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autores - Rúben Azevedo

A utilidade e atualidade das provas clássicas da existência de Deus

| 05/04/2024

a arte de viver em deus pormenor capa timothy radcliffe

“Ora, a meu ver, as chamadas provas da existência de Deus, também conhecidas por argumentos, não podendo efetivamente realizar o impossível, que é provar empiricamente a existência de Deus, realizam todavia algo que não só não é desnecessário e contraproducente, como é aliás útil.”  Foto: A arte de viver em Deus, pormenor capa do livro de  Timothy Radcliffe

Um admirável filósofo português que descobri muito recentemente, Eduardo Abranches de Soveral, o qual foi inclusive professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde estudei, escreveu acerca do Absoluto muitas coisas com as quais concordo e que eu próprio já escrevi. Uma das quais foi a de que a existência do Absoluto é “«óbvia, se aceitarmos a existência do relativo e do finito»”[1]. A asserção parece-me evidente, só não me parece a conclusão que Soveral daí retira, que é a de que são “«…desnecessárias e contraproducentes as chamadas provas da existência de Deus.»”[2]

Ora, a meu ver, as chamadas provas da existência de Deus, também conhecidas por argumentos, não podendo efetivamente realizar o impossível, que é provar empiricamente a existência de Deus, realizam todavia algo que não só não é desnecessário e contraproducente, como é aliás útil. A prova ontológica em particular, especialmente na forma original anselmiana, tem o condão de mostrar à consciência a existência necessária do ser necessário, ou seja, a absoluta irrefutabilidade do Absoluto enquanto existente. Com efeito, o argumento conduz-nos a uma tomada de consciência, que é a de que o “ser acima do qual nenhum outro pode ser pensado” é precisamente a Existência Suprema, a qual tem de existir. Se não existisse, a Consciência ficaria perante uma contradição radical, que seria a sua autocontradição ontológica, pois teria de aceitar que aquilo que efetivamente existe, não sendo Absoluto, é portanto fragmentário, discreto, descontínuo. Por outras palavras, teria de aceitar o Nada ontológico, ou seja, o nada subsistente, e não pode haver, para a Razão, maior contradição que esta – até porque a própria Consciência, segundo creio, é um absoluto radicada no Absoluto.

Deste modo, e como bem notou o filósofo alemão Karl Jaspers, o argumento ou prova ontológica da existência de Deus revela a irrefutabilidade radical do Absoluto como existente. Quer dizer, a consideração do “Ser acima do qual nenhum outro pode ser pensado” é pedagógica no sentido etimológico, pois conduz o pensamento a libertar-se de todas as determinações dos objetos particulares, elevando-o à consideração daquilo que não se parece com nada que possamos alguma vez conhecer. Aí, a consciência depara-se com o não-objeto, isto é, com a indeterminação, com o Aberto por excelência, não no sentido negativo de não-ser ou de pura abstração formal sem conteúdo, mas de existência absolutamente necessária, cuja inexistência é, por conseguinte, impensável, porque plenitude elevada ao infinito[3].

Na realidade, não se trata de deduzir – como se fosse possível – a existência do Absoluto a partir de certas premissas[4], mas de constatar uma evidência intrínseca ao pensamento da mais alta realidade: é o Absoluto pensado que nos revela a sua existência insofismável, pois ele não é outra coisa senão a Existência. É uma evidência tão forte quanto a do Cogito cartesiano, e igualmente fundamental, porque a consciência radical do eu sou – à qual se chega por via da dúvida radical, método análogo ao da teologia negativa dos místicos – comporta mais do que a certeza de uma existência particular contingente. Antes revela um absoluto, que é a alma, que assenta, como não poderia deixar de ser, num absoluto ainda mais fundamental, que é o Absoluto por excelência – Deus. Como já em tempos escrevi, a revelação de uma consciência a si própria como eu sou, porque é revelação de um absoluto, traz consigo a revelação mais fundamental do próprio Absoluto, porque a revelação de um ser a si próprio comporta sempre, necessariamente, a revelação do infinito do próprio Ser como “absoluto englobante”, para usar a expressão de Jaspers.

Assim, não é inútil a prova ontológica para revelar o Absoluto ao pensamento, ao contrário do que defende Soveral. Como não são inúteis duas provas em particular, sintetizadas por São Tomás de Aquino, a saber: a da Primeira Causa ou Causa Eficiente, e a prova do Ser Necessário. Também nestas o pensamento pode elevar-se à consideração do Absoluto, na primeira pelo paradoxo do motor imóvel, e na segunda pelo da causa não-criada, ou causa causa de si própria, reminiscente da causa sui Aristotélica. O paradoxo é sempre um modo útil de elevar o pensamento ao absoluto.

[1] Soveral, Eduardo Abranches, citado por Miguel Real, O pensamento português contemporâneo 1890-2010 – o labirinto da razão e a fome de Deus, Lisboa: INCM, pp. 860-861
[2] Idem.
[3] “Aquele que pensa, vendo o que pensa, que Deus é, não pode pensar que Deus não é. (…) Assim acontece com o pensamento de que qualquer coisa é, para lá do qual nada maior é pensável. Se compreendo isto, não posso ao mesmo tempo acreditar que aquilo que é assim pensado não é.” (in Jaspers, Karl, Razão e Contra-razão no nosso tempo, Lisboa: Minotauro)
[4] Por isso têm sido espúrias todas as tentativas de refutar este argumento. Porque se detêm exclusivamente na forma lógica e na análise conceptual, e não na visão e evidência intelectual que ele é capaz de revelar, visando a unidade do Ser.

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa). Contacto: intelecto.ativo@gmail.com

 

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