Dir-se-ia que a União Europeia necessita de fazer algumas sessões de psicanálise. Queiramos ou não, estejamos ou não de acordo, a realidade é que a União Europeia marcará o nosso futuro coletivo. Por isso mesmo, e ainda se outros interesses não houvesse, parece-me ser este suficiente para que enquanto cidadãos nos interessemos pelo nosso devir e exijamos dos que nos representam algo mais do que a abordagem mediática própria de uma campanha eleitoral.

A Europa será porventura, entre os continentes, aquele em que, apesar das diferenças entre os países – e são muitas e históricas –, se percebe uma identidade coletiva própria que aproxima os povos. Apesar da história diferente e própria de cada um dos povos que compõem este continente, a verdade é que ao longo dos séculos se foram tecendo laços e construindo pontes que permitiram a estruturação de uma história por muitos partilhada. Momentos houve em que essa mesma história tornou os povos mais próximos, havendo outros em que os afastou sem nunca os separar de verdade.

Na opinião de Tony Judt, “a Europa não é tanto um lugar, mas uma ideia, uma comunidade internacional pacífica e próspera de interesses partilhados e partes que colaboram; uma «Europa do espírito», dos direitos humanos, da livre circulação de bens, ideias e pessoas, de uma cooperação e unidade cada vez maiores”. E segundo Robert Menasse, escritor austríaco e defensor incondicional da Europa, “a União Europeia deve orgulhar-se de ser o primeiro sistema político da história a ter fundado a sua Constituição com base na Carta dos Direitos Humanos”.

É evidente, e disso importa que tenhamos consciência, que, tal como afirma Tony Judt, a União Europeia (UE) não é solução para tudo, porque “um dia acordaremos e dar-nos-emos conta de que, longe de ter resolvido os problemas do nosso continente, o mito da «Europa» se tornou um impedimento para que os identifiquemos. Descobriremos que ela se tornou pouco mais do que uma forma politicamente correta de esconder dificuldades locais, como se a mera invocação da promessa de Europa pudesse substituir a solução de problemas e crises que afetam realmente o lugar” (Tony Judt, Uma Grande Ilusão. Um Ensaio sobre a Europa, Edições 70).

No caso português, a UE ela é muitas vezes olhada como a causa de todos os nossos males, cabendo aos respetivos governos a coroa de louros para o que de bom fomos construindo. Apesar desta ambiguidade de sentimentos ou apropriação de méritos alheios, a verdade é que à União Europeia devemos muito do que hoje somos enquanto país, não só no que aos olhos é evidente, mas também em termos de valores, de práticas e de direitos. Sem esquecer a construção de um grande espaço de partilha, de aprendizagem e de mobilidade, o que rompe com uma certa tradição bem latina de um baixo grau de mobilidade social, o qual tem como consequência a existência de círculos de decisão e de poder restritos e fechados. Sem esquecer os inúmeros projetos, promovidos na sua maioria por pequenas organizações da Economia Social e Solidária e apoiados por dinheiros vindos da UE, os quais não apenas dinamizam as economias locais como são veículos de transformação de práticas, comportamentos e introdução de novos valores no tão propalado interior. Não me parece que centrar a discussão, como tantas vezes acontece, numa mão estendida à espera que nela caiam os milhões dos fundos europeus – esquecendo que são impostos de cidadãos – seja a melhor forma de discutir sobre a Europa.

É verdade que estamos longe da Europa que muitos de nós sonhámos. Pior ainda, o sentimento de que a Europa se tem afastado dos seus princípios e de que se está afastando cada vez mais dos cidadãos ou das expectativas que estes tinham quanto ao futuro coletivo. A Europa confrontou-se nos últimos tempos com problemas que evidenciaram, por um lado, as suas fragilidades e a ausência de uma política comum e solidária nas diferentes áreas e, por outro lado, levantam sérias questões sobre o caminho que tem sido seguido.

A crise dos refugiados e dos migrantes (diferentes na abordagem e na visão de futuro), a eurofobia crescente evidenciada no Brexit, mas também pelos partidos (ou grupos organizados) eurofóbicos e xenófobos que vão conquistando paulatinamente o espaço público. Importa recordar que, pela primeira vez após a II Guerra Mundial, 91 deputados da extrema-direita (AfD) marcam presença no Bundestag (Parlamento alemão); que na Áustria os conservadores obtiveram a chancelaria (Sebastian Kurz) a troco de uma coligação com o FPO, partido de inspiração profundamente nazista. Sem esquecer a complacência para com Viktor Órban na Hungria ou o partido Direito e Justiça, na Polónia.

Não deixa de ser um paradoxo que, segundo as previsões e a confirmarem-se as tendências, um quarto das cadeiras do Parlamento Europeu (PE) venham a ser ocupadas por eurofóbicos e, muitos deles, avessos a práticas democráticas. Se a estes somarmos os eurocéticos, sejam eles de esquerda ou de direita, percebemos que o próximo mandato do PE não se augura fácil. Se por um lado, de acordo com o politólogo búlgaro Ivan Krastev citado pela revista Philosophie magazine (nº 129, maio 2019), existe “o sentimento de que as democracias ocidentais falharam na resolução dos problemas, como o dos refugiados”, por outro lado ou em consequência, “Aparecem medos demográficos, ou seja, muitos perguntam-se se a nossa democracia liberal poderá sobreviver se o perfil ético e cultural das nossas sociedades mudar radicalmente”. E este é certamente um terreno bastante fértil para as sementes nacionalistas e populistas que vão sendo lançadas.

Do lado da Europa de Leste, segundo declarações do filósofo francês Pascal Bruckner à revista filosófica já referida, o sentimento é outro: “muitos cidadãos da Europa oriental consideram que Bruxelas está no comando de uma nova URSS, império que lhes infligiu um grande sofrimento durante décadas. Por outro lado, alguns destes países quase desapareceram. Não esqueçamos que a Polónia foi apagada por diversas vezes do mapa mundial. O seu regresso ao meio europeu era para eles como um regresso à sua identidade. Ora eles rapidamente olharam a Europa como um novo instrumento de despossessão: a Europa que dá ordens”.

Este é certamente um enorme desafio para a União Europeia e para todos nós. Ou seja: como construir uma Europa capaz de entender e de conjugar as motivações e expetativas nacionais, próprias de cada país, com um projeto comum capaz de responder aos desafios de um mundo globalizado que tende a deslocar o seu centro económico para Oriente, sem descurar as aspirações dos seus cidadãos e sem abdicar dos princípios identitários fundadores? A resposta a este desafio parece-me fundamental já que dela dependerá uma Europa com visão de futuro ou uma Europa fragmentada que mais não será que o pronúncio da sua decadência.

Acredito, quero continuar a acreditar, de que outro futuro é possível, de que outra Europa é necessária. Uma Europa com uma prática democrática em todas as suas vertentes, transparente, solidária, próxima dos cidadãos, respeito pela cultura dos povos que dela fazem parte, intransigente nos princípios estruturantes essenciais. Será porventura uma utopia, mas, como todas as utopias, trata-se de um caminho a percorrer sabendo que a cada passo estaremos mais próximos desse sonho a cumprir.

 

José Centeio é gestor de organizações sociais e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social); jose.centeio@gmail.com

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